Morre no Rio o jornalista e membro da ABL Zuenir Ventura, aos 95 anos

Autor de ‘1968 — O ano que não terminou’ e ‘Cidade partida’ construiu carreira de quase sete décadas dedicada ao jornalismo, à literatura e ao retrato das transformações sociais do Brasil

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Morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, o jornalista e escritor Zuenir Ventura, integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL) e um dos nomes mais importantes do jornalismo brasileiro. A morte foi confirmada pela família. O escritor estava em sua casa, no Rio de Janeiro.

Autor de obras que ajudaram a retratar diferentes momentos da história recente do país, como 1968 — O ano que não terminou e Cidade partida, Zuenir combinou durante décadas o trabalho nas redações, a atividade acadêmica e a produção de livros-reportagem.

Zuenir Carlos Ventura nasceu em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, Minas Gerais. Filho do pintor de paredes José Ventura e da dona de casa Herina de Araújo, mudou-se aos 11 anos com a família para Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio.

Ainda jovem, trabalhou com o pai e como office-boy. Mais tarde, conseguiu uma bolsa de estudos em troca de aulas para crianças. Aos 20 anos, foi morar no Rio de Janeiro e ingressou no curso de Letras Neolatinas da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Do arquivo para as grandes reportagens

A entrada de Zuenir no jornalismo começou na Tribuna da Imprensa, onde inicialmente trabalhou como arquivista. A passagem para a reportagem aconteceu depois que se ofereceu para escrever sobre a morte do escritor e filósofo Albert Camus.

A partir daquele período, consolidou uma extensa carreira na imprensa. Passou por veículos como Correio da Manhã, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ e Jornal do Brasil. Em 1967, participou da criação do jornal alternativo O Sol.

Paralelamente, foi professor da Escola de Comunicação da UFRJ e da Escola Superior de Desenho Industrial. Entre os estudantes, ganhou o apelido de Mestre Zu.

Mesmo quando ocupava funções de chefia, Zuenir continuava defendendo o contato direto com personagens e acontecimentos como parte fundamental da reportagem.

“Nada substitui o olho no olho. Muitas vezes, o silêncio em uma entrevista fala mais do que as palavras”, afirmou ele em entrevista à Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo em 2008.

Livros transformaram reportagens em retratos do Brasil

Uma das obras mais conhecidas de Zuenir foi 1968 — O ano que não terminou, publicada em 1988. O livro reconstruiu os acontecimentos políticos, culturais e sociais de um dos períodos mais turbulentos da ditadura militar e se tornou referência para diferentes gerações.

A obra também serviu de inspiração para a minissérie Anos rebeldes, exibida pela TV Globo em 1992.

“A sensação é de que 1968 não foi um ano, mas sim um personagem. Tanto que, 50 anos depois, continuamos falando, comentando, explicando o que aconteceu. E é um personagem que não sai de cena, tamanha a fixação”, disse Zuenir ao Globo em 2018.

A experiência do jornalista com aquele período não ficou restrita à observação profissional. Em dezembro de 1968, após a edição do AI-5, Zuenir foi preso pelo regime militar e permaneceu encarcerado durante três meses.

“Não fui torturado, embora ficasse sempre com medo”, relatou posteriormente ao site Memória Globo.

Outra obra marcante foi Cidade partida, publicada em 1994. Resultado de uma extensa investigação sobre violência e desigualdade no Rio, o livro teve como um de seus principais cenários Vigário Geral, onde 21 pessoas foram assassinadas em uma chacina no ano anterior.

O trabalho colocou em primeiro plano moradores da comunidade e organizações da sociedade civil que reagiam à violência. Cidade partida conquistou o Prêmio Jabuti e se tornou referência nas discussões sobre desigualdade, segurança pública e segregação urbana.

Zuenir também transformou em livro a investigação sobre o assassinato do seringueiro e ambientalista Chico Mendes. A série de reportagens publicada originalmente no Jornal do Brasil recebeu os prêmios Esso e Vladimir Herzog e deu origem posteriormente a Chico Mendes — Crime e castigo.

Entrada para a Academia Brasileira de Letras

Em 1999, Zuenir passou a escrever como colunista do jornal O Globo, veículo no qual permaneceu durante décadas.

O reconhecimento pela trajetória ultrapassou as redações. Em 2008, recebeu uma homenagem da Organização das Nações Unidas por sua contribuição à defesa dos direitos humanos. Dois anos depois, foi escolhido jornalista do ano pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros.

Em 2014, Zuenir foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 32, que havia pertencido ao escritor Ariano Suassuna. Na cerimônia de posse, foi recebido por Cleonice Berardinelli, sua antiga professora na universidade. A ABL registra Zuenir como sucessor de Suassuna na cadeira.

Ao falar sobre o escritor paraibano em seu discurso de posse, lembrou:

“Eu ia ser o anticlímax da noite em que ele apresentaria uma de suas aulas-espetáculo, nas quais exercitava sua vocação de professor e sua alma de palhaço, mostrando como podia ser sério e divertido, popular e clássico, regional e urbano, trágico e cômico, um sertanejo universal.”

Já aos 91 anos, Zuenir recebeu, em 2022, o prêmio Faz Diferença na categoria livros. Na ocasião, comemorou a homenagem:

“É o melhor presente que poderiam me dar” disse ele. “É uma honra ser premiado por uma iniciativa que valoriza a democracia.”

Ao longo de quase sete décadas de atividade profissional, Zuenir transformou acontecimentos políticos, conflitos sociais e personagens brasileiros em reportagens e livros que ajudaram a registrar diferentes períodos da história contemporânea do país.

O jornalista deixa a mulher, Mary Ventura, e os dois filhos do casal, o jornalista Mauro e a editora Elisa. Ele será velado no mausoléu da da Academia Brasileira de Letras (ABL) no Cemitério São João Batista, em Botafogo, na Zona Sul do Rio, nesta quarta (23).

Governo do Rio destaca legado de Zuenir Ventura

O Governo do Estado do Rio de Janeiro lamentou a morte de Zuenir Ventura e destacou a ligação construída pelo jornalista e escritor com o estado ao longo de sua trajetória. Embora tenha nascido em Minas Gerais, Zuenir mudou-se ainda criança para Nova Friburgo, na Região Serrana, e posteriormente construiu no Rio parte significativa de sua carreira profissional e de sua produção literária.

Em nota de pesar, o governo ressaltou a contribuição do escritor para o jornalismo, a literatura e a memória brasileira:

“O Governo do Estado do Rio de Janeiro lamenta profundamente a morte do jornalista, escritor e Imortal da Academia Brasileira de Letras, Zuenir Ventura, um dos grandes nomes da imprensa e da literatura brasileira.

Natural de Minas Gerais, ele construiu uma profunda ligação com o Rio de Janeiro. Aos 11 anos, mudou-se com a família para Nova Friburgo, na Região Serrana, onde começou a construir sua trajetória no estado que se tornaria cenário de parte importante de sua vida e obra.

Foram mais de seis décadas de carreira, com passagens por alguns dos principais veículos de comunicação do país, deixando uma contribuição marcante para o jornalismo, a literatura e a memória do país.

Neste momento de tristeza, o Governo do Estado do Rio de Janeiro se solidariza com familiares, amigos, colegas de profissão e admiradores das obras de Zuenir Ventura.”

A Câmara dos Vereadores também emitiu nota. Veja a íntegra:

A Câmara Municipal do Rio de Janeiro lamenta profundamente a morte do jornalista e escritor Zuenir Ventura, aos 95 anos, nesta terça-feira (22/09). Um dos grandes nomes da imprensa brasileira e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Zuenir construiu, ao longo de mais de seis décadas, uma trajetória dedicada ao jornalismo, à literatura e à compreensão das transformações sociais e políticas do país.

Mineiro de Além Paraíba, Zuenir fez do Rio de Janeiro parte essencial de sua obra e de seu olhar sobre o Brasil. Autor de livros que se tornaram referências, como ‘1968: o ano que não terminou’ e ‘Cidade partida’, registrou diferentes momentos da história brasileira, especialmente as contradições e os desafios da sociedade carioca. Sua série de reportagens sobre Chico Mendes lhe rendeu os prêmios Esso e Vladimir Herzog, enquanto ‘Cidade partida’ recebeu o Prêmio Jabuti de Reportagem.

Membro da ABL desde 2015, onde ocupava a cadeira 32, Zuenir Ventura deixa uma contribuição permanente para o jornalismo e para a cultura brasileira. A Câmara do Rio se solidariza com familiares, amigos, colegas de profissão e leitores que tiveram suas vidas marcadas pelo trabalho, pelo olhar sensível e pelo talento de um dos grandes da imprensa nacional.”

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