Na disputa informal entre cidades do Rio de Janeiro por apelidos nada exagerados, Niterói resolveu entrar em campo com o pé na porta. Enquanto uns se anunciam como a “Suíça brasileira” ou a “Capital do Tomate” ela decidiu reivindicar uma Machu Picchu só para si. Sem lhamas, sem incas e, felizmente, sem altitude suficiente para causar falta de ar. Apenas uma fortaleza com ruínas de pedra, túneis, canhões e uma vista que humilha boa parte dos mirantes pagos do planeta.
O Parque Histórico Monte Bastione, instalado no Complexo de Fortes Barão do Rio Branco, em Niterói, reúne construções erguidas entre os séculos XVI e XX para proteger a entrada da Baía de Guanabara. Hoje, o espaço abriga fortes históricos, estruturas militares preservadas, acervo da Segunda Guerra Mundial e um visual de 360 graus que alcança o Rio e a Região Oceânica de Niterói.
Durante décadas, o local permaneceu relativamente desconhecido do grande público, o que talvez explique sua preservação e o fato de ainda não ter ganhado uma filial da Casa do Pão de Queijo. Hoje aberto ao turismo, o parque prova que, no Rio de Janeiro, até uma antiga instalação militar pode virar passeio contemplativo, desde que tenha vista bonita o suficiente para render uns stories bacanérrimos.

O que é o Parque Histórico Monte Bastione em Niterói?
O Parque Histórico Monte Bastione é um complexo de espaços culturais situado no bairro de Jurujuba, na cidade de Niterói, dentro do Forte Barão do Rio Branco, administrado pelo 21º Grupo de Artilharia de Campanha (21º GAC) do Exército Brasileiro. Ele reúne construções que datam do século XVI ao século XX.
No total, o parque conta com 14 espaços culturais, entre fortes, monumentos, acervos de armamentos e áreas de proteção ambiental. Segundo a Neltur (Niterói Empresa de Lazer e Turismo), o parque é considerado um passeio adequado para todas as idades e está aberto a turistas nacionais e estrangeiros.
A denominação oficial do complexo (que inclui o Forte Barão do Rio Branco, o Forte São Luís e o Forte do Pico) foi determinada por decreto em 1938, numa tentativa de organizar o caos defensivo que se acumulara por séculos na ponta leste da Baía de Guanabara. Atualmente, o espaço funciona como “museu a céu aberto”, categoria que o Brasil adora para justificar a falta de telhados sobre peças históricas importantes.
O sentinela silencioso

O Forte Barão do Rio Branco, nome oficial que homenageia o patrono da diplomacia brasileira, é a porta de entrada do complexo e sedia o 21º Grupo de Artilharia de Campanha. Sua origem remonta a 1567, quando, após a expulsão dos franceses da Baía de Guanabara foi instalada no local a modesta Bateria de Santo Antônio da Praia de Fora, que ainda no século XVII servia para alertar sobre piratas que cobiçavam o ouro das Minas Gerais e a cachaça de Paraty. Os anos passaram, e a bateria cresceu.
Também integram o complexo, o Forte de São Luís, um dos pontos altos da visita, que teve sua construção iniciada em 1715 por ordem do Vice-Rei, o Marquês do Lavradio e levou seis décadas para ser concluída. Seu objetivo era defender a cidade de uma possível invasão espanhola que nunca aconteceu. Por sorte, já que obra levou tanto tempo que dava para o exército espanhol vir da Europa ao Rio a nado.
Já o Forte do Pico começou a operar em 1770 como ponto de vigilância da entrada da baía e de proteção à Fortaleza de Santa Cruz. Em 1891 os fortes foram unificados sob um único comando. O conjunto foi desativado em 1965, mas permanece operacional como patrimônio histórico vivo sob guarda do Exército. Ou seja, o forte serviu para proteger a entrada da baía, mas na prática garantiu que os militares tivessem a melhor vista do Rio _ um privilégio que compartilham com o público, a preços populares.
Um paredão de granito
O Rio sempre foi paranoico com invasões. Por isso, dizer que o Monte Bastione integrava o sistema de defesa do litoral é um eufemismo para explicar que a Baía de Guanabara era, tecnicamente, uma armadilha mortal. O complexo funcionava em um sistema de fogo cruzado com a Fortaleza de São João e o Forte da Laje, criando o que historiadores militares descrevem como uma barreira quase intransponível. Conforme detalhado em pesquisas da Fundação Cultural do Exército Brasileiro, se um navio tentasse entrar sem permissão, ele seria, em uma adaptação do jargão militar, literalmente transformado em queijo suíço antes mesmo de avistar o Pão de Açúcar.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o sistema defensivo ganhou nova vida. O Forte da Tabaíba, a última fortificação permanente construída no Brasil (entre 1943 e 1944), foi erguida no contexto do conflito global e é composta por túneis escavados em rocha que totalizam cerca de 350 metros de extensão. Os Postos de Vigilância da Segunda Guerra, integrados ao complexo, exerciam vigilância estratégica sobre a Baía de Guanabara, uma função que ganhou urgência, urgentíssima e dramática depois que o submarino alemão U-507 torpedeou navios mercantes brasileiros na costa do Nordeste em 1942, episódio que levou o Brasil a declarar guerra ao nazifascismo.

Mas que papo é esse de comparar com Machu Picchu?
A associação entre as ruínas de pedra do parque e a famosa cidadela inca no Peru é uma analogia que vai além da estética: ambos combinam construções centenárias em áreas elevadas, cercadas por natureza preservada e com vistas panorâmicas de cair o queixo. A imprensa local e os frequentadores logo adotaram o apelido, que pegou, ainda que os peruanos provavelmente fiquem mais indignados com essa comparação do que se alguém disse a eles que pisco é chileno.
O apelido ganhou tração com a popularização das redes sociais e a busca por cenários “instagramáveis”. Até o Visit Niterói, portal oficial de turismo da cidade, abraçou o apelido sem pudor, descrevendo o parque como um cenário perfeito para fotos “instagramáveis devido às suas ruínas históricas semelhantes ao famoso ponto turístico do Peru”. Se a comparação é justa ou generosa, a gente deixa a decisão para os leitores.
Onde o Rio pede desculpas a Niterói
O que se vê do alto do Monte Bastione é, segundo qualquer guia de turismo imparcial de Niterói, a única forma correta de observar o Rio de Janeiro: de longe e por cima. Do ponto mais alto do complexo, o Forte do Pico, a 227 metros de altitude, é possível avistar simultaneamente a Baía de Guanabara, o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor, as praias da Zona Sul, a Fortaleza de Santa Cruz e o Morro da Urca. Este último sete metros mais baixo, o que os niteroienses mencionam com um sorriso maroto que só pode ser compreendido por quem cresceu sendo tratado como subúrbio de uma cidade famosa.

Mas nem tudo é paisagem. O parque exibe ruínas de fortificações seculares, antigas áreas de alojamento, postos de vigilância da Segunda Guerra Mundial e um reduto do Pico que, desde o século XVI, funcionava como posto de observação da baía. Há ainda monumentos em homenagem aos náufragos dos navios Baependy e Itagiba, afundados pelos torpedos nazistas, e uma estranha “Pedra da Vigia”, usada por pescadores experientes no início do século XX para orientar barcos de pesca.
Curiosidades bélicas
A importância histórica do Parque Histórico Monte Bastione reside em sua capacidade de reunir, num único espaço, cinco séculos de evolução da engenharia militar brasileira, desde as primeiras ocupações coloniais até os conflitos do século XX. Suas muralhas e fortificações testemunharam invasões francesas, a preparação para a Segunda Guerra Mundial e a transformação da Guanabara em capital do Império.
Ele abriga, entre seus espaços culturais, a Sala de Exposição Marechal Mascarenhas de Moraes, dedicada à participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, e um acervo de Peças Históricas que inclui armamentos de diversas épocas como canhões, obuseiros, metralhadoras e lançadores múltiplos de foguetes, além de viaturas militares históricas, entre elas um caminhão GMC Chevrolet 6×6, um Dodge Command WC-56 e um Dodge W 1-50, todos participantes da Segunda Guerra
Entre as peças mais curiosas está um monumento em granito representando os Montes Apeninos (cenário das operações da Força Expedicionária Brasileira na Itália) no centro do qual está instalado o tubo original de um canhão usado pela FEB, que teria “supostamente” realizado o primeiro disparo da Artilharia Brasileira em solo europeu, em 16 de setembro de 1944.

Como funciona a visitação?
A visitação ao Parque Histórico Monte Bastione funciona de terça a domingo, nos horários das 10h e das 14h, com visita guiada obrigatória conduzida por Condutor de Turismo Militar. O site do 21º GAC recomenda chegar com pelo menos 30 minutos de antecedência. O ingresso custa R$ 10, com meia entrada para estudantes mediante comprovação. Grupos de até 30 pessoas têm acesso livre; acima desse número, o agendamento é obrigatório e deve ser feito por e-mail à Seção de Comunicação Social do 21º GAC. Por motivo de segurança, o parque é fechado em caso de chuvas.
O dress code é democrático: bermuda e camiseta são permitidas. Mas traje de banho, não. Aos sábados e domingos, funciona uma cantina na área do Forte do Pico, um pequeno detalhe logístico que faz diferença depois de uma subida de 227 metros. O parque fica na Alameda Marechal Pessoa Leal, nº 265, Jurujuba, Niterói. Mais informações pelo telefone (21) 3611-4205 ou no site www.21gac.eb.mil.br.


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