Em depoimento de aproximadamente quatro horas ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta segunda-feira (9), o tenente-coronel Mauro Cid revelou detalhes sobre a articulação de uma tentativa de golpe de Estado ao fim do governo de Jair Bolsonaro (PL). A reportagem é do O Globo, que acompanhou os principais trechos do interrogatório conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes.
Cid, que foi ajudante de ordens de Bolsonaro e se tornou delator no inquérito que apura a trama golpista, afirmou que o próprio ex-presidente alterou uma minuta de decreto de teor antidemocrático, citou envolvimento direto do general Braga Netto na entrega de dinheiro vivo e relatou que o ex-comandante da Marinha, Almir Garnier, teria colocado tropas “à disposição” de um possível movimento de ruptura institucional.
A seguir, os principais pontos do depoimento:
1. Bolsonaro editou pessoalmente minuta golpista
Segundo Cid, Bolsonaro recebeu uma minuta do assessor Filipe Martins que previa a prisão de ministros do STF e autoridades do Congresso. O ex-presidente teria feito alterações no texto, mantendo apenas o ministro Alexandre de Moraes como alvo. “De certa forma, ele enxugou o documento, retirando as autoridades das prisões. Somente o senhor (Moraes) ficaria como preso, o resto…”, disse Cid, arrancando risos do próprio Bolsonaro após comentário irônico de Moraes.
2. Marinha teria sinalizado apoio ao golpe
O delator afirmou que o então comandante da Marinha, Almir Garnier, declarou que suas tropas estariam “à disposição” para apoiar uma ruptura institucional. Cid descreveu Garnier como parte da ala “radical” do entorno bolsonarista.
3. Freire Gomes é apontado como freio à tentativa golpista
Cid diferenciou a postura do então comandante do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes, classificando-o como legalista. “Para todos que me consultaram, eu sabia que nada iria acontecer porque conhecia o general Freire Gomes”, declarou o militar, reforçando que o general era contrário a qualquer ação fora da legalidade.
4. Braga Netto entregou caixa de vinho com dinheiro vivo
Cid confirmou que recebeu de Braga Netto uma quantia em espécie no Palácio da Alvorada, acondicionada em uma caixa de vinho, e que o dinheiro foi repassado ao major Rafael Martins de Oliveira, apontado como operador do plano golpista. Estima-se que o valor seja inferior a R$ 100 mil. “Provavelmente, pelo que a gente sentia ali, era o pessoal do agronegócio que estava de certa forma ajudando”, disse Cid, em referência à suposta origem dos recursos.
5. Busca por fraude nas urnas como justificativa para golpe
Segundo Cid, Bolsonaro e Braga Netto esperavam encontrar alguma irregularidade nas urnas eletrônicas que pudesse servir de pretexto para ação das Forças Armadas. “A expectativa era que fosse encontrada uma fraude nas urnas. Com a fraude, poderia convencer as Forças Armadas a fazer alguma coisa”, relatou. Apesar disso, Cid afirmou que Bolsonaro nunca disse expressamente que era necessário forjar uma fraude.
6. Negou ter sido coagido pela Polícia Federal
Questionado sobre áudios em que reclamava de pressão de autoridades, Cid negou qualquer coação e afirmou que se tratava de desabafos pessoais. “Foi um momento difícil. Isso gerou uma crise pessoal e psicológica muito grande. Nada foi dito de forma oficial ou acusatória”, declarou, reforçando que seus relatos foram prestados de forma voluntária.
7. Apoio do Exército aos acampamentos
Cid disse que os acampamentos em frente aos quartéis, onde se pediam intervenções militares, contaram com apoio “tácito” do Exército, e que a partir de 11 de novembro de 2022 houve inclusive respaldo formal por meio de nota conjunta dos comandantes militares em defesa da liberdade de reunião.
O depoimento de Mauro Cid, recheado de revelações sobre bastidores da tentativa de golpe, reforça o papel central de militares e de integrantes do governo Bolsonaro nas articulações golpistas.





