Marina critica decisão da Justiça de manter sob sigilo inquérito que investiga origem de grandes queimadas

Ministra listou que até aqui foram contabilizados 988 incêndios, cada um podendo ter milhares de focos: 513 foram debelados, 210 controlados, 119 estão ativos em combate e 86 ativos sem combate

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, defendeu nesta quarta-feira (2), as ações do governo no combate às queimadas que atualmente atingem grandes áreas do país. Ela destacou as prioridades adotadas para enfrentar a situação, mas também criticou a decisão da Justiça de manter sob segredo um inquérito que investiga a origem de um incêndio em Corumbá (MT), em área pública do Pantanal.

No caso mencionado pela ministra, já foram realizados sete pedidos de busca e apreensão contra o investigado, cujo nome permanece em sigilo. A ministra expressou preocupação com a transparência da investigação e a importância de responsabilizar os envolvidos nas queimadas.

— Frustração, porque é um desmatador em Corumbá que tem cerca de 2.600 cabeças de gado em uma área pública do Pantanal e tacou fogo para poder se apropriar. Aí a justiça botou em segredo de justiça. Sinceramente, para ter processo de dissuasão, tem que dizer o nome da pessoa que está fazendo isso. Até para que outros verifiquem, porque geralmente quem é pego na frente botando fogo, geralmente não é alguém que tem capacidade de ter, só numa área ocupada ilegalmente, 2600 cabeças de gado — afirmou Marina Silva, que vem defendendo aumento nas punições de incêndios.

A ministra afirmou que os recursos extraordinários para o enfrentamento aos incêndios já superaram R$ 670 milhões, mas é preciso “ampliar mais ainda”, admitiu.

A ministra listou que até aqui foram contabilizados 988 incêndios – cada um podendo ter milhares de focos: 513 foram debelados, 210 controlados, 119 estão ativos em combate e 86 ativos sem combate, estes na maioria em locais remotos e de difícil acesso.

Anunciada há três semanas, a Autoridade Climática prometida por Lula ainda não saiu do papel. Nesta quarta (2), a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, defendeu a construção da política pública “com senso de responsabilidade” e fugindo da ânsia de ações que entregam apenas “pirotecnia para poder lacrar”.

Segundo a ministra, o novo órgão seria mais um dentro de uma governança climática que serviria, entre outras coisas, para agir com prevenção no estoque de insumos para comunidades afetadas por secas. Em meio à falta de definição sobre o desenho da Autoridade, que poderia ficar subordinado diretamente à presidência, Marina defendeu que o Ministério do Meio Ambiente seja o gestor, por sua capacidade técnica.

Um dos motivos que tem atrasado a evolução da proposta é a falta de definição sobre o organograma do futuro órgão, que poderia ser uma autarquia ou uma agência. Em entrevista ao  Globo na semana passada, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, afirmou que apenas uma “apresentação de powerpoint” havia sido entregue à sua pasta, há dois meses, e que ainda havia muito a refletir, inclusive sobre se a melhor alternativa seria realmente colocar o novo órgão sob a atribuição do Ministério do Meio Ambiente ou não. 

Marina Silva afirmou, em evento do projeto G20 que a proposta já constava no plano de governo de Lula em 2022, e que vem sendo concretamente debatido desde fevereiro do ano passado, com inspiração na Autoridade Nacional da Segurança Nuclear. A ministra defendeu que a sua pasta é a mais indicada para gerir o futuro órgão e usou como exemplo a Anvisa, ligada ao Ministério da Saúde.

— Nesse momento há um processo de discussão interna no governo. Tem uma complexidade que é a criação de um novo marco legal para a figura da emergência climática.  Hoje, nós temos emergência para quando o desastre acontece, nós não temos para uma ação preventiva antecipada — explicou a ministra, que afirmou que o fato da Anvisa ser ligada ao Ministério da Saúde não tira sua autonomia. — A mesma coisa seria a Autoridade Climática, porque pressupõe “know how” (conhecimento) e todo um conjunto de ações que precisa estar no bloco certo. A autoridade é uma instituição técnica, exatamente para evitar qualquer tipo de sazonalidade política, colocando os dados, fazendo modelagens e os alertas.

Como um dos exemplos de ação da futura autoridade, a ministra citou o abastecimento de alimentos e água potável a comunidades isoladas pela seca na Amazônia. Nessas situações, uma cesta básica que custaria de R$ 300 a R$ 400, transportada pelos rios, saltaria para R$ 2.500 pela necessidade de transporte aéreo. Com a Autoridade Climática, diz, seria possível fazer estoque de insumos, em posse dos dados que indicam a previsão da seca.

A ministra explicou que o marco legal da emergência climática organizaria a governança composta pela Estratégia Nacional, a Autoridade Climática, o Comitê Técnico-Científico e o Conselho Nacional de Segurança Climática. Marina Silva reforçou que o organograma precisa estar pronto antes do que ela chamou como “personograma” e fez referências a promessas sem base científica na época da pandemia da Covid-19 como algo a ser evitado.

Após o evento, perguntada sobre o que seria a referência à lacração citada, Marina disse que a fala serviria para ela mesma, como gestora.

— Muitas vezes o gestor público, na pressão, porque tem que dar uma resposta, apresenta uma medida que ainda não teve a necessária maturação — respondeu. — O problema vai permanecer, infelizmente. Nós começamos o ano com enchentes e estamos terminando com seca severa.

Marina Silva ainda explicou que a Autoridade Climática não seria um “xerife climático”, focado em sanções, mas sim preocupado com formulação de propostas e modelagens de cenários.

O projeto G20 no Brasil tem o Governo do Estado do Rio de Janeiro como estado anfitrião, Rio capital do G20 como cidade anfitriã, patrocínio de JBS, apoio do BNDES e realização dos jornais O Globo e Valor Econômico e rádio CBN.

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