Moradores relatam casas reviradas e manhã de terror no Santa Marta

Tiros, buscas em residências e forte presença policial marcaram a ação contra integrantes do Comando Vermelho na comunidade de Botafogo

O amanhecer desta terça-feira (23) foi marcado por momentos de tensão no Morro Dona Marta, em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Uma operação da Polícia Civil contra integrantes do Comando Vermelho transformou a rotina da comunidade em um cenário de medo, apreensão e incerteza para moradores que acordaram sob o som de tiros e explosões. Seis pessoas foram presas.

Desde as primeiras horas do dia, agentes da corporação ocuparam acessos ao morro e intensificaram as buscas em diferentes pontos da comunidade. Na Rua São Clemente, uma das principais vias da região, dezenas de viaturas se concentraram ao longo da pista, alterando o trânsito e chamando a atenção de quem passava pelo local.

Durante a ação, um passageiro de ônibus foi atingido por disparo na Rua São Clemente. As circunstâncias do caso ainda estão sendo apuradas.

Enquanto policiais subiam e desciam os acessos da comunidade para cumprir mandados judiciais, moradores observavam a movimentação com preocupação, temendo novos confrontos e os impactos da operação sobre a vida cotidiana.

Relatos de medo e insegurança

Entre os moradores, os relatos refletem uma manhã marcada pelo medo.

Uma das cenas marcantes, segundo O Globo, foi a de uma mulher chorando na entrada da comunidade. Segundo familiares, sua companheira foi levada para a Cidade da Polícia após agentes encontrarem no celular dela conversas consideradas suspeitas durante as diligências.

O episódio aumentou a tensão entre moradores, que acompanhavam o avanço das equipes policiais sem saber exatamente o alcance das medidas adotadas.

Uma aposentada de 62 anos, avó da jovem conduzida pelos policiais, relatou o impacto da operação sobre sua família.

“Acordei com muito tiro, muito tiro. A comunidade é tranquila. Eu moro quase no pé do morro. Entraram na minha casa e reviraram ela toda, deixaram tudo bagunçado. Eu tenho problema no coração”, contou ao Globo.

A moradora afirmou que os agentes permaneceram por longo período dentro do imóvel e que a família passou a manhã em estado de apreensão.

Casas reviradas durante buscas

A operação incluiu o cumprimento de mandados de busca e apreensão em diversos imóveis da comunidade.

Em uma das residências visitadas pela equipe de reportagem do Globo, os cômodos apresentavam sinais da ação policial. Objetos estavam espalhados pela cozinha, quartos e banheiro, segundo relato da família.

Ainda abalada, a aposentada criticou a forma como a busca foi conduzida.

“Eles fizeram zona no meu apartamento. Eu nao sou bandida para entrarem assim. Essa minha outra netinha aqui nem vai para a escola. Acordamos no terror. Passaram duas horas na minha casa”, relatou.

Os relatos de moradores evidenciam o impacto das operações policiais sobre a população local, especialmente em áreas onde ações de grande porte costumam alterar a rotina da comunidade.

Investigação durou quase dois anos

A ofensiva é coordenada pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) e integra uma investigação que se estendeu por cerca de 22 meses.

Segundo a Polícia Civil, o trabalho identificou uma estrutura criminosa ligada ao Comando Vermelho instalada no Dona Marta, com integrantes responsáveis por diferentes funções relacionadas ao tráfico de drogas e ao controle armado do território.

As investigações apontaram a participação de 44 pessoas na organização criminosa.

De acordo com a corporação, os suspeitos exerciam funções variadas dentro da estrutura da facção, incluindo atividades operacionais, logística do tráfico e monitoramento da movimentação na comunidade.

Prisões e mandados judiciais

Até a última atualização divulgada pela Polícia Civil, quatro pessoas haviam sido presas durante a operação.

Além das detenções realizadas na comunidade, outros oito mandados de prisão estão sendo cumpridos dentro do sistema prisional contra investigados que já se encontram encarcerados.

As diligências envolvem ainda o cumprimento de mandados de busca e apreensão destinados à coleta de provas e informações que possam contribuir para o aprofundamento das investigações.

Estratégia contra expansão do crime organizado

A ação faz parte da Operação Contenção, estratégia adotada pelo Governo do Estado para enfrentar a expansão territorial do Comando Vermelho em diferentes regiões do Rio de Janeiro.

Segundo as autoridades, o objetivo é enfraquecer a estrutura das organizações criminosas, impedir o avanço sobre novas áreas e cumprir mandados judiciais expedidos pela Justiça.

As equipes permanecem mobilizadas na comunidade para dar continuidade às diligências e concluir o cumprimento das ordens judiciais.

Enquanto isso, moradores tentam retomar a rotina após uma manhã marcada por confrontos, buscas policiais e incerteza sobre os desdobramentos da operação.

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