Movimentos simples, como levar um copo à boca ou assinar um documento, podem se tornar difíceis para quem convive com tremores provocados pela doença de Parkinson ou pelo chamado tremor essencial. Pensando em melhorar a qualidade de vida desses pacientes, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) estão desenvolvendo uma tecnologia que pode ajudar a controlar esses sintomas sem necessidade de cirurgia. A expectativa do grupo é que o dispositivo chegue ao Sistema Único de Saúde em até três anos.
A iniciativa surgiu no Programa de Engenharia Biomédica da Coppe e consiste em um dispositivo que aplica pequenos estímulos elétricos na superfície da pele. A intenção é modular os sinais nervosos relacionados ao controle dos movimentos e, assim, diminuir a intensidade dos tremores.
A estimulação elétrica é configurada para atuar nas vias nervosas relacionadas ao controle motor, com o objetivo de reduzir o problema, em alguns casos, até interrompê-lo.
“O laboratório da Coppe trabalha muito com a parte sensorial, de neurociência. Estudamos como modula a atividade cerebral. Então, fazemos trabalhos de estimulações auditivas, visual, sensitiva e começando com a olfativa. A ideia era mandar essa informação para que interferisse nas atividades elétricas cerebrais que produzem os tremores”, explica o professor Carlos Júlio Criollo, do Programa de Engenharia Biomédica da Coppe e coordenador do estudo.
O equipamento ainda está em fase experimental, mas já começou a ser utilizado em testes clínicos com pacientes acompanhados no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, na Ilha do Fundão.
“No estudo piloto, que temos oito pacientes, os resultados são promissores. Temos pacientes nos quais os tremores foram reduzidos em 30%, outro chegou a 80%. Na média, diria que temos 40% [total de resultados positivos]. Mas nosso objetivo final é chegar a 60%. Como vamos chegar nisso? Fazendo investigações de parâmetros, como intensidade, frequência…”, completa Criollo.

Entre os participantes dos testes está Sebastião Félix, de 66 anos. Diagnosticado com Parkinson há 12 anos, ele é acompanhado pela equipe da UFRJ há cerca de oito e relata melhora após começar a utilizar o dispositivo.
“É uma doença que não tem cura, afeta sua vida. Quando eu vim para cá, melhorei bastante. Dá esperança”, afirma.
Alternativa a tratamentos invasivos
O controle dos sintomas do Parkinson costuma depender principalmente de medicamentos que atuam na reposição de dopamina, substância importante para o funcionamento do sistema motor. Apesar de ajudarem a reduzir os sintomas, esses remédios podem perder parte da eficácia com o tempo e provocar efeitos colaterais, como explica a neurologista Ana Lúcia Rosso, chefe do serviço de Neurologia do hospital universitário.

“Temos poucas medicações e com muitos efeitos colaterais. Os pacientes que têm doença de Parkinson são, geralmente, mais velhos. Existem mais novos, que toleram melhor as medicações, mas a maioria são os mais velhos. Esses remédios dão muita alteração, precisa tomar muito cuidado. Ou seja, não dá para prescrever uma dose adequada ao tremor para que eles possam fazer suas atividades normais”, salienta.
Em algumas situações, médicos recorrem à estimulação cerebral profunda. Esse procedimento envolve a implantação de eletrodos no cérebro para regular a atividade elétrica de determinadas regiões. Embora seja uma alternativa eficaz para parte dos pacientes, trata-se de uma intervenção invasiva e de alto custo.
Segundo a médica, sempre que existe a possibilidade de controlar os tremores sem recorrer a cirurgias ou ao aumento da medicação, essa tende a ser a opção mais segura para muitos pacientes.
“Tudo que for não invasivo, principalmente com uma doença que afeta mais pessoas idosas, é o que a gente quer.”
Ana Lúcia Rosso, chefe do serviço de Neurologia do hospital universitário
Como funciona o dispositivo
O equipamento desenvolvido pelos pesquisadores recebeu o nome de Mestim Eléctrico. Ele utiliza eletrodos posicionados sobre o pulso para enviar estímulos elétricos de baixa intensidade, configurados de acordo com as necessidades de cada paciente.
Esses estímulos podem ser ajustados em parâmetros como frequência, amplitude e duração do pulso elétrico. O objetivo é encontrar a combinação capaz de reduzir os tremores sem causar desconforto.

De acordo com Danielle Martins, doutoranda em Engenharia Biomédica e integrante da equipe de pesquisa, um dos diferenciais da tecnologia está na forma das ondas elétricas utilizadas.
“Cada pessoa tem um limiar de sensibilidade a corrente elétrica senoidal. Então, quando a gente altera a intensidade, adapta o estímulo a esse limiar de cada pessoa. Ou seja, às vezes a intensidade de uma corrente mais alta, em alguém, não vai ser o suficiente para uma outra pessoa que precisa de uma intensidade mais alta ainda para sentir a estimulação”, aponta a pesquisadora.
Enquanto muitos equipamentos disponíveis no mercado trabalham com ondas retangulares, Danielle explica o motivo do dispositivo criado na universidade utilizar ondas senoidais.
“A onda senoidal tem duas características que a tornam diferente: mais confortável a percepção e exige uma menor intensidade da corrente de estímulo. Além disso, ela é seletiva ao tipo de fibra. Ou seja, dependendo da frequência da onda, posso estimular preferencialmente a fibra C, que é responsável por levar os impulso doloroso para o cérebro, ou a fibra Aβ, que é responsável pelos estímulos táteis”, detalha.
Monitoramento remoto
Outro ponto importante do projeto é a possibilidade de acompanhar os pacientes à distância. O dispositivo pode ser controlado por meio de um aplicativo no celular, que permite registrar as sessões de uso e enviar as informações para uma base de dados.
“A proposta final, que necessitamos de uma empresa para nos ajudar a levar como produto, é ter uma pulseira. Nessa pulseira estaria o estímulo e toda parte eletrônica. Ela teria conexão com o celular, o paciente teria o programa”, diz o coordenador.
“Essa informação seria repassada para um banco de dados que estamos construindo, que nos permitirá controlar quando o paciente está aplicando.”
Carlos Júlio Criollo, coordenador do estudo

Com isso, médicos e pesquisadores conseguem acompanhar a evolução do tratamento de forma remota, ajustando os parâmetros da estimulação quando necessário. A integração com ferramentas de telemedicina e sistemas conectados também abre caminho para que o tratamento possa ser realizado em casa no futuro.
“Precisamos trabalhar um pouco mais em termos de tempo, uma coisa que dure mais tempo, que o paciente possa levar para casa e usar”, afirma a neurologista.
Pesquisa com potencial de aplicação no SUS
O projeto envolve uma rede de pesquisadores de diferentes áreas e instituições. Além da Coppe e do hospital universitário da UFRJ, participam da iniciativa o Instituto de Neurologia Deolindo Couto e o Hospital Universitário Pedro Ernesto, ligado à Uerj.
O desenvolvimento da tecnologia conta com financiamento de agências públicas, como a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio (Faperj) e a Financiadora de Estudos e Projetos.
“Quando você tem uma inovação que possivelmente esse paciente vai usar um relógio, uma luva, que diminui esses tremores, faz com que ele tenha uma qualidade de vida. E isso é o investimento da Faperj retornando para a sociedade. A gente mantém uma bolsa para que possamos desenvolver cada vez mais pesquisas como essa”, destaca a presidente da Fundação, Caroline Alves.

A expectativa da equipe é produzir novos protótipos para ampliar os testes em outras unidades de saúde. A longo prazo, os pesquisadores esperam que a tecnologia possa ser incorporada ao atendimento público, beneficiando pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde.
Mas para que chegue aos hospitais, o dispositivo, que ainda está na fase de teste, precisa passar pelo processo de aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
“O grande desafio agora é terminar o estudo piloto. Já vimos resultados promissores, então agora vamos aplicar em mais pacientes. O ideal é que chegue a 40, 50, o máximo que conseguirmos. O segundo passo seria fazer o produto. Vamos desenvolver dez protótipos que serão implementados em outras unidades hospitalares do SUS”, finaliza Criollo.


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