A Mata Atlântica, bioma mais devastado do país, perdeu 2,4 milhões de hectares de florestas entre 1985 e 2024. Metade desse desmatamento ocorreu em áreas com mais de 40 anos, conhecidas como florestas maduras, segundo um levantamento divulgado pelo MapBiomas e reportado pelo g1. Apesar de avanços pontuais na regeneração, a cobertura vegetal original segue em queda, e hoje resta apenas 31% da vegetação nativa.
Destruição desacelera, mas o saldo ainda preocupa
De acordo com o estudo, o ritmo de destruição diminuiu nas últimas quatro décadas, mas o balanço geral ainda é negativo. Desde 1985, o bioma perdeu 11,5% de sua vegetação nativa. Entre 2005 e 2014, pela primeira vez, o ganho florestal superou as perdas, com regeneração líquida de 200 mil hectares. Essa tendência, porém, estagnou nos últimos dez anos.
“Depois da Lei da Mata Atlântica, é possível notar um ligeiro aumento na área florestada, mas o ritmo de perda e de recuperação voltou a se equilibrar nos últimos anos”, explica Natalia Crusco, da equipe Mata Atlântica do MapBiomas.
Avanço agropecuário amplia a pressão sobre o bioma
O principal vetor do desmatamento é o avanço da agropecuária. A agricultura praticamente dobrou de tamanho em 40 anos e hoje ocupa 19% da área total do bioma, impulsionada por lavouras de soja e cana-de-açúcar que se expandem sobre antigas pastagens.
A soja cresceu 343% desde 1985 e já responde por um quarto da produção nacional dentro da Mata Atlântica, concentrada sobretudo no Paraná. A cana-de-açúcar, por sua vez, aumentou 256%, com São Paulo abrigando quase 70% das plantações. A silvicultura comercial também ganhou força: áreas de eucalipto e pinus multiplicaram-se por cinco e alcançam agora 4,5 milhões de hectares.
Floresta mostra sinais de recuperação
Em meio às perdas, outro estudo divulgado pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Centro de Ciência para o Desenvolvimento Estratégia Mata Atlântica mostra que a floresta tem reagido. Entre 1993 e 2022, 4,9 milhões de hectares voltaram a ser cobertos por vegetação nativa, o equivalente a todo o território do estado do Rio de Janeiro.
Mas essa recuperação é frágil: 22% das áreas regeneradas foram novamente desmatadas. “A Mata Atlântica mostra uma impressionante capacidade de regeneração natural, mesmo sob pressão, mas parte dessa floresta ainda volta a ser suprimida. Estamos ganhando e perdendo florestas ao mesmo tempo”, afirma Luís Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da fundação.
Recuperação concentrada em pequenas propriedades
Segundo o levantamento, 45% da regeneração ocorre em pequenas propriedades rurais, onde a vegetação volta a crescer de forma natural em áreas de encostas, margens de rios e bordas de plantações, locais onde o uso agrícola é limitado.
Os estados de Minas Gerais e Paraná lideram tanto o desmatamento quanto a regeneração, enquanto São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo já registram saldo positivo — fenômeno conhecido como transição florestal, quando o ganho de cobertura supera as perdas.
“São estados que já atravessaram a fase mais crítica de destruição e agora vivem um ciclo de recuperação líquida. É um sinal de que, quando a pressão diminui e as políticas de proteção se mantêm, a floresta responde”, afirma Jean-Paul Metzger, pesquisador da USP.
Desafio é consolidar a regeneração com políticas permanentes
Especialistas defendem que o país precisa garantir que o atual processo de regeneração seja duradouro. Para isso, sugerem o fortalecimento do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento da Mata Atlântica (PPCDMA), do Planaveg e a ampliação dos programas de pagamento por serviços ambientais (PSA).
“A regeneração florestal é aliada tanto do clima quanto da economia rural. Se conseguirmos consolidar esse processo, a Mata Atlântica pode se tornar uma referência internacional em recuperação de ecossistemas”, conclui Metzger.






Deixe um comentário