Vamos lá pessoal, perder é do jogo e daqui a quatro anos a gente tenta de novo. A gente sabe que a confiança na Seleção anda abalada, e muita gente tem torcido o nariz para aquela camisa amarela, seja pela questão política, pela oposição à CBF ou o preço exorbitante. Mas a Copa 2026 ainda não acabou, e com isso a gente pode agora aproveitar para ir além dos craques da bola e lembrar de grandes personagens, operários dos bastidores, que, o destino, este gozador, os tornou mais constantes na memória visual da Seleção do que muitos dos ídolos. Durante sete Copas do Mundo, de 1950 a 1974, diversos jogadores e técnicos aparecem nas fotografias oficiais, mas um único personagem é constante em todas elas: o massagista Mário Américo. Some a isso os 24 anos de Nocaute Jack, e a dupla soma quase meio século de presença ininterrupta ao lado dos craques da Seleção, de 1950 a 1994. 

Muito antes de existir departamento médico multidisciplinar e fisioterapeuta com PHD em Delaware, a Seleção Brasileira contou apenas com esses dois ex-boxeadores, um balde de água com gelo e uma pomada para decidir o destino de cinco Copas do Mundo. Mário aprendeu a levar um direto no queixo antes de aprender a tratar uma contusão e Jack só virou massagista porque era o único que tinha, acredite, um cursinho de enfermagem. O que nos dias de hoje soaria como pesadelo de qualquer departamento de RH bastava na época para cuidar de Pelé.   

E o mais divertido é que os dois se tornaram tão importantes quanto os craques que cuidavam. Enquanto o mundo lembra de Garrincha, Pelé ou Zico, quem realmente aparece em todas as fotos oficiais, de 1950 a 1994, sem exceção, sem lesão, sem contusão, é a dupla de massagistas mais influente da história do futebol brasileiro. 

Quem foi o massagista Mário Américo? 

Nascido em Monte Santo de Minas no ano de 1912 e falecido em 1990, Mário Américo foi a personificação máxima do massagista histórico do futebol brasileiro. De infância muito pobre, ele desembarcou sozinho em São Paulo aos oito anos de idade, fugindo da vida na fazenda onde trabalhava com a família. Começou como engraxate, foi mecânico, baterista em orquestras noturnas (até o juizado de menores pôr fim à aventura) e acabou encontrando uma paixão no boxe. Treinado pelo argentino Aristides Jofre, ele disputou lutas como peso leve no Rio de Janeiro e construiu uma carreira de dez anos nos ringues. 

Ele esteve em sete Copas do Mundo, de 1950 a 1974, e conquistou três títulos: 1958, 1962 e 1970. Era tão querido pelos jogadores da época que foi ele quem convenceu Pelé a não desistir da Copa de 1970, depois de dois mundiais marcados por lesões.  Conhecido como Tio, ele acumulava as funções de psicólogo informal e protetor dos atletas, tendo inclusive conquistado uma vaga como vereador na cidade de São Paulo em 1981 após se aposentar dos gramados e ser substituído, curiosamente, por outro ex-boxeador. 

Mário Américo e seu famoso balde de água com gelo que levantava até defunto (Crédito: Reprodução)

E quem foi Nocaute Jack? 

Abilio José da Silva nasceu em Andrelândia, no ano de 1923, e morreu em Teresópolis em 16 de maio de 2003. Ele ganhou o apelido de Nocaute Jack pelo apreço que tinha pelo boxe, que praticou desde muito jovem. Mas foi no telecatch _ aquela mistura de luta livre e ficção que fazia sucesso no Brasil dos anos 1960 e até hoje é uma coqueluche no México _ que ele realmente se destacou. A carreira de massagista começou no São Cristóvão onde foi escolhido para a função por ser o único no clube que tinha feito um cursinho de enfermagem. 

Em 1969, Nocaute Jack virou massagista do Cruzeiro e, no ano seguinte, foi contratado pela Seleção Brasileira para substituir o lendário Mário Américo. Trabalhou em sete Copas do Mundo, de 1970 a 1994, e conquistou dois títulos: 1970 e 1994. Gérson, o Canhotinha de Ouro, fumante contumaz, tinha um acordo com ele: no intervalo dos jogos, Nocaute já deixava o fósforo preparado para acender o cigarro do amigo no vestiário. 

Nocaute Jack: anjo da guarda da Seleção (Crédito: Reprdoução)

O rádio que só falava sueco e o roubo da bola na Copa de 1962 

Não foi à toa que Mario Américo se tornou uma das figuras mais carismáticas e divertidas dos bastidores da Seleção Brasileira. Vivendo intensamente o cotidiano do futebol ao longo de 24 anos, ele acumulou inúmeras histórias inusitadas.  

Na Copa do Mundo de 1958, na Suécia, Garrincha gastou uma fortuna comprando um rádio de última geração. De olho no aparelho, Mário combinou uma travessura com os outros jogadores e convenceu o ingênuo craque de que o aparelho não prestava porque “só transmitia programas em sueco”. Triste com a “compra inútil”, Garrincha aceitou vender o rádio de luxo para o massagista por uma fração minúscula do preço original. 

Já em 1962 a cena foi espetacular. Quando acabou a grande final no Chile, o chefe da delegação brasileira, Paulo Machado de Carvalho, ordenou que Mário Américo fizesse de tudo para trazer a bola do bicampeonato mundial para o Brasil. Sem pestanejar, o massagista foi visto correndo tal qual um Usain Bolt e escondeu a pelota oficial dentro de sua camisa e voou para o vestiário seguido pelos fiscais da FIFA. Quando o obrigaram a fazer a devolução, o malandro Mário entregou uma réplica. A bola original do título viajou em segurança para o Brasil. 

A bola original da final de 1962 devidamente furtada por Mario Américo (Crédito: Reprdoução)

O pombo-correio e o tratamento de choque 

Como você pode conferir na excelente série da Netflix “Brasil 70: a saga do tri”, Mário Américo tinha mais de uma função à beira do gramado. Em várias cenas ele aparece trocando ideias com Zagalo sobre a atuação do time. Sempre que os técnicos precisavam mandar ordens urgentes para mudar o posicionamento dos atletas, algum jogador brasileiro simulava uma lesão grave e caía no gramado.  

Mário disparava com sua mala de atendimento médico e, enquanto fingia massagear a perna do atleta lesionado, cochichava novas instruções táticas da comissão técnica no ouvido dele. Mas ver Mario Américo entrar correndo em campo nem sempre era só alegria. 

Se ele percebesse que o jogador estivesse fazendo cera para sair, Mário simplesmente espremia uma esponja grossa e congelante, que carregava num balde com água e gelo, e a apertava no rosto do atleta sem qualquer aviso. O choque térmico era tão grande que o jogador se levantava instantaneamente e voltava a correr, para o delírio da torcida. 

Não seria exagero afirmar que Mario Américo tinha seu próprio jeito de lidar com as situações (Crédito: Reprodução)

A relação com Pelé   

A relação entre os dois ia muito além do profissionalismo; eles tinham uma forte amizade baseada em lealdade, proteção e confiança mútua. Mário Américo era uma espécie de protetor e “anjo da guarda” do Rei do Futebol dentro das concentrações. Por ser um dos poucos que conseguia blindar Pelé do assédio constante de fãs, jornalistas e dirigentes, o massagista ganhou total liberdade com o craque. Essa proximidade permitia que Mário cuidasse pessoalmente do bem-estar físico e psicológico de Pelé, vigiando desde o seu sono até os mínimos detalhes de sua recuperação física. Pelé o considerava um membro de sua família nos bastidores da Seleção.   

Durante uma das concentrações da Seleção, ele dividiu o quarto com Pelé e acordou no susto, no meio da madrugada, ao ver o Rei do Futebol andando de um lado para o outro. O camisa 10 estava completamente sonâmbulo, gesticulando no escuro e cabeceando bolas imaginárias no teto do quarto. Mário precisou guiar o craque de volta para a cama com todo o cuidado para não atrapalhar o descanso do maior jogador do mundo. 

Mário Américo tratando de Pelé (Crédito: Reprodução)

A alegria nas cambalhotas 

Vampeta, que desceu a rampa do Palácio do Planalto dando cambalhotas, que nos desculpe, mas Nocaute Jack já era famoso pela mesma comemoração há muitíssimo mais tempo. Ele próprio contava que a tradição começou muito antes, no México, em 1970. Logo após o gol de cabeça de Pelé que abriu o placar na grande final contra a Itália, Nocaute Jack invadiu o campo para festejar. Emocionado com o lance histórico do Rei, ele deu a sua primeira cambalhota em Copas do Mundo bem diante das câmeras, inaugurando sua marca registrada de comemoração. 

Mas a imagem mais famosa de Nocaute Jack na história da televisão mundial aconteceu na final da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. No instante exato em que o craque italiano Roberto Baggio isolou o pênalti decisivo que garantiu o tetracampeonato ao Brasil, o massagista, já com mais de 70 anos de idade, não se conteve e deu uma cambalhota perfeita no gramado para comemorar. O gesto correu o mundo e virou símbolo da explosão de alegria brasileira. 

O guarda-costas dedicado e homenageado em um gol histórico 

Com seu porte físico intimidador de peso-pesado, Nocaute Jack funcionava como um verdadeiro guarda-costas da Seleção Brasileira. Sempre que o clima esquentava e começava uma briga generalizada, Jack corria para o tumulto e impor respeito, protegendo os craques brasileiros que reconheciam sua dedicação cega ao time. 

Tanto que certa vez ele arrancou gargalhadas na comissão técnica durante um amistoso preparatório no Chile. Ao ver um jogador brasileiro caído no gramado, ele disparou em velocidade máxima carregando a sua pesada maleta médica. No meio do caminho, Jack deu um passo em falso, sentiu uma fisgada forte e sofreu uma lesão na panturrilha. O atendimento teve que ser invertido: os jogadores se levantaram para carregar o massagista, que saiu de campo mancando e fazendo piada da própria situação. 

Mas o episódio mais bonito de sua carreira aconteceu na histórica e tensa partida contra a Holanda pelas quartas de final da Copa de 1994. Aquela na qual o lateral-esquerdo Branco soltou um petardo em cobrança de falta para marcar o gol da vitória por 3 a 2. Na comemoração, Branco correu em direção ao banco de reservas e apontou para Nocaute, gritando que o gol era dele. Dias antes, Branco vinha sofrendo com terríveis dores nas costas e passou por intensas sessões de massagem madrugadas adentro comandadas por Nocaute Jack, que conseguiu recuperar o jogador a tempo de decidir a partida. 

Branco dedicou seu golaço contra a Holanda a Nocaute Jack (Crédito: Reprodução)

Depois deles, acabaram os massagistas folclóricos? 
 

Depois de Nocaute Jack, que em 1994 deixou o banco de reservas para se tornar administrador da Granja Comary, a era dos massagistas que acumulavam Copas como quem coleciona figurinhas estava chegando ao fim. O cargo, que antes era vitalício, passou a ser mais rotativo, e a figura do massagista começou a ser gradativamente substituída por fisioterapeutas e outros profissionais da saúde. Até a chegada de um nome que reataria, décadas depois, o fio da tradição inaugurada por Mário e Jack: Adenir Silva, o Pai Deni. 

Adenir Silva, o Pai Deni, nasceu em Santo Antônio de Pádua, no dia 20 de setembro de 1948, e faleceu em 1º de janeiro de 2024. Ele teve sua trajetória profissional intimamente ligada ao Clube de Regatas do Flamengo, onde trabalhou por mais de quatro décadas cuidando de gerações de craques que iam de Zico a Bruno Henrique. Sua competência técnica e presença carismática nos vestiários renderam a ele convocações para servir à comissão técnica da Seleção Brasileira nas décadas de 1980 e 1990. 

O apelido nasceu na Seleção Brasileira e carregava um duplo sentido: além do acolhimento paterno que ele dava aos atletas, fazia alusão ao seu profundo respeito pelas tradições religiosas de matriz africana. Muitos jogadores acreditavam que suas massagens vinham acompanhadas de uma “energia protetora” ou de uma “bênção” especial que afastava lesões e trazia sorte nos jogos.  

Pai Deni, o último dos moicanos entre os massagistas folclóricos (Crédito: Reprodução)

Pai Deni foi o último representante de uma linhagem que começou com Mário Américo e passou por Nocaute Jack. Uma linhagem de homens que curavam com as mãos e com o coração. Mas o fim da figura com a toalhinha branca no ombro, na verdade, foi uma transformação gradual da função. Em 2006, por exemplo, Carlos Alberto Parreira cortou um massagista da comissão técnica para abrir vaga para um segundo fisioterapeuta. Foi um sinal claro de que a ciência do esporte estava tomando o lugar da intuição. 

A figura do massagista, que antes era praticamente um membro da família da Seleção, foi sendo substituída por profissionais com formação em fisioterapia, educação física e medicina esportiva. O próprio Pai Deni reconhecia que “já não tem mais massagista por aí”. O fim do massagista tradicional não foi uma demissão em massa, mas uma evolução natural do futebol, inevitável, mas que levou um pedacinho de sua alma no processo. 

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