Libertação de reféns em Gaza deve coincidir com a semana da posse de Trump

Presidente eleito dos EUA antecipou anúncio sobre sucesso do acordo

O anúncio de que tanto Israel quanto Hamas concordaram com os termos de um acordo de cessar-fogo nesta quarta-feira, após uma série de rodadas diplomáticas no Catar, abriu caminho para que os reféns capturados durante o atentado terrorista de 7 de outubro de 2023 retornem para casa após 15 meses em cativeiro. Embora fontes diplomáticas israelenses, palestinas e mesmo o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, tenham confirmado que foi atingido um consenso, a troca de prisioneiros por reféns só deve começar na prática na semana que vem — a mesma em que o republicano assume seu segundo mandato na Casa Branca.

Antecipando o esperado anúncio oficial por parte dos mediadores, Trump confirmou que o sucesso da negociação em uma publicação na Truth Social. “Temos um acordo sobre os reféns no Oriente Médio. Eles serão libertado em breve. Obrigado”, escreveu em uma primeira publicação, minutos antes de, em um novo post, associar diretamente o sucesso das tratativas ao seu retorno ao poder.

“Este acordo de cessar-fogo ÉPICO só poderia ter acontecido como resultado da nossa vitória histórica em novembro, pois sinalizou para o mundo inteiro que minha administração buscaria a paz e negociaria acordos para garantir a segurança de todos os americanos e nossos aliados. Estou emocionado que os reféns americanos e israelenses retornarão para casa para se reunirem com suas famílias e entes queridos”, escreveu o presidente eleito. “Conseguimos tanto sem nem estar na Casa Branca. Imagine todas as coisas maravilhosas que acontecerão quando eu retornar”.

A mudança de poder em Washington foi apontada por autoridades e especialistas como um fator que impulsionou as conversas atuais no Catar, após meses de negociações que não tiveram sucesso. Um novo mandato Trump, argumentam, impôs pressão para que tanto Israel quanto o Hamas acelerassem suas tomadas de decisão.

Mesmo sem assumir a Casa Branca, Trump vinha dando sinais a atores regionais e incluiu sua gestão na mediação americana. Seu enviado para o Oriente Médio, Steve Witkoff, participou das negociações ao lado da equipe de Antony Blinken, secretário de Estado na gestão Joe Biden. Em solo americano, o presidente eleito pressionou para que as tratativas em Doha tivessem um desfecho.

— Estamos muito perto de terminar [o acordo], e eles têm que terminar. Se não terminarem, vai haver muitos problemas por aí — disse Trump em uma entrevista televisionada na segunda-feira.

O ‘timing’ do acordo também pode contribuir para reforçar ainda mais essa percepção. Embora tenha sido alcançado nesta quarta, uma série de procedimentos ainda pode retardar em alguns dias a libertação de fato dos prisioneiros. Pelo lado israelense, os gabinetes de segurança e do governo ainda precisam votar para formalizar a adesão à proposta.

Havendo aprovação, fontes israelenses disseram que seria dado um período para a apresentação de eventuais recursos perante a Suprema Corte do país. Somado ao fato de que será necessário reunir condições de segurança e necessidades logísticas relacionadas ao cessar-fogo, o retorno dos civis só deve ser possível a partir de domingo — o que seria um dia antes da posse de Trump.

Fatores internos

Apesar do mandato 2.0 de Trump ter sido apontado como um fator que impulsionou as negociações, algumas situações internas em Israel foram determinantes para que o acordo fosse alcançado. Líder de um governo apoiado pela ala mais radical com representação no Knesset, o premier Benjamin Netanyahu afastou-se por vezes daquilo que parecia ser a vontade da maioria sobre obter uma troca de reféns, a fim de manter sua estabilidade no poder.

Novas condições, porém, parecem ter tornado o primeiro-ministro mais aberto a avançar com as tratativas. Dentro de sua própria coalizão de governo, afirmam fontes israelenses, Netanyahu conseguiu estabelecer uma maioria suficiente para aprovar o cessar-fogo sem que os votos dos radicais ligados aos ministros de Segurança Interna, Itamar Ben Gvir, e da Economia, Bezalel Smotrich, tenham peso decisivo.

Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante visita ao Corredor Netzarim, na Faixa de Gaza — Foto: GPO / AFP
Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante visita ao Corredor Netzarim, na Faixa de Gaza — Foto: GPO / AFP

O premier também parece se apoiar na ideia de que mesmo um desembarque dos extremistas de sua coalizão não significarão uma queda do governo, sobretudo em um tema que detém amplo apoio popular. Um estudo da Universidade Hebraica de Jerusalém, citado pelo Wall Street Journal, apontou que 60% dos israelenses acreditam que os objetivos militares em Gaza já foram atingidos, e que o foco agora deveria ser na libertação dos reféns.

Mesmo da oposição, houve sinais positivos. O ex-premier Yair Lapid, líder oposicionista e crítico contumaz de Netanyahu, afirmou que apoiaria o rival, caso a ala radical da coalizão governista tentasse provocar o colapso do governo.

— Ele não precisa deles… Eu lhe ofereci uma rede de segurança política para um acordo de reféns — disse Lapid na segunda-feira.

Com informações de O Globo

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