Moradores de Vila Isabel, tradicional bairro da boemia carioca, vivem sob o impacto da guerra entre facções do tráfico

Violência mudou rotina do bairro de Noel Rosa e Martinho da Vila; população não sai mais de casa após 18h

O bairro do Rio que embala com a cadência de Noel Rosa e Martinho da Vila enfrenta, hoje, um ritmo bem diferente. O som predominante é o das rajadas de tiros provenientes do Morro dos Macacos, palco de uma violenta disputa entre facções rivais do tráfico. No ano passado, o conflito resultou em 12 mortes e segue fazendo vítimas nos primeiros dias de 2025.

No primeiro domingo do ano, um intenso tiroteio aterrorizou a região. Uma bala perdida atravessou a janela do apartamento de uma moradora no movimentado Boulevard Vinte e Oito de Setembro. De acordo com a residente, o projétil perfurou a parede de um cômodo onde ela aprendeu a se proteger durante os frequentes confrontos.

— Era o quarto onde eu costumava me esconder quando escutava tiros. Graças a Deus, naquele dia, fui me proteger no banheiro — relatou.

Quem mora na comunidade também vive em constante alerta. A vida noturna foi sufocada pelo perigo iminente. Moradores dizem que, quando escure, as pessoas evitam andar nas ruas. Muitas têm pedido para sair mais cedo do trabalhar. Até o Centro Municipal de Saúde Maria Augusta Estrella, na Rua Visconde de Santa Isabel, a cerca de 600 metros da favela, precisou fazer ajustes no horário de acordo com o clima no bairro. A unidade, que normalmente funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 20h, e aos sábados, das 7h às 12h, precisou encerrar as atividades mais cedo nas últimas duas semanas devido à insegurança.

— O posto está fechando mais cedo. Meu marido já veio duas vezes para a consulta marcada e não consegue ser atendido por causa dessa guerra. Ele tem pressão alta e precisa dos remédios, não pode faltar. A situação é horrível, porque a gente fica com medo. Tem que sair e fazer tudo de dia, porque a gente não sabe o horário que vai começar (o tiroteio). A partir das 18h todo mundo fica em casa. Essa é a nova regra — disse uma idoso que mora no Macacos.

Mas nem durante o dia há paz. Na manhã de quarta-feira, Antônio Alves da Costa, de 76 anos, foi morto no Morro São João, no Engenho Novo, onde traficantes que tentam tomar o Macacos se abrigam. O idoso caminhava pela Rua Acaré com a ajuda de um andador, pois se recuperava de um recente AVC, quando foi atingido por uma bala perdida. No momento, havia uma troca de tiros entre policiais militares e traficantes. Para o filho da vítima, o militar da Marinha Hugo Leonardo Alves, a morte de seu pai teve um objetivo claro: pôr fim à presença da polícia na comunidade:

— Tenho certeza de que foi intencional, para acabar com a operação. Para a polícia se retirar, mataram meu pai. Ele entrou para a estatística, não vai mudar nunca essa situação.

A morte de Antônio ainda é reflexo da brutalidade do ano passado. Só em dezembro, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado, foram 22 tiroteios. Em 2024, foram 80 registros, totalizando 12 mortos e 10 feridos. Nessa estatística está o adolescente Guilherme Souza de Assis, de 13 anos, morto no Macacos, em agosto, durante um confronto junto à mãe. Na mesma ocasião, o entregador Luiz Gabriel Costa de Jesus, de 20 anos, morreu baleado ao voltar para casa após o expediente.

Essa insegurança desenfreada tem feito até mesmo o preço dos imóveis despencar em Vila Isabel, foi um dos bairros mais importantes da Zona Norte. Conforme revelam dados do Centro de Pesquisa e Análise da Informação, do Secovi Rio, o preço de casas e apartamentos residenciais cai de R$ 5.429 em maio para R$ 5.269 em dezembro. Para Celso Barreto, de 75 anos, que mora há 65 na Rua Senador Nabuco., a situação do bairro está “impraticável”:

— Todos querem sair. Minha mulher não vê a hora de conseguir ir embora, mas para vender teríamos que abaixar muito o preço. Eu moro em um prédio bom, o apartamento é grande. Minha vizinha, por exemplo, teve que vender o dela por R$ 60 mil. Não tem condição.

Quando não há o barulho dos tiros, impera o silêncio. À noite, quanto mais próximo às entradas do morro, mais desertas estão as ruas. Entre 19h e 20h30 da última terça-feira, ao menos 11 viaturas e cinco motos da PM se encontravam baseadas no entorno da favela. Na Praça Barão de Drummond, conhecida por Praça Sete, a pouca movimentação tem sido recorrente. Localizada a menos de 400 metros do início da comunidade, ela é rodeada por bares e barracas de comida que, em tempos mais tranquilos, ganhavam vida durante a noite. De acordo com uma comerciante da praça, o fluxo de clientes caiu significativamente desde o início do último mês, quando os tiroteios se intensificaram. Em relato, ela conta que, em dias de evento, os criminosos aproveitam para “aterrorizar” o local:

— Esses confrontos afetam a gente de tal forma, que ninguém quer vir para cá. Aqui tem vários comércios que estão fechando de vez. Não existe mais movimento. Toda vez que a gente tenta fazer algum evento, e a própria Escola de Samba é prova viva disso, eles vêm aterrorizar. Dão tiro, tentam ameaçar alguém, ou assaltam. A guerra deles reflete na gente. Toda hora acontece um tiroteio e afeta a praça.

Na Rua Torres Homem, também próxima ao Macacos, o posto de vistoria do Detran se mantém quase que desértico. Dois funcionários contaram que, desde o aumento da violência, as pessoas evitam a unidade.

— Só vem mesmo quem mora aqui, quem pode trocar de posto, troca. Já teve tiro aqui, porque a estrutura não é fechada. Uma bala chegou a atingir a janela da vizinha, bem aqui, na altura que estamos. Eu gostaria de trocar de unidade, ficamos na mira do morro aqui.

A guerra no Macacos é provocada por uma ação expansionista do Comando Vermelho que tenta tomar a favela do Terceiro Comando Puro. Essa disputa é antiga, mas ganhou proporções nos últimos meses. Isso porque bandidos da comunidade teriam mudado de lado. Fontes da Polícia Civil, ouvidas pelo GLOBO, apresentam duas possibilidades para esse rompimento. Ambas envolvem o gerente local, o traficante Leandro Nunes Botelho, o Scooby-Doo, que tem 11 mandados de prisão em aberto — o mais antigo é de 2013. A primeira seria uma suposta proibição de roubos na região para evitar a presença policial, enquanto a segunda aponta para uma má gestão das bocas de fumo, praticamente falidas. Nos dois contextos, traficantes teriam se revoltado, principalmente porque estavam sem receber “salário”. Os insatisfeitos resolveram migrar para o Morro São João.

Com informações de O GLOBO.

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