Antes da internet no bolso, a lógica para se conectar girava em torno das lan houses: comércios que vendiam, basicamente, o direito de acessar o mundo. Bastava chegar, pedir o tempo de uso e escolher a máquina desejada. O pagamento trocava de mãos antes do clique inicial ou ao fim dos minutos disponíveis. O pano de fundo vinha do som dos teclados e das conversas cruzadas de uma juventude que descobria o digital coletivamente.

Hoje, quase duas décadas depois, a ampliação do acesso à internet fez com que esses estabelecimentos criassem uma nova regra de existência para não desperecer, já que muitos fecharam conforme a tecnologia avançava. Agenda do Poder ouviu proprietários e funcionários de quatro lan houses que resistiram ao tempo. Em comum, todos encontraram em serviços como impressão, games e cadastros as alternativas para seguir de portas abertas.

A primeira lan house

A primeira do ramo chegou ao Brasil em 1998, trazida pelo empresário coreano Sunami Chun, fundador da rede Monkey. O modelo nasceu com foco em games, mas logo foi apropriado pelo restante do país, que passou a pagar poucos reais por minutos ou horas de conexão.

Nos anos 2000, era comum aguardar filas para utilizar as máquinas. Para o público, valia a pena esperar para ouvir música, passar o tempo se divertindo entre os milhares de jogos possíveis e dialogar em bate-papos nas redes sociais MSN e Orkut, ambas extintas. Uma frase marcou o atendimento da época:

“Dois e cinquenta, meia hora; uma hora, cinco reais”

Interior da Brasil Virtual, em Copacabana: computadores ainda tomam maior parte do espaço – Crédito: Sofia Miranda/ Agenda do Poder

O espaço cumpria um papel que ia além do entretenimento, era um ponto de encontro, sociabilidade e iniciação digital.

Em meados do ciclo, a curva de ocupação atingiu o topo, resume a antropóloga Carla Pereira Barros, e professora de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF): “O momento de ouro foi em 2009, 2010, 2011, por aí, com um acesso muito grande.”

O auge tinha rosto e recorte social. Nas palavras da professora, “em 2010 e 2011, mais de 70% da população das classe D e E só tinha a lan house como lugar para se conectar”.

Hoje, segundo dados da Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital (ABCID), o Brasil ainda conta com mais de 90 mil lan houses, embora apenas 17% sejam formalizadas.

Para o co-coordenador do Grupo de Trabalho sobre Conectividade Significativa e Redes Comunitárias da ISOC Brasil, Nathan Paschoalini, as lan houses foram e são fundamentais para a democratização do acesso à internet, especialmente em um país onde o serviço ainda não é universalizado.

“Elas surgem justamente nesse vácuo de políticas públicas de inclusão digital e de insuficiência de cobertura pelo setor privado. Nesse sentido, a formação de uma cultura digital emerge desse encontro online, mediado por um espaço físico, frequentado por outras pessoas, que dividem o cotidiano, costumes e práticas”, afirma.

A Pesquisa sobre o Uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação no Brasil (TIC Lanhouse – 2010), divulgada pelo Comitê Gestor da Internet (CGI.br), reforça essa leitura: o uso da internet nas lan houses era mais incidente nas faixas menos escolarizadas e de menor renda. 

O estudo, com 412 entrevistas em 120 municípios, mostrou que 96% dos estabelecimentos tinham frequência intensa de jovens entre 16 e 24 anos, e 82% registravam uso constante de pessoas entre 25 e 34 anos.

De cabines telefônicas a balcões multifunção

Se no Brasil a ideia foi importada do Oriente, no Rio de Janeiro, mais especificamente em Copacabana, um empresário argentino que apresentou o conceito ao futuro sócio Rafael Gomes, de 41 anos, hoje proprietário da Brasil Virtual, uma das sobreviventes do ramo na Zona Sul.

A Brasil Virtual começou em 2005, mas sua história remonta a 1996, quando Rafael recebeu do conhecido o convite para trabalhar com ele. Na época, as lan houses ainda eram embrionárias, e o comércio local ainda girava em torno das cabines telefônicas. Essas eram primordiais para turistas e motoristas que precisavam realizar ligações internacionais.

Loja completa duas décadas de existência neste ano | Crédito: Gabriel Mattos – Agenda do Poder

“No começo, o foco era cabine telefônica e internet. Depois virou mais internet, depois impressão de documentos. Com o tempo, vimos que o canal certo era investir em serviços de impressão e digitalização”, conta.

Localizada na Rua Bolívar, a loja segue o mesmo ritual de duas décadas atrás, com portas de vidro abertas para a calçada, e fileiras de computadores ainda em operação, mas a dinâmica é outra. Os serviços de balcão, como impressões, digitalizações, montagens de currículos são o sustento do negócio, explica o proprietário.

Rafael Gomes, de 41 anos, mantém uma outra lan house chamada Mundo Virtual – Crédito: Gabriel Mattos/ Agenda do Poder

“Hoje a gente vê que a nossa demanda maior é de balcão, impressões, digitalizações, montagens de currículos, coletas diárias. É o que a gente chama hoje de carro-chefe, pelo nosso público municipal”, afirma. 

Mesmo assim, há quem ainda se sente para acessar o e-mail, revisar um currículo ou resolver pendências, conta Rafael:

“O celular facilita muito, claro, mas ao mesmo tempo ele também limita: você não consegue imprimir um documento, não consegue digitalizar. Muitas vezes o sistema não é compatível, ou a tela é pequena demais. Então, pra grande maioria das pessoas, ainda há essa necessidade de ter um local físico para resolver essas coisas”, destaca.

A loja, que já viveu dias de corredores lotados, hoje funciona num ritmo mais espaçado mas ainda constante. A faixa etária também mudou. “Aqui em Copacabana, o público tem faixa etária mais avançada. São pessoas que demandam essa honestidade, essa confiança pra poder usar o serviço, pessoas que prezam o contato pessoal”, diz Rafael. 

Nos anos de auge, os acessos eram voltados principalmente ao lazer, lembra Rafael. A disputa de público também fazia parte do cotidiano: ”Naquele momento, todo mundo abria uma lan house. Eu cheguei a ter concorrência na rua de trás, em volta, várias. Mas, com o tempo, as que não conseguiram se adaptar foram fechando”, lembra. 


Da direita à esquerda, cabine telefônica na Brasil Virtual e tabela de preços | Crédito: Sofia Miranda

Depois de alguns anos, a Brasil Virtual passou por reformas, ampliou o espaço e hoje ocupa uma área maior na mesma rua. Para fidelizar os clientes, ele diz que o diferencial está no atendimento.

 “Eu sempre prezei muito pelo atendimento, acho que isso é o primordial pra tudo. Comércio tem vários, de todos os tipos, mas o que fica mesmo é o diferencial: um bom atendimento, uma estrutura bacana, bem cuidada.”

De 23 para cinco computadores

A poucos quarteirões dali, outra resistente mantém o letreiro aceso. A Web Now, instalada em uma galeria da Rua Barata Ribeiro, segue oferecendo acesso à internet em meio ao vai e vem de Copacabana. Do lado de fora, uma pequena fila se forma numa quarta-feira qualquer. São, em sua maioria, adultos e idosos resolvendo pendências da vida.

Entre eles está o administrador de empresas Denivaldo dos Santos, de 60 anos, que vê na lan house uma opção prática de acesso em meio aos deslocamentos diários pela cidade a trabalho

Atendimento na Web Now, em Copacabana – Crédito: Sofia Miranda/ Agenda do Poder

“Aqui a vantagem é que eu tenho estrutura para fazer o que eu quero. Eu tenho ótimas máquinas para me assessorar, tem impressoras, tem serviço de agilização como entrega de documentos, então isso ajuda muito pra mim que preciso ficar toda hora me deslocando para um lugar diferente”, avalia o cliente. 

Hoje, o espaço carrega a mistura de tempos: cabos e impressoras, cinco máquinas ainda ligadas que dividem salão com um balcão de serviços, uma pequena área de gráfica e um ponto de retirada do Mercado Livre.

“No início, eram mais jovens. Vinham pra ficar na internet, conversar, bater papo. Era o auge das redes sociais, Orkut, MSN. Hoje em dia é mais serviço mesmo pra quem precisa de um computador para digitar, enviar um documento. O público agora é mais de trabalho”, conta o proprietário, Rafael Amaro de Oliveira, de 35 anos. 

Loja reduziu de 23 computadores para cinco | Crédito: Sofia Miranda/ Agenda do Poder

Segundo ele, quando percebeu o declínio no mercado de lan houses, o movimento se reorganizou de maneira natural diante das novas demandas e pendências digitais. A transição foi lenta, mas decisiva.

“A gente percebeu que a quantidade de computadores era mais do que o necessário. Muitas coisas ficaram obsoletas. Então, aos poucos, fomos nos adaptando. Quando chegava um cliente querendo fazer algo novo, a gente aprendia e agregava. Hoje temos muitos serviços por causa dessa demanda.”

Rafael ainda cobra R$ 6 a hora, o mesmo preço de anos atrás. Com olhar de quem acompanhou a maré digital desde o início, ele resume o destino dos colegas de profissão: “Quem não conseguiu evoluir e crescer junto com a internet foi perdendo a experiência.”

Nathan Paschoalini contextualiza essa transformação: “A individualização do acesso à internet, em um contexto de hiperpersonalização de conteúdos oferecidos por plataformas digitais, acaba por atomizar os indivíduos online, rompendo com a noção de comunidade que fundamentou o surgimento da rede nos anos 1960 e que ecoou nos anos 1990 e 2000, com a popularização dos computadores pessoais”, analisa. 

Atendimento: diferencial e inclusão

Com o crescimento da loja e a diversificação dos serviços, o time também mudou. Antes, apenas o proprietário atendia. Hoje, seis jovens dividem as funções.

São mais jovens, aprendem rápido, atendem bem. O atendimento é o diferencial. Muitos clientes trazem café, bolo, mensagem, um ‘bom dia’. Até hoje a gente tem isso.”

Rafael Amaro, empresário

O papel do atendente é peça-chave dessa engrenagem, destaca Carla Pereira Barros: “O atendente da lan house era uma figura muito importante. As pessoas mais velhas tinham extrema dificuldade. Elas não sabiam nem por onde começar. Imagina: não tem computador em casa, chega na lan house e tem que resolver alguma coisa da vida civil.”

Esse elo se mantém em lugares como a Alpha 03, na Gardênia Azul, na Zona Sudoeste do Rio, aberta em 2005. Hoje, o público é majoritariamente idoso, formado por pessoas que ainda não migraram totalmente para o universo digital, conta Maria Regina Almeida, de 24 anos. 

“A maior parte do nosso público são idosos, que não pagam conta digitalmente. Procuram a gente pra imprimir, pagar na lotérica, resolver pendências do aplicativo gov. Muitos são sozinhos ou têm familiares sem paciência pra ensinar.”

Com a pandemia de covid-19, o local viu uma queda no fluxo e passou a produzir personalizados, como canecas, blusas e almofadas. Os serviços de xerox e impressão também tiveram reforço, lembra a jovem. 

 “O nosso público era de adolescentes e crianças querendo jogar. Os serviços que costumavam consumir nas máquinas eram jogos, ou MSN e Orkut. A lan house era mais requisitada pois nem todos tinham acesso ao computador, então a loja ficava bem cheia. Conhecíamos novas pessoas e os clientes interagiam bem mais entre si”, recorda.

Telecentros: lan houses de pouca sociabilidade

A sociabilidade é uma das palavras que definem a era das lan houses.  “Ali era como se fosse um clube. Os meninos saíam da escola, iam pra lá e ficavam a tarde inteira”, lembra Carla Barros.

A pesquisadora acompanhou a vivência de duas empresas na comunidade Vila Canoas, em São Conrado, na Zona Sul do Rio, durante os anos de 2008 e 2009. Enquanto os estabelecimento lotavam, diz ela, o poder público tentava uma alternativa institucional, com regras e cursos básicos.

Espaços tiveram menor adesão em comparação com as lan houses | Crédito: Divulgação

Os espaços chamados de Telecentros, eram equipados, mas engessados. “Eles ministravam cursos de capacitação, como Word, Excel. Mas não cumpriam esse papel de inclusão digital. Lá não se podia jogar nem acessar redes sociais, o que afastava as pessoas”, analisa a professora.

Do outro lado da rua, as lan houses operavam como praças, clubes e vitrines do mundo, onde curiosidade e afeto dividiam espaço com telas e teclados.

Nesses espaços, a experiência era guiada pelo desejo e pela curiosidade, em uma liberdade que também abria brechas para zonas cinzentas, parte da vida real que inquietava muitas mães. Em vários casos, essas lojas eram vistas como rivais da escola, distrações que afastavam os filhos dos estudos.

“Eu via as mães deixando os filhos, algumas não muito satisfeitas, porque um dos problemas que a lan house enfrentou foi a questão do medo dos jogos, como se aquilo fosse uma oposição à escola. Você tem uma sociedade, em parte, que discriminava esses espaços por conta disso”, afirma.

Mesmo assim, para quem frequentava, aquele ambiente representava uma riqueza difícil de medir: havia amizade, afetividade, convivência. “Muitos meninos comemoravam o aniversário dentro da lan house”, relembra a pesquisadora.

Lan houses 2.0: o retorno pelas mãos dos gamers

Foi pensando em reciclar esse espírito que a Gamer King abriu já na era digital, no Colubandê, em São Gonçalo. Se nas primeiras lan houses a meta era navegar e se conectar, as de agora miram performance e potência. Máquinas de última geração, cadeiras ergonômicas e iluminação de LED substituem os velhos monitores de tubo.

Gamer King, em São Gonçalo, a nova geração de lan house que nasceu já na era digital mira o público gamer – Crédito: Arquivo

“A Gamer King foi projetada e planejada em 2023, com sua concretização em 2025. Existem muitas game houses no Oriente, e essa foi a inspiração da nossa. A ideia surgiu durante um jantar no Burger King próximo ao clube Mauá”, conta Breno Lourenço, de 21 anos, gestor responsável pela unidade.

Mesmo num cenário de hiperconectividade, a demanda por assistência técnica e equipamentos persiste.

“Por incrível que pareça, ainda há muita gente que precisa de ajuda com informática, documentos e internet. É uma cultura difícil de se desvincular”, diz Breno.

R$3 lado esquerdo da loja e R$6 do lado direito

A Gamer King funciona com oito máquinas potentes. O valor da hora varia de R$ 3 a R$ 6, dependendo do lado da loja. O público é majoritariamente jovem, formado por jogadores que buscam o desempenho que não têm em casa. Setups games, vale lembrar, hoje ficam pela casa dos milhares.

“A real proposta de uma lan house sempre foi suprir uma carência tecnológica. Hoje, essa carência não é mais de acesso à internet, e sim de equipamentos. Para continuarmos existindo, precisamos oferecer tecnologias que não estão disponíveis na casa dos consumidores.”

Breno Lourenço, empresário
Segundo Breno, do lado direito as máquinas são mais modernas – Crédito: Arquivo

O jovem, que cresceu frequentando lan houses, se diz nostálgico: “Frequentei bastante lan house durante a infância, e eu vejo muito dos cenários antigos nos dias de hoje. Acaba sendo um cenário diariamente nostálgico.”

Para os curiosos, aqui vão os endereços das lan houses citadas nesta reportagem:

  • A Lan House Brasil Virtual fica localizada na R. Bolívar, 63 – Loja A – Copacabana. 
  • Há algumas ruas dali, fica localizada a Web Now, na Rua Barata Ribeiro, nº 370. 
  • Em São Gonçalo, na Região Metropolitana, a Gamer King funciona como uma arena de jogos na Av. José Mendonça de Campos, 1225, no bairro Colubandê. 
  • Já na Zona Sudoeste do Rio, a lan house e gráfica Alpha 03 fica na Rua Menta, nº 13, bairro Gardênia Azul.

*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading