No verão, praias, rios, piscinas e cachoeiras ficam lotados no Rio de Janeiro e em todo o país. Em meio ao calor e à busca por diversão, um hábito comum segue oferecendo um risco grave, e muitas vezes subestimado: o mergulho de cabeça. Um erro que pode causar traumatismo craniano, lesões na coluna, afogamento e até sequelas neurológicas permanentes.
No dia 1º deste mês, o empresário Edvan Vetterlein viveu esse risco em União da Vitória, no sul do Paraná. Durante um mergulho em uma piscina, ele bateu a cabeça no fundo, ficou desorientado e começou a se afogar.
Nas imagens registradas no local, Edvan tenta se deslocar até a borda, mas não consegue. Amigos ao redor acreditaram que ele estava apenas brincando. O resgate só aconteceu porque a mulher dele percebeu a gravidade da situação e pulou na água.
“Isso me deixou desesperado. Eu sempre mergulhava e ficava um bom tempo debaixo da água, estava acostumado. Então, eu tinha certeza que meus amigos não iam perceber que eu estava me afogando. Minutos antes, cheguei a brincar que ia derrubar minha mulher na piscina, com roupa e tudo”, relata o empresário à Agenda do Poder.
Veja o vídeo:
“Eu apaguei por alguns segundos, quando eu voltei do desmaio não sentia os braços e nem as pernas. Tentei nadar para chegar à borda da piscina, mas não consegui. Bateu aquele desespero. Tentei de todas as maneiras e nada. O alívio veio no momento em que escutei minha mulher gritando: ‘Ajudem ele’. Eu fiquei quase 1 minuto debaixo d’água até minha mulher vir e me tirar”, detalha.
Para médicos, esse tipo de relato é típico de lesões neurológicas transitórias associadas ao trauma cervical, quadros que exigem avaliação imediata e imobilização adequada.
“Quando há um traumatismo cervical, geralmente o traumatismo craniano também está associado. Isso (o trauma) causa lesão direta no cérebro e na medula, é o mecanismo que chamamos de lesão primária, quando você tem o impacto sobre o sistema nervoso. E aí pode causar essa perda de função, que é transitória, ou causar perda de função definitiva”, explica o neurocirurgião Flávio Nigri, professor da Universidade do Estado do Rio (Uerj) e chefe do serviço de neurocirurgia do Hospital Universitário Pedro Ernesto.
Um perigo evitável, sequelas para o resto da vida
Nigri reforça que esse tipo de trauma é mais comum do que parece, com uma média de 600 a 800 casos por ano no país.
“A gente às vezes vê um caso ou outro na mídia, mas é uma coisa que acontece corriqueiramente na prática do neurocirurgião. E é mais comum no verão, quando o pessoal está de férias e tem o aumento do consumo de álcool, que dá aquela falsa segurança em mergulhar”, diz.

O médico de trauma e ortopedista Márcio Carpi, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), destaca que o mergulho de cabeça está entre os mecanismos mais perigosos de trauma cervical. Segundo ele, trata-se de um acidente evitável, que pode deixar sequelas permanentes.
“Uma das sequelas permanentes é a lesão da coluna cervical, que causa danos neurológicos — pode ser paraplegia, tetraplegia, que é pior ainda e acontece com frequência, porque lesão na coluna cervical é lesão alta. Há risco de morte por afogamento, porque não se consegue sair da água, não há braço nem perna para se mover. Se não tiver ninguém perto, a pessoa morre afogada”, pontua.
Na paraplegia, a lesão provoca a perda parcial ou total dos movimentos e da sensibilidade dos membros inferiores. Já a tetraplegia ocorre quando a lesão é mais alta, na coluna cervical, afetando as pernas, braços e, em casos mais graves, funções vitais como a respiração.
“Nós temos sete vértebras cervicais e 12 torácicas. A coluna cervical tem uma grande mobilidade, a torácica não tem, é fixada pela caixa torácica, pelas costelas. É justamente nessa parte de transição que tem as maiores fraturas. E quando se tem uma fratura da coluna cervical, pega a medula, que é muito sensível ao trauma. Por isso essas lesões são mais frequentes nessa região e graves. Até porque o controle de todo corpo vem da coluna cervical, inclusive o controle respiratório”, completa o neurologista.

Após o resgate e o atendimento médico, Edvan descobriu que não havia sofrido uma lesão permanente na medula. O susto, no entanto, deixou uma marca profunda e mudou a forma como ele enxerga o risco do mergulho de cabeça.
“Veio o resultado da tomografia, sem nenhuma lesão na medula, na espinha, graças a Deus. Eu tive esse grande livramento, mas depois do que aconteceu, vimos relatos de várias pessoas que sofreram esse acidente e ficaram paraplégicos, tetraplégicos”.
“No momento em que eu estava no fundo da piscina, bateu aquele desespero, um aperto no peito. Fiquei com isso na minha cabeça: ‘Vou ficar paraplégico ou tetraplégico com essa pancada na cabeça?’. Digo, para todas as pessoas: não pulem de cabeça na piscina”.
Edvan Vetterlein, empresário
Trecho da entrevista
Avaliação neurológica e prognóstico

Flávio Nigri destaca que todo paciente com suspeita de lesão medular passa por um exame neurológico detalhado logo na chegada ao hospital. A avaliação permite identificar se a lesão é completa ou incompleta, a partir da presença, ou ausência, de movimentos e sensibilidade nos braços e nas pernas.
“Isso tudo vem de um protocolo quando a pessoa tem um traumatismo da região cervical. Quando há o traumatismo mais grave, ela tem que ser abordada de uma maneira que garanta todas as condições clínicas. Porque pode ter uma lesão parcial, uma coluna desalinhada ou instável, que pode piorar essa lesão”, explica.
Conforme o especialista, a conduta correta envolve imobilizar o paciente, levá-lo rapidamente ao hospital e realizar os exames necessários para avaliar a extensão da lesão. Dois sinais merecem atenção especial após um trauma cervical: dor ou contratura intensa no pescoço e qualquer tipo de déficit neurológico, como perda de força ou sensibilidade.
Ocorrências no Rio e os locais de maior risco
O tenente-coronel Fábio Contreiras, porta-voz do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro, afirma que os acidentes por mergulho de cabeça não estão entre as principais causas de afogamento, mas ocorrem com certa frequência, principalmente em praias próximas a costões.

“É muito perigoso justamente porque quando a gente fala de praias, temos situações em que o banhista, desavisado, sem ambiente aquático, entra em um banco de areia, por exemplo, e não percebe que o fundo está muito próximo. Então, pode se lançar para a água e acabar batendo de cabeça. Uma outra causa muito comum também é quando a pessoa é surpreendida por uma onda, estando de costas, e cai de cabeça no chão”, detalha.
Segundo o tenente-coronel, o resgate dessas vítimas é considerado complexo porque a lesão pode evoluir rapidamente e, se não for bem manejada, levar à morte, de forma imediata ou nas horas seguintes.
“O principal é retirar do meio aquático, a gente entende que a causa inicial que vai levar a morte é o afogamento. Então, não adianta imobilizar a vítima debaixo da água. Existe uma técnica dos nossos bombeiros que imobiliza vítima no meio aquático — ela é retirada com essa imobilização que procura preservar ao máximo coluna, pescoço e cabeça”, explica.
Quando a vítima permanece consciente, alguns sinais são claros indicativos de lesão: formigamento, perda de sensibilidade, diminuição da força e dificuldade ou incapacidade de nadar de volta para um local seguro.
“A vítima é levada para a areia, colocada em uma posição onde a gente consegue fazer a imobilização, colocar na posição natural, alinhar os membros para verificar outras lesões, e se ela não estiver com nível de afogamento grave, após tratar, é transportada para uma ambulância em uma prancha rígida, com cintos que fazem ficar estabilizada, colar cervical e com bloco de cabeça, que impede ela de fazer movimento lateral da cabeça”, salienta Contreiras.
Por que não tentar ajudar sem treinamento
O tenente-coronel faz um alerta importante para quem presencia esse tipo de acidente.
“Qualquer movimento que você faça, que seja fora do protocolo, de girar, rotacionar, colocar para frente, estender ou flexionar a cabeça e pescoço, pode ocasionar lesões graves principalmente nas cervicais, que ficam mais em cima, e podem levar à morte”, orienta.
“A gente não recomenda, em nenhuma hipótese, que a pessoa tente fazer a imobilização, o transporte e o resgate por conta própria. Deixe para os profissionais, isole a cena, não deixe os curiosos se aproximarem”.
Tenente-coronel Fábio Contreiras, porta-voz do Corpo de Bombeiros
Dicas para evitar acidentes
Como forma de prevenção, o Corpo de Bombeiros orienta que, principalmente na praia, as pessoas evitem mergulhar próximas a bancos de areia.
“A gente costuma dizer que o ideal é nunca mergulhar. Entre com os pés primeiro, e um de cada vez. Vá notando a profundidade do ambiente e, a partir dali, uma vez conhecendo o ambiente, faça um mergulho mais comedido”, detalha.
Em cachoeiras, rios e lagos, onde a água costuma ser mais turva, a orientação é ainda mais rígida: não realizar saltos ou mergulhos de cabeça em hipótese alguma, mesmo em locais considerados “famosos” ou conhecidos por moradores da região.
“Até mesmo se você é morador da área, uma pessoa que está acostumada a frequentar esses locais, não mergulhe. Porque naquele dia pode ter tido um deslocamento de um tronco, de uma árvore… Se mergulhar de cabeça, a pessoa pode ir a óbito ou ter uma lesão muito grave”, reforça Contreiras.
Número de afogamentos no estado do Rio
No estado do Rio de Janeiro, o Corpo de Bombeiros realizou 3.077 resgates por afogamento entre 19 de dezembro e 8 de janeiro deste ano.
Entre 2023 e 2025, a Secretaria de Estado de Saúde registrou 67 atendimentos a vítimas de afogamento entre janeiro e março. A maioria dos casos envolveu crianças de 0 a 4 anos, seguida por crianças de 5 a 9 anos.
Já nos hospitais municipais, o número de atendimentos por afogamento em piscinas e águas naturais chegou a 120 em 2024 e subiu para 167 em 2025. O perfil predominante das vítimas é masculino, com maior incidência entre crianças de até 11 anos e adultos jovens, de 20 a 39 anos.


Deixe um comentário