Morre Erno Schneider, um dos maiores fotógrafos da história do jornalismo brasileiro

O fotógrafo Erno Schneider (1935-2022), um dos mais importantes nomes do fotojornalismo brasileiro na segunda metade do século XX, morreu ontem aos 87 anos, no Rio de Janeiro, onde morava. De acordo com relatos iniciais, o fotógrafo teria caído em casa. Schneider foi sepultado no cemitério São João Batista, em Botafogo, cercado de amigos e…

O fotógrafo Erno Schneider (1935-2022), um dos mais importantes nomes do fotojornalismo brasileiro na segunda metade do século XX, morreu ontem aos 87 anos, no Rio de Janeiro, onde morava. De acordo com relatos iniciais, o fotógrafo teria caído em casa. Schneider foi sepultado no cemitério São João Batista, em Botafogo, cercado de amigos e antigos colegas.

Com sua partida, o Brasil perde um dos maiores fotógrafos de sua história. Nascido em Feliz, no Rio Grande do Sul, e tendo trabalhado em todos os grandes jornais e revistas brasileiras, Erno é um dos pioneiros da fotografia jornalística moderna no país.

É autor daquela que muitos consideram a foto mais importante da historia política do Brasil, que registra a imagem do então presidente Janio Quadros com os pés tortos e trocados, um verdadeiro simbolo da confusão que o país vivia sob a hesitaçao do presidente, que acabaria renunciando o jogando o país numa crise sem precedentes.

Além de grande profissional, Erno era de uma simpatia que o tornava uma pessoal agradável, bem humorada, de quem todos queriam ser amigos.

Erno tinha um conceito sobre fotografia jornalística:

“Fotografia tem de ser na rua. Sentir as coisas, sentir a vida. Olhar, principalmente olhar. Você tem se observar muito bem. Tem de ser o grande observador. Observar e clicar.”

Foi o maior repórter fotográfico de um jornal que marcou época, o Correio da Manhã. A Arfoc, Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio de Janeiro, registra um pouco da vida de Erno Schneider e de sua importância na história da fotografia.

O Correio da Manhã foi um matutino carioca fundado por Edmundo Bittencourt em 15 de Junho de 1901 teve como característica fazer oposição crítica a quase todos os presidentes brasileiros durante sua existência. Esse foi o motivo das sucessivas perseguições e de seu fechamento no dia oito de julho de 1974 durante o período militar. 

A sua importância na produção de imagens que ficaram para a história foi principalmente na “Era Erno Schneider”, durante a primeira fase dos governos militares. Erno chegou à sede do Correio na Avenida Gomes Freire, Centro do Rio, logo depois do Golpe de 1964. Gaúcho da cidade de Feliz nasceu em 1935 e já rapaz foi para Caxias do Sul em busca de novos horizontes. 

Aprendiz de fotografia foi para Porto Alegre em busca de um sonho. Em depoimento à pesquisadora Silvana Louzada declarou “Meu sonho era trabalhar em um jornal, eu olhava as fotos e pensava, eu vou trabalhar em um grande jornal”. O jovem Erno tentou o Correio do Povo não deu, tentou o Diário também não aceitaram, então resolveu ir até o jornal de Leonel Brizola, O Clarim, então chefiado por Carlos Contursi que resolveu apostar no jovem e disse “Pega a máquina e vamos fazer uns trabalhos”.

Erno já no Rio de Janeiro começou a ficar conhecido por suas fotografias no Jornal do Brasil em especial na foto definitiva do presidente Jânio Quadros que lhe valeu o prestigioso “Prêmio Esso de Fotografia” em 1962. A fotografia foi feita em 21 de abril de 1961 quando o presidente Jânio Quadros resolveu atravessar a pé a ponte que liga a cidade de Uruguaiana a Los Libres na Argentina. A imagem teve muita repercussão e suas fotos começam a ser analisados pela imprensa de todo o país, todos desejavam contar com ele em seu departamento fotográfico. 

Depois de ser sondado por vários jornais e revistas, resolve aceitar o convite de Niomar Moniz Sodré para dirigir com plenos poderes o departamento fotográfico do Correio da Manhã. Começou aí a fase de ouro do Fotojornalismo no Brasil. No período 1964/1969 os fotojornalistas do Correio produziram com suas imagens uma narrativa que ficará para sempre como um precioso documento de nossa história. 

Páginas gráficas vinham mostrar a qualidade, e principalmente a coragem de uma equipe sem igual. Fica aí mais do que provado a importância do editor de fotografia e a máxima que parece redundante: “Quem conhece fotografia acima de todos é o bom fotógrafo”, um recado aqueles que foram colocados na função sem nunca terem efetuado o essencial trabalho de campo, que nunca sujaram os sapatos importados em um dos recantos cheios de lama de um campinho de várzea, ou em uma das 950 favelas cariocas.

Sob a orientação de Erno Schneider os repórteres fotográficos Luiz Pinto, Milton Santos, Manoel Gomes da Costa, Rodolpho Machado, Osmar Gallo, Rubens Seixas, Sebastião Marinho entre outros, aliados à experiência de Luiz Bueno Filho e a qualidade de Luiz Vilhena no laboratório fotográfico colocaram a equipe do Correio em um patamar ao nível internacional. 

Vilhena tinha um olhar fotográfico sem igual e com seus cortes no ampliador dava destaque a um pequeno detalhe que às vezes poderia passar despercebido. Muitos jovens que tiveram passagem pelo Correio tremiam quando entregavam seus filmes para ser revelados, um lembrete para controlar o Ego de muitos profissionais, principalmente porque o foco automático ainda não tinha sido inventado. Na porta giratória do laboratório havia uma placa com os seguintes dizeres: “Aqui se Matam os Cobras”.

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