Lenda urbana? A história bizarra da caveira do Arpoador

História reaparece ocasionalmente em compilações de mitos cariocas

O passaporte do personagem principal é apenas o primeiro problema dessa história. Seria um soldado espanhol, um náufrago, um escravizado morto durante uma fuga o titular da caveira que, dizem, aparece durante a maré baixa entre as pedras do Arpoador?  A lenda surgiu no século XIX, em relatos orais de pescadores e moradores da então freguesia de Nossa Senhora de Copacabana.

A história contava que uma caveira humana aparecia, repetidamente, sobre uma fenda nas pedras do Arpoador, voltada para o mar. Várias vezes foi enterrada ou levada embora, mas reaparecia no mesmo lugar dias depois, como se estivesse presa a alguma maldição. Apesar de não haver registros oficiais em arquivos médicos ou policiais, a história foi registrada em reportagens do início do século XX e reaparece ocasionalmente em compilações de mitos cariocas.  

A lenda

Os relatos dão conta de que pescadores ouviam, à noite, sussurros ou ruídos que vinham das pedras, principalmente em noites de lua cheia ou de maré muito baixa. Algumas famílias que viviam nas redondezas na primeira metade do século XX diziam que seus pais ou avós já tinham visto “a caveira voltando”, ou que luzes estranhas surgiam no local.

Ainda hoje, guias turísticos mencionam a lenda em caminhadas noturnas ou trilhas culturais na Pedra do Arpoador, embora tratem o episódio como folclore urbano, sem comprovação arqueológica.

Famílias relatavam ter visto ‘caveira voltando’ | Reprodução

Onde fica

Pra quem não conhece, a Pedra do Arpoador é uma formação rochosa localizada entre as praias de Copacabana e Ipanema. Hoje, é conhecida pelos aplausos ao pôr do sol, pelas boas ondas e por sua importância cultural e turística. Mas no século XIX, era um lugar de difícil acesso, silencioso à noite e cercado por mangues, cavernas e lendas.

A pedra funcionava como ponto de observação de pescadores e era também local de descarte de corpos e ossadas — prática comum em tempos coloniais e imperiais.

Possíveis origens históricas

Se a tal caveira efetivamente existiu, como falamos acima, cada versão da lenda tem um protagonista diferente. Alguns estudiosos de cultura popular sugerem que o mais provável é que caveira poderia ter pertencido a um escravo morto durante uma fuga.

A proximidade do Arpoador com antigos caminhos de fuga e com áreas usadas como matadouros humanos reforça a hipótese. Outra teoria, digamos assim, é que a ossada vinha de um marinheiro jogado ao mar após um motim a bordo — uma versão reforçada por histórias de navios negreiros que aportavam na baía de Guanabara e deixavam traços trágicos em suas rotas.

Pedra do Arpoador tornou-se conhecido ponto turístico | Reprodução

O que restou do mito?

Não há registros atuais da ossada ou de que algum dia alguém se importou com isso e fez escavações oficiais no local. A pedra, agora iluminada e movimentada, perdeu o ar sombrio que ajudava a alimentar o mito. Ainda assim, a lenda da caveira do Arpoador permanece viva em redes sociais, blogs de mistério e até roteiros de podcasts.

Ela funciona como lembrança simbólica de um tempo em que o Rio era ainda obscuro, ainda mais violento — e talvez mais ingênuo ou supersticioso. A caveira pode nunca ter existido de fato, mas como em toda boa lenda, sua persistência talvez diga mais sobre a cidade do que sobre o crânio em si.

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