Em uma baía histórica e esquecida, onde o mar da Guanabara já foi mais limpo e os navios eram sinônimo de riqueza, repousa uma cidade de contradições vibrantes. São Gonçalo, a metrópole fluminense que coleciona títulos tão variados quanto sua história: de arraial açucareiro a “Manchester Fluminense”, e de potência industrial a maior “cidade-dormitório” do estado. Sua origem remonta a 1579, quando um capitão chamado Gonçalo Gonçalves recebeu uma sesmaria para plantar cana — e, sem saber, plantou também a semente de um gigante. Batizada em homenagem a um santo português casamenteiro, a cidade desde cedo mostrou que sua vida não seria monótona.

Sua trajetória é uma montanha-russa administrativa. Em 1892, no fervor da jovem República, São Gonçalo viveu seu momento mais burocraticamente hilário: foi elevada à categoria de cidade em maio e, num golpe de caneta do presidente estadual, rebaixada de volta a vila em julho, sob a alegação oficial de que ainda não “tinha jeito de cidade”. Ela só se firmou no mapa, de vez, em 1929. Mas aí já estava a caminho de seu auge, trocando a enxada pelas chaminés. A proximidade com a capital, os rios e a estrada de ferro a transformaram num dos principais polos industriais do Rio de Janeiro, cheia de fábricas de cimento, sardinhas, fósforos e tecidos que fizeram a economia do estado rugir.

Hoje, conhecida por abrigar uma legião de trabalhadores que cruza a Ponte Rio-Niterói todos os dias, São Gonçalo é um lugar de contrastes e memórias resilientes. Entre galpões industriais silenciosos e mirantes de vista deslumbrante, ela guarda desde a Fazenda Colubandê – que hospedou Dom João VI – até o triste caso do Palacete do Mimi, derrubado barbaramente à revelia do tombamento.

Suas praias têm vista para o Pão de Açúcar, mas definitivamente não são próprias para o banho, e sua história é marcada por portas que se abriram para imigrantes na Ilha das Flores e, em tempos sombrios, se trancaram para presos políticos. São Gonçalo é dessas cidades que exigem tempo, curiosidade e um certo humor para serem entendidas. Quem se dispõe a conhecê-la descobre que, mesmo quando parece dormir, ela está apenas juntando forças para continuar existindo.

Vista da Ilha das Flores, em São Gonçalo | Crédito: Arquivo Nacional / Reprodução

Qual é a origem da cidade?

A semente de São Gonçalo foi plantada na sesmaria doada pelo governador Martim Correia de Sá ao capitão Gonçalo Gonçalves, em 1579, para a criação de um engenho.

O núcleo inicial se desenvolveu em torno da Freguesia de São Gonçalo do Amarante, nome dado em homenagem ao santo português, criada em 1646. Sua localização estratégica, às margens do Rio Imboaçu e com acesso à Baía de Guanabara, foi crucial para seu crescimento inicial baseado na agricultura canavieira e na pesca.

Conforme detalha a historiadora gonçalense Liliane Balonecker, em seu trabalho “São Gonçalo: Do Rural ao Industrial”, a fertilidade das terras e a navegabilidade dos rios atraíram fazendeiros e comerciantes, formando um arraial próspero. A vila se tornou ponto de passagem e abastecimento para os tropeiros que seguiam do Rio de Janeiro em direção ao Norte Fluminense, consolidando sua importância regional muito antes da industrialização.

Vista de São Gonçalo, já chamada de ‘Manchester Fluminense’ | Crédito: Prefeitura de São Gonçalo / Reprodução

Quem foi o São Gonçalo?

São Gonçalo do Amarante, o padroeiro, não é um santo brasileiro, mas português. Nascido em Guimarães por volta de 1187, foi um frade dominicano conhecido como o “Santo Casamenteiro” e o “Padre dos Pobres”. Sua fama de realizar casamentos e ajudar solteiras tornou seu culto extremamente popular em Portugal e no Brasil colônia.

Historiadores da Igreja Católica, como o padre José de Souza, em “Santos de Portugal”, relatam que ele era um pregador itinerante, que construía pontes (física e metaforicamente) e dedicava sua vida aos mais necessitados.

A devoção a ele foi trazida pelos primeiros colonizadores portugueses da região, que batizaram a freguesia em sua homenagem, consolidando uma identidade religiosa que permanece forte, especialmente durante sua festa, em janeiro.

São Gonçalo do Amarante: santo português virou símbolo de devoção na cidade | Crédito: Reprodução

São Gonçalo chegou a ser cidade e foi rebaixada?

Esse é um dos capítulos mais peculiares da história administrativa brasileira. Elevada à categoria de Vila em 22 de setembro de 1890, por um decreto do governo provisório da República, São Gonçalo teve sua autonomia política consolidada. No entanto, em um movimento atípico, foi elevada à condição de Cidade poucos anos depois, em 10 de maio de 1892, através do Decreto Estadual nº 311.

O “rebaixamento” ocorreu em 6 de julho de 1892, menos de dois meses após ter se tornado cidade. O então presidente do estado do Rio de Janeiro, José Tomás da Porciúncula, assinou o Decreto Estadual nº 445, que revogou o anterior e determinou que São Gonçalo voltasse à condição de vila.

Conforme analisado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em sua documentação histórica de divisão territorial, o motivo alegado foi a falta de condições econômicas e urbanas para sustentar o título de cidade naquele momento. São Gonçalo só readquiriria definitivamente o status de cidade em 1929.

Como ela se tornou um polo industrial?

O apelido de “Manchester Fluminense” não surgiu por acaso. A industrialização gonçalense decolou na virada do século XIX para o XX, impulsionada por fatores concretos: a proximidade com a capital federal, a facilidade de escoamento via Baía de Guanabara, a existência de rios que forneciam água e energia, e a chegada da estrada de ferro que ligava Niterói a Nova Friburgo, facilitando o transporte de cargas e trabalhadores. Era a lógica da dispersão industrial inicial do estado do Rio.

O marco simbólico desse processo foi a instalação da Companhia de Fiação e Tecidos São Gonçalo, em 1872, no bairro do Porto Velho. Mas foi nas décadas de 1940 a 1970 que houve seu ápice fabril. Segundo o urbanista Washington Fajardo, em estudo sobre a industrialização fluminense, São Gonçalo se beneficiou da política de substituição de importações e da interiorização industrial, atraindo grandes empresas com terrenos amplos e baratos, mão de obra abundante e infraestrutura logística crescente.

Quais as fábricas mais importantes que se instalaram por lá?

De acordo com dados disponibilizados pelo IBGE, ao final dos anos de 1930, ela contava com 95 estabelecimentos industriais, responsáveis por uma variada produção de artigos.

Nesse período, importantes indústrias se instalaram na cidade, como Companhia Nacional de Cimento Portland (CNCP), que contava com estrada de ferro e uma usina elétrica própria; a Companhia Brasileira de Usinas Metalúrgicas (Siderúrgica Hime); a Companhia Brasileira de Fósforos (mais conhecida como Fiat Lux); a Conserva de Sardinhas Coqueiro (presente até hoje nas gôndolas dos supermercados); entre fábricas de explosivos, brinquedos, bebidas, cerâmicas, entre outras.

Muitas dessas fábricas estão desativadas hoje, e seus galpões ociosos são testemunhas de uma era de ouro industrial, conforme documenta o acervo fotográfico de São Gonçalo.

Antiga fábrica da Conserva de Sardinhas Coqueiro | Crédito: Reprodução

Por que a chamam de cidade dormitório?

O epíteto “cidade-dormitório” surgiu a partir da década de 1950, com a confluência de dois fenômenos. Primeiro, a decadência do parque industrial a partir dos anos 1980, com a abertura econômica e a desindustrialização do estado, que reduziu drasticamente os empregos locais. E em segundo lugar, por um nariz de diferença, a expansão imobiliária desordenada e a oferta de terrenos mais baratos que na Guanabara ou em Niterói.

Como apontam os dados da Pesquisa Origem e Destino do Plano Diretor de Transporte da Região Metropolitana, centenas de milhares de gonçalenses cruzam diariamente a Ponte Rio-Niterói ou utilizam trens e barcas para trabalhar ou estudar no Rio, Niterói e outros municípios. Eles dormem em São Gonçalo, mas a vida econômica e de serviços acontece majoritariamente fora caracterizando a condição de dormitório.

O crime arquitetônico contra uma joia da cidade

O Palacete do Mimi, localizado no bairro do Zé Garoto, era uma das mais belas e imponentes mansões ecléticas do final do século XIX em São Gonçalo. Construído por volta de 1870 pelo Comendador Joaquim Thomaz do Amaral, um riquíssimo comerciante, o casarão era conhecido por seus detalhes em ferro fundido, afrescos e jardins.

Sua demolição, ocorrida de forma bárbara e controversa em 1993, foi um episódio da luta pela preservação do patrimônio histórico gonçalense que terminou em um encontro amargo com a decepção.

Apesar de tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) em 1983, o palacete foi derrubado durante a noite, supostamente por ordem dos proprietários da época. O caso, amplamente denunciado pelo jornal O São Gonçalo, gerou comoção pública e processos judiciais, mas, por óbvio, não foi capaz de reverter a ação.

Sua lembrança é um símbolo da fragilidade da memória histórica da cidade frente à especulação imobiliária e à omissão do poder público.

Palacete do Mimi, derrubado na calada da noite, é um símbolo de fragilidade de nossa memória histórica | Crédito: Reprodução

O que é o Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores?

Localizado em um prédio histórico dentro do complexo da Ilha das Flores, no bairro do Porto Velho, o Centro de Memória guarda uma história de portas abertas e fechadas. O local foi originalmente criado como Hospedaria da Ilha das Flores em 1883, durante o auge da imigração europeia para o Brasil, substituindo a antiga Hospedaria da Ilha do Pinheiro, em Niterói. Seu objetivo era receber, examinar e direcionar os imigrantes, principalmente portugueses, italianos e espanhóis, que chegavam à Baía de Guanabara.

De acordo com a documentação do Arquivo Nacional, a hospedaria funcionou até 1966, tendo recebido centenas de milhares de pessoas. Após ser desativada, o local teve uso político bastante controverso.

Conforme relatórios da Comissão Nacional da Verdade (CNV), a Ilha das Flores foi um centro de prisão e interrogatórios. Os imigrantes deram lugar a mais de 200 militantes, estudantes e intelectuais perseguidos pela Ditadura que foram presos e torturados por lá.

Essa sobreposição de funções, de porta de entrada para uma nova vida a local de torturas e cerceamento de liberdade, torna a Ilha das Flores um sítio de memória de extrema complexidade e importância para o Brasil. 

Hospedaria da Ilha das Flores: história de portas abertas e fechadas durante a repressão | Crédito: Reprodução

O que é o Alto da Gaia?

O Alto da Gaia é muito mais que um bairro ou um morro; é um dos pontos mais altos de São Gonçalo e um verdadeiro mirante natural com uma das vistas mais espetaculares da Região Metropolitana. Localizado próximo ao Centro, seu acesso é feito por estradas sinuosas que levam a uma área residencial.

De seu topo, a 330 metros de altitude, o visitante tem uma visão panorâmica de 360 graus. É possível avistar a Ponte Rio-Niterói, o Aterro do Flamengo, o Pão de Açúcar, o Centro do Rio, a Baía de Guanabara e, do outro lado, grande parte da própria São Gonçalo e da região serrana. É um local popular para fotógrafos e casais, especialmente ao pôr do sol, sendo um dos cartões-postais contemporâneos da cidade.

Trilha do Alto da Gaia tornou-se cartão-postal contemporâneo de São Gonçalo | Crédito: Reprodução

Qual é a história da Fazenda do Colubandê?

A Fazenda São José do Colubandê é uma das mais importantes e antigas construções rurais do estado do Rio, remontando ao século XVII. Suas terras foram doadas em sesmaria a João de Góes e à sua mulher, Arcângela de Siqueira, e o atual casarão principal foi erguido em meados do século XVIII, seguindo o estilo colonial barroco. A fazenda foi um próspero engenho de açúcar e, posteriormente, café.

Sua relevância histórica é atestada por ter hospedado nomes como o Príncipe Regente Dom João VI, que ali teria pernoitado em 1808 durante sua viagem de fuga para o Brasil, conforme registram cronistas da época como o Padre Perereca, que apesar desse nome sapeca era um intelectual de respeito e confessor do príncipe Dom Pedro.

Tombada pelo Inepac, a fazenda é um raro testemunho material do ciclo econômico que sustentou a região por séculos. O casarão senhorial é amplo, com paredes grossas de taipa e alvenaria de pedra, varandas laterais e um telhado em quatro águas. A capela privativa, dedicada a São José, integra o corpo principal da casa, um elemento típico das grandes residências rurais da época.

A propriedade ainda guarda os vestígios dos antigos terreiros de secagem de café, a casa dos escravizados (senzala) e uma mata remanescente da floresta atlântica. O silêncio do local, quebrado apenas pelo vento e pássaros, contrasta com o burburinho da cidade ao redor, transportando o visitante diretamente para o Brasil Imperial.

Fazenda Colubandê é um importante conjunto arquitetônico tombado pelo Inepac | Crédito: Reprodução

Qual é a história e relevância da capela de Santa Sara Kali?

A Capela de Santa Sara Kali, localizada no bairro do Trindade, é um ponto singular que revela a diversidade religiosa de São Gonçalo. É considerada o primeiro santuário dedicado à santa no Brasil, tendo sua origem em um terreiro de Umbanda fundado na década de 1960 por Mãe Dina de Xangô.

A associação de Santa Sara Kali, padroeira do povo rom (cigano), com as entidades da Umbanda e do Candomblé, criou um sincretismo único. O local, hoje administrado por um centro espírita, atrai devotos de diversas matrizes religiosas, especialmente durante a grande festa anual no mês de maio. Sua relevância está justamente nessa fusão cultural e no respeito à diversidade de crenças, um fenômeno social característico da região.

Mas quem foi Santa Sara Kali?

Santa Sara Kali é uma figura envolta em tradição oral, venerada sobretudo pelos ciganos. A lenda mais difundida, não reconhecida oficialmente pela Igreja Católica, conta que ela era uma serva de origem egípcia das Três Marias (Maria Madalena, Maria Jacobé e Maria Salomé), que teriam fugido da Palestina após a crucificação de Cristo, chegando à região de Saintes-Maries-de-la-Mer, no sul da França.

Conforme a tradição cigana, Sara teria sido a primeira a avistar as santas no mar e ajudou a trazê-las à segurança. Por isso, é representada com trajes coloridos e é invocada como protetora dos viajantes, dos pobres e das causas consideradas impossíveis. Seu culto no Brasil se fortaleceu com a imigração de ciganos e sua incorporação a outras religiões.

A Praia das Pedrinhas é a melhor da região?

Aí você complica para o autor. A Praia das Pedrinhas, no bairro do Porto Velho, é a principal praia gonçalense e a mais estruturada. Seu nome vem das pedras que pontilham a orla. Ela possui calçadão, quiosques e é palco de eventos municipais.

No entanto, apesar da vista incrível para a região central da Guanabara, infelizmente, a balneabilidade das praias de São Gonçalo é historicamente crítica.

Relatórios anuais do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) classificam as águas da Praia das Pedrinhas e das outras praias do município, como a da Luz e a do Engenho Pequeno, como impróprias para o banho durante a maior parte do ano.

Não há, portanto, uma só praia própria para banho em São Gonçalo. Mas o processo de despoluição da baía, que já melhorou a condição de praias como Flamengo e Botafogo no Rio, e Icaraí em Niterói, são um swell de esperança para a população da cidade.

Praia das Pedrinhas: infelizmente, imprópria para banho | Crédito: Prefeitura de São Gonçalo

Vale a pena conhecer o Mirante do Morro do Castro?

Com certeza. O Mirante do Morro do Castro, localizado no bairro do Alcântara, é outro ponto de vista privilegiado. Acesso por uma escadaria, oferece uma perspectiva diferente do Alto da Gaia. A vista enfatiza a Ponte Rio-Niterói, os estaleiros da Baía de Guanabara, a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem (em Niterói) e a Enseada de São Francisco.

É um local mais simples e menos urbanizado que o Alto da Gaia, com um ar mais comunitário. A subida exige um pouco de fôlego, mas a recompensa visual, especialmente no fim da tarde, é grandiosa. É um programa gratuito e que revela a geografia única da cidade, espremida entre o maciço costeiro e a baía.

O que mais tem que fazer por lá?

Para além dos mirantes, São Gonçalo oferece um turismo de descoberta. Visitar o Mercado Municipal, um projeto modernista de Sérgio Bernardes, é uma experiência autêntica. Explorar o Centro Histórico, com a Igreja Matriz de São Gonçalo do Amarante (reconstruída no século XX) e antigos casarões, revela camadas do passado. A Feira do Produtor, uma das maiores da América Latina, é um espetáculo de cores, sons e sabores.

Procurar pelos azulejos artísticos que decoram fachadas de residências antigas é um passeio surpresa. E, para entender a alma trabalhadora da cidade, nada como conversar com moradores mais antigos em um dos muitos e tradicionais bares e botecos da cidade, ouvindo histórias da época em que as chaminés fumegavam e São Gonçalo não dormia, produzia. Conhecê-la é entender uma parte fundamental, e muitas vezes silenciada, da história e da força da Região Metropolitana do Rio.

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