Em um ponto privilegiado de Niterói, um monumento à riqueza e ao esquecimento desafia o tempo e a poeira. O Palacete da Condessa Pereira Carneiro, erguido na primeira década do século XX na Ponta da Areia, é mais do que uma imponente construção em estilo eclético: é um capítulo físico da história industrial e social fluminense, hoje envolto em silêncio e matagal. Sua presença majestosa, porém, deteriorada, levanta questionamentos sobre a preservação do patrimônio e o destino de símbolos de uma era de opulência que se esvaiu.
Se suas paredes falassem, estas certamente sussurrariam sobre festas até o amanhecer, nas quais romances e intrigas eram banhados a champanhe francês. Damas com vestidos que custavam mais que um ano de salário de um estivador ou de um repórter, atravessavam em iates ou cruzavam os 110 quilômetros de estrada via Magé para conhecer o conde e a condessa, anfitriões de mão cheia, provavelmente se vangloriando da vista que, de fato, até hoje é de cair o queixo. Era a Belle Époque niteroiense!
Se dizem que dinheiro não traz felicidade, o marido da condessa certamente tentou provar o contrário ao erguer ninho de amor. Mas o tempo é um inimigo sorrateiro. Após décadas de abandono, o que era sinônimo de luxo hoje disputa espaço com pichações e o matagal que cresce, insistente. O “Taj Mahal do Conde”, como é ironicamente apelidado pelos mais antigos, só recebe como convidados pombos, vândalos ou pesquisadores curiosos.
Mas ele carrega muito mais. Histórias de poder, ambições e de uma família que moldou um pedaço da história do Brasil. Em sua narrativa, há glamour e decadência, memórias comunitárias e planos inacabados — como o projeto de transformá-lo em Museu da Indústria Naval que, apesar de discutido há anos, ainda luta para sair do papel.

Quem eram o conde e a condessa Pereira Carneiro?
Para Ernesto Pereira Carneiro não bastava nascer em berço de ouro. Pernambucano, filho de um rico comerciante, ele estudou em Londres, Lisboa e Paris, até voltar par o Recife, e depois para a Guanabara, onde radicou-se de vez.
Segundo registros da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) e biografias históricas, Pereira Carneiro foi o fundador da Companhia Comércio e Navegação (CCN), um conglomerado que incluía a produção de sal, navegação de cabotagem e, crucialmente, a reparação e construção naval.
Mas seu empreendimento mais conhecido, sem dúvida, foi a compra do Jornal do Brasil, que, após sua morte, e sob comando de sua segunda mulher, a condessa Maurina Dunshee de Abranches Pereira Carneiro, se tornou o mais importante da América Latina.
O título de “Conde” não veio de Dom Pedro II, mas sim do Vaticano. Foi uma honraria concedida pelo Papa Pio XI em reconhecimento às suas obras de caridade e à sua fervorosa atuação católica.
Sua morte deixou o comando do império para a esposa, que, conforme arquivos do jornal O Globo, assumiu a companhia em uma época em que mulheres raramente ocupavam tais posições, tornando-se uma das empresárias mais poderosas do país.

Onde fica o palacete?
O palacete está situado na Encosta da Armação, no bairro da Ponta da Areia, em Niterói. O endereço exato é na Rua José do Patrocínio, 255. A elevação não é por acaso: oferece uma vista panorâmica e dominante da Baía de Guanabara, da Ponte Rio-Niterói, do centro da cidade do Rio de Janeiro e da própria área industrial que gerou a fortuna do Conde.
Da varanda de sua residência, os Pereira Carneiro podiam literalmente observar o movimento de seus navios e o trabalho nos estaleiros. Segundo o dossiê de tombamento estadual do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), a mansão foi construída entre 1906 e 1910, projetada para ser a joia da coroa de todo um complexo familiar e empresarial que se estendia aos pés da colina, conhecido como a Villa Pereira Carneiro.
O acesso, hoje dificultado pela mata e pelos portões cerrados da massa falida do estaleiro, reforça a sensação de que a casa era uma ilha de luxo flutuando sobre o suor operário que a sustentava.
Como era o palacete no seu auge?
O palacete é uma obra-prima do ecletismo, estilo em voga na época, que mesclava elementos de diferentes períodos históricos. O prédio possui três pavimentos e uma torre sineira com mirante, que é seu elemento mais distintivo. A fachada é rebuscada: colunas em estilo neoclássico, varandas com grades de ferro trabalhado, cúpulas e platibandas decoradas. O acesso se dá por uma escadaria monumental que leva ao piso nobre.
O luxo era a regra: mármores de Carrara revestiam escadarias, e madeiras de lei foram utilizadas nos assoalhos e lambris. O exterior apresentava varandas com balaustradas de pedra e grandes janelas em arco, projetadas para capturar a luz da baía.
Internamente, o palacete surpreendia: tinha elevador mecânico e um engenhoso sistema de bombas que levavam água do mar até a piscina, além de amplos salões sociais. No auge, o interior era adornado com tapeçarias, lustres de cristal importados da Europa e mobiliário pesado. Havia, segundo relatos de ex-funcionários citados em reportagens do jornal O Fluminense, uma capela interna e salões de festa com pé-direito duplo. O jardim, hoje uma selva, contava com paisagismo planejado, fontes e estátuas.
Era mesmo um point da alta sociedade da época?
Durante as décadas de 1940 e 1950, o palacete foi um dos palcos do poder político e econômico do Brasil. Não era apenas uma casa, era um hub de articulação. A Condessa Maurina era conhecida por ser uma anfitriã impecável. Segundo colunas sociais e arquivos históricos do Jornal do Brasil, a residência recebia ministros de estado, banqueiros, diplomatas e a nata da sociedade fluminense, carioca e simpatizantes.
Reportagens publicadas por jornais como O Fluminense, descrevem recepções suntuosas, bailes de carnaval famosos, saraus literários e jantares com dezenas de convidados. A família mantinha um estilo de vida aristocrático, com serviçal numeroso e etiqueta rigorosa.
Por que o chamam de “Taj Mahal do Conde”?
O apelido “Taj Mahal do Conde” não aparece em fontes acadêmicas tradicionais, mas circula em narrativas populares e relatos informais, possivelmente por causa da aparência romântica e marcante do palacete, que lembra construções exóticas e fora do comum quando visto da Baía de Guanabara.
Mas não há registros de que tenha sido construído por um arroubo de paixão, mais ou menos como no caso do Taj Mahal, mas sim como demonstração de status e centro do poder familiar. O apelido pegou e é amplamente utilizado em reportagens e pelo imaginário coletivo de Niterói, servindo para destacar o aspecto majestoso e, ao mesmo tempo, tristemente negligenciado da construção, que assim como o mausoléu indiano é símbolo de uma história de esplendor passado.
O que era a Villa Pereira Carneiro?
A Villa Pereira Carneiro não é apenas o nome de um conjunto residencial antigo: trata-se de um bairro operário planejado pelo próprio Conde para abrigar trabalhadores da sua companhia de navegação e estaleiros.
Projetada com cerca de 160 a 180 casas geminadas de estilo suíço, a vila destacava-se por oferecer moradias consideradas “higiênicas” para a época, cada uma com instalações avançadas como mictórios individuais, além de escola e ambientes comunitários.
Conforme documentado pelo livro Niterói: História e Arquitetura, a Villa funcionava como uma cidade particular. Era autossuficiente, com seus próprios sistemas de abastecimento de água e energia, e refletia a visão patriarcal e centralizadora do conde. Todos os aspectos da vida familiar e dos negócios orbitavam em torno da figura do patriarca, cuja casa principal vigiava tudo do alto, numa clara representação física de sua autoridade.

Dá para vê-lo da Ponte Rio-Niterói?
Quem atravessa a Ponte no sentido Niterói, ao olhar para a direita após o Vão Central, em direção à Zona Portuária, avista a estrutura, embora parcialmente encoberto por construções e painéis publicitários.
Para o observador leigo, ele se assemelha a um castelo europeu transplantado para os trópicos, com sua silhueta imponente recortada contra o verde do morro. É uma visão fugaz para quem está a 80km/h, mas inconfundível para quem enfrenta o trânsito lento.

Desde quando o palacete está fechado?
O uso residencial e familiar do palacete começou a declinar após a morte do conde em 1920. Com a fragmentação da herança e a crise nos negócios da família, a mansão foi ficando cada vez mais ociosa.
O abandono definitivo e o fechamento total ocorreram progressivamente a partir da segunda metade do século XX. O local foi saqueado, invadido e depredado ao longo dos anos. Está formalmente fechado e em estado de ruína há várias décadas. Em 1990, foi tombado pelo Inepac em nível estadual, o que, em tese, deveria protegê-lo, mas na prática não reverteu o processo de degradação, que só se agravou.
Atualmente, o que resta são as “ossadas” do edifício: a estrutura de concreto e tijolo resiste, mas parte dos telhados cederam, o reboco caiu expondo a alvenaria, e as raízes de árvores, num processo tailandês de angkor-watização estilo fluminense, abraçam as colunas e rompem os pisos.
Existem projetos de recuperação do palacete?
Sim, há décadas circula o projeto de transformar o palacete e parte da área da Villa Pereira Carneiro no “Museu da Indústria Naval”. A ideia, apoiada por associações de moradores, historiadores e pelo próprio poder público em diversos momentos, é vista como a mais adequada, unindo a recuperação do patrimônio arquitetônico à preservação da memória da importante tradição naval de Niterói.
Mas o projeto não sai do papel por um conjunto de fatores complexos: a questão da propriedade, que envolve herdeiros dispersos entre velhas disputas judiciais; o altíssimo custo de restauração de um edifício tão degradado, que demanda milhões de reais; a burocracia inerente a processos de tombamento e licitação; a falta de vontade política contínua e de um agente (seja municipal, estadual ou federal) que assuma a liderança e o financiamento do projeto de forma efetiva.
Matérias no jornal O Globo ao longo dos anos tem mostrado que o projeto é sempre “reapresentado” em campanhas eleitorais, mas esbarra nesses obstáculos estruturais, permanecendo eternamente no campo das boas intenções políticas.


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