Foi em solo francês que José Carlos Faria Caetano deixou de ser apenas mais um passista da Beija-Flor de Nilópolis para se tornar Machine. Durante uma apresentação internacional da escola, sambou como fazia desde menino. Um espectador estrangeiro, encantado, apontava: “La machine du samba”. O apelido atravessou o oceano e aportou no Rio. Hoje, aposentado como sambista, ele desempenha outra função essencial: é o responsável pelas chaves da Marquês de Sapucaí.
Décadas depois, a “máquina de sambar” já não está no centro da roda como passista, mas permanece no coração do espetáculo. Tornou-se uma das figuras centrais da engrenagem que sustenta o Carnaval na Avenida.
É ele quem acompanha os ensaios técnicos, a montagem da estrutura e permanece no Sambódromo por meses seguidos, praticamente morando ali. Todo esse bastidor foi relatado em entrevista ao último episódio da série Artistas da Avenida, da Agenda do Poder.

A trajetória começou cedo, aos oito anos. Frequentava a quadra da Beija-Flor quando foi notado sambando em um canto. Não havia se inscrito em concurso algum, mas acabou escolhido para integrar o grupo mirim.
“Teve um concurso de passista na quadra velha, mas eu nem cheguei a concorrer, ficava sambando no cantinho. Meu tio Nailton era mestre-sala e me escolheram para ser um dos passistas, porque a Beija-Flor tem isso. Ela faz prata da casa, rainha de bateria, destaques, tudo nasce ali”, lembra.
Nascido no Tanque, em Jacarepaguá, Machine desbravou o cenário internacional por meio do samba. Viajou para o Marrocos, participou da abertura de Copa do Mundo e esteve na França — lá o apelido se consolidou.
“Um belo dia, na França, um francês chamado Daniel de Castro disse que eu era uma ‘la machine du samba’. Eu não sabia o que era isso. Quando cheguei aqui no Rio, o meu apelido saiu: ‘máquina de sambar’ — Machine”.
Antes de assumir funções administrativas, dividia o tempo entre o trabalho formal e a dedicação às escolas mirins. Participou da criação da Corações Unidos do Ciepe, ao lado de Xangô da Mangueira, a quem chama de pai. Dali saíram nomes que hoje ocupam postos de destaque em agremiações como a Unidos do Viradouro e a Acadêmicos do Salgueiro.

Ensinar o bailado do mestre-sala e a dança do passista tornou-se uma extensão natural da própria história. Atualmente, Machine também realiza palestras com objetivo de não permitir que os fundamentos se percam com o tempo.
“O samba é minha vida, é minha paixão. Fui mestre-sala, passista, hoje faço palestras sobre comissão de frente, mestre-sala e porta-bandeira, para não deixarem o passado morrer. Hoje o mestre-sala, poucos cortejam, e a arte de sambar é muito boa”, diz.
O convite para tomar conta do Sambódromo veio mais tarde, em 1984. A relação com o espaço começou de forma simples. Foi contratado para trabalhar na limpeza das arquibancadas, varrendo e organizando. Até que surgiu a necessidade de utilizar a Avenida para ensaios, e alguém precisava assumir a responsabilidade de acompanhar as escolas. Ele se ofereceu:
‘Se vocês quiserem, eu fico‘
E ficou. Primeiro como funcionário da Riotur, depois contratado pela Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), passou a coordenar oficialmente os ensaios técnicos. A rotina segue o calendário do Carnaval: de 5 de novembro a 10 de maio, permanece na Sapucaí.
Dorme, recebe apoio logístico e acompanha a transformação do espaço que, meses depois, será palco do maior espetáculo da Terra.
“A Liesa me dá toda estrutura, cama, televisão, apoio, para eu não ir em casa porque os ensaios acontecem de madrugada. Temos várias funções como apoio. A Liesa pega o Sambódromo cru, sem nada. Aí começa a fazer projetos para montar as frisas, os camarotes”, detalha.
A família auxilia nessa rotina, diz Machine. A filha atua como secretária, outra colaboradora o ajuda na parte administrativa, e a esposa garante o suporte cotidiano, levando roupas e acompanhando a permanência prolongada. “É aí que dá certo, a família unida”, afirma.
Entre os desafios, Machine destaca a correria que antecede os últimos dias antes dos desfiles.
“O maior desafio é montar tudo isso, porque temos engenheiros projetistas que planejam tudo, mas na reta final é correria: ensaio, montagem, abertura. Então junta tudo em cinco dias. A melhor parte é o dia do desfile, quando vejo todo o segredo que eu guardo acontecer”.
José Carlos, o Machine, síndico da Sapucaí

Tanta história e dedicação às escolas de samba fizeram com que Machine fosse eleito, em 2010, pelo jornal O Dia, o sambista mais popular do Rio. No mesmo ano, lançou o livro Machine, o Síndico da Passarela, no qual narra desde a infância até as aventuras vividas no universo do samba.
Nesses anos dormindo e acordando na Avenida, viu o que muitos não viram. Entre as histórias acumuladas, viu carros alegóricos incendiados e visitas marcantes, a exemplo da passagem de Nelson Mandela pelo Sambódromo.
“Já vivi muitas histórias aqui: já vi carro alegórico pegando fogo. Esteve aqui nesse manto sagrado, Mandela, saiu da prisão e veio aqui. Também tem muitos shows internacionais e brasileiros. O Sambódromo deixou de ser um elefante branco e hoje recebe gente do Brasil inteiro nos ensaios técnicos”, afirma.
Salvo pelo samba
Ao olhar para trás, Machine diz que foi salvo pelo samba. Rebelde na juventude, chegou a ser preso algumas vezes e atribui ao talento no samba no pé a chance de recomeçar. Hoje, guarda os agradecimentos no peito.
“Eu nunca imaginei viver de Carnaval. Dançava música caipira, dançava soul, e nunca pensava que o samba me daria essa estrutura. Sou grato a Anísio Abraão David, a Xangô da Mangueira e ao diretor de Carnaval Elmo José dos Santos, que me dá carta branca para eu resolver o que preciso”, lembra.

Depois de uma vida dedicada à Sapucaí, diz ter duas tarefas preferidas: cuidar da Avenida e cozinhar, hábito que aperfeiçoou nos anos em que trocou a noite pelo dia acompanhando a rotina do Sambódromo. No local, dificilmente alguém deixa de cumprimentá-lo quando passa.
“Isso aqui é minha vida. Samba é minha vida. Só tem duas coisas que eu sei fazer bem, cozinhar e cuidar do Sambódromo”, conclui.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes


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