O ano já é outro, mas o roteiro continua o mesmo. Após fechar 2025 com 67 policiais mortos e alta de 55% em comparação ao ano anterior, a lista de agentes mortos em janeiro já supera essa média e continua subindo na Região Metropolitana do Rio. Em apenas três semanas, cinco policiais morreram ao serem atingidos por disparos de arma de fogo. O dado mostra um aumento de 24% em relação ao ano passado.
Mas, ao contrário do que ocorreu em 2025, quando as mortes foram impulsionadas por casos em que agentes das forças de segurança acabaram sendo baleados em operações policiais, os dados de janeiro indicam que todas as mortes ocorreram quando os agentes estavam de folga, segundo levantamento feito pela Agenda do Poder, traçando um cenário ainda mais preocupante, que traz uma constatação: cada vez mais, policiais morrem porque reagem a assaltos ou porque são identificados como policiais.

Em dois dos casos, os policiais foram mortos ao tentar reagir a abordagens. Em outra ação, a principal hipótese é de que o agente tenha sido assassinado em uma ação premeditada por criminosos que sabiam da sua identidade. Em um dos crimes, as circunstâncias ainda estão sendo investigadas. E ainda houve uma ocorrência em que o policial morreu porque sua arma disparou acidentalmente quando ele caiu da sua moto, atingindo-o. Os agentes mortos tinham idades entre 37 e 41 anos.
Carlos Nhanga, coordenador-regional do Instituto Fogo Cruzado, diz que o cenário reflete uma realidade bélica do Rio, em que a população passou a conviver com assaltos a mão armada e assassinatos. “O alto índice de agentes baleados mostra um cenário de violência urbana”, analisa. O cientista social Robson Rodrigues, que também atua como pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da UERJ, diz ver apenas uma solução para reverter esse cenário: recuperar áreas ocupadas pelo crime organizado. “No Rio, há uma disputa eterna entre facções criminosas por controle territorial”, avalia.
Antropólogo e ex-capitão do Bope, a tropa de elite da Polícia Militar do Rio, Paulo Storani acredita que o alto índice de letalidade de agentes de segurança também está relacionado à queda de efetivo das corporações. “Com isso, o crime se fortalece, usando a estratégia do medo como forma de controle”.

Assassinato solucionado: como estão as investigações dos casos
A Polícia Civil esclareceu o caso envolvendo o assassinato do policial civil Paulo Vitor Silva Heitor, 40, que morreu na madrugada de 11 de janeiro ao ser baleado após reagir a um assalto na Rua Visconde de Itamarati, no bairro do Maracanã, Zona Norte do Rio de Janeiro.
Um dos envolvidos no crime foi morto a tiros na manhã desta sexta-feira (23) em uma operação feita pela Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis da Capital (DRFA-CAP), mesma unidade onde Paulo Vitor trabalhava. Segundo os agentes, o suspeito foi baleado ao reagir à abordagem policial em Senador Camará, Zona Oeste do Rio.
Os outros dois suspeitos já haviam sido presos em operações anteriores. Um deles teve mandado de prisão cumprido pela Delegacia de Homicídios da Capital, que investiga o caso. O outro foi capturado em uma ação da Polícia Militar. A identidade dos três suspeitos não foi revelada pela Polícia Civil.
Eles foram identificados com o auxílio de câmeras de segurança, que gravaram o assassinato. Paulo Vitor foi morto quando voltava de um bar acompanhado pela esposa. A ação começou quando a dupla de criminosos a bordo de uma moto invadiu a calçada e anunciou o assalto contra o policial civil.

Após atirar, um dos criminosos correu para o meio da rua. Outra câmera de segurança registrou a fuga, quando ele voltou a embarcar na carona da moto conduzida pelo seu comparsa. Atingido no tórax e no joelho, Paulo Vítor morreu no local. A esposa dele sofreu um ferimento leve em um dos dedos. O corpo do agente foi enterrado no Cemitério e Crematório da Penitência, no Caju, Zona Portuária do Rio.
A resposta ao assassinato foi imediata. Após o crime, o delegado Felipe Curi, secretário da Polícia Civil, afirmou que a corporação daria uma “resposta à altura”. “Triste demais com a morte do comissário”, disse o delegado na publicação, descrevendo o policial como um profissional exemplar e prometendo retaliação contra os envolvidos no crime.
“O recado está dado: nós vamos atrás dos criminosos que fizeram isso e de qualquer um que der proteção a eles, não importa onde e quando”, afirmou o secretário.
A cronologia das mortes de policiais em 2026

11 de janeiro – O policial civil Paulo Vitor Silva Heitor, de 40 anos, morreu ao ser baleado após reagir a um assalto na Rua Visconde de Itamarati, no bairro do Maracanã, Zona Norte do Rio de Janeiro. O agente ingressou na corporação em 2016. Ao longo da carreira, recebeu cinco promoções por bravura. Ele era formado em Direito e em Comunicação Social.

16 de janeiro – O PM Bruno Dantas de Souza, 37, foi morto a tiros ao reagir a uma tentativa de assalto em Parada de Morabi, Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Os criminosos fugiram, levando a sua moto e a sua arma.
Conhecido como ativista comunitário no bairro Parada Morabi, ele havia postado um vídeo em redes sociais horas antes do crime, celebrando a limpeza de uma rua após denúncias à prefeitura local. A Polícia Civil, que investiga o caso, analisa câmeras de segurança para identificar suspeitos de ligação com o crime.

18 de janeiro – O PM Elder Carlos Costa Carvalho, 41, foi atingido por um tiro na cabeça na esquina entre as ruas Padre Vieira e Engenheiro Bernardo Sayão, no Jardim Catarina, em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio. Ele chegou a ficar três dias internado no Hospital Estadual Alberto Torres, e teve a morte constatada nesta quarta-feira (21).
O crime ocorreu em uma área sob o domínio do Comando Vermelho (CV). Elder, que estava há 11 anos na corporação, atuava no 3º BPM (Méier), na Zona Norte do Rio.

21 de janeiro – O PM Charles Alves Maria, 41, foi morto após cair da moto e sua arma disparar acidentalmente em Japeri, na Baixada Fluminense. O tiro o atingiu em uma veia femoral. Segundo a corporação, o agente estava se deslocando da casa para o trabalho.

No mesmo dia, Marcelo Couto Sansão, 40, foi morto a tiros em Imbariê, Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Ele estava parado em uma motocicleta quando três criminosos passaram de carro e o renderam. A ação foi gravada por câmeras de segurança.
Imagens registraram quando homens armados desceram de um carro branco pela Rua Narcisa Amália para abordá-lo e retirá-lo à força da moto. Em seguida, os criminosos atiram contra o agente e fogem no carro, deixando a motocicleta do agente para trás.


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