Jornais desta quarta-feira, tanto em suas edições on-line como impressas, trazem reportagens, editoriais e opinião de colunistas e analistas com críticas e condenação do presidente Lula por suas reiteradas críticas, que supostamente têm sido responsáveis pelas altas do dólar, ao Banco Central e a seu presidente Roberto Campos Neto
Na Folha de São Paulo, a critica mais dura e veemente: “Retórica populista de Lula semeia a crise”, diz editorial, que completa dizendo que “Frenesi verborrágico do petista alimenta incertezas e a alta do dólar, criando armadilha para o próximo chefe do BC”.
Leia a íntegra
“São típicas da retórica populista a pretensão de personificar o interesse do povo, sempre tratado como massa amorfa e incapaz, e acusações contra supostos inimigos de tais aspirações. Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que nunca se afastou muito desse padrão, decidiu aprofundá-lo num recente frenesi de entrevistas e pronunciamentos.
“Eu não sou um presidente da República que está junto do povo. Eu sou o povo que está na Presidência da República deste país por conta de vocês”, discursou Lula de modo quase caricatural no sábado (29), em São Paulo, ao concluir uma longa sequência de autoelogios.
Os inimigos escolhidos são, mais uma vez, o Banco Central e o mercado financeiro, que estariam envolvidos em uma conspiração para manter os juros elevados. “O que você não pode é ter um BC que não está combinando adequadamente com aquilo que é o desejo da nação”, disse o petista na segunda-feira (1º), desta vez arvorando-se em falar em nome da nação.
Mesmo para um mandatário desde sempre amigo dos microfones, a escalada verborrágica dos últimos dias é evidente —foram ao menos oito entrevistas a veículos de comunicação e 13 discursos desde a semana retrasada. Já os objetivos não parecem tão claros, e os resultados são desastrosos.
Só nesse período, a cotação do dólar saltou 4,7%, segundo a taxa média calculada pelo BC, aproximando-se do patamar de R$ 5,70, o que tende a pressionar a inflação.
Pudera: em 16 dias, Lula indicou que espera do próximo chefe do BC mais alinhamento a seus desígnios, desautorizou medidas de controle de despesas públicas aventadas por sua equipe e, nesta terça (2), disse que o governo fará “alguma coisa” contra a alta do dólar.
Não há lógica no falatório. Os quatro diretores indicados pelo governo petista ao BC votaram pela interrupção da queda dos juros, amparados por argumentação técnica. A desvalorização do real só torna ainda mais difícil retomar o corte das taxas.
O mercado, ambiente no qual se formam preços, reage às incertezas alimentadas por Lula quanto às contas públicas, a autonomia da política monetária e o controle da inflação. Intervir nesse movimento, sem estancar suas causas, será inócuo na melhor das hipóteses.
Em menos de seis meses, Roberto Campos Neto deixará o BC e não servirá mais de bode expiatório para as mazelas da economia. Na toada de hoje, seu sucessor corre risco de assumir em um cenário hostil, de impacto do câmbio na inflação e perda de credibilidade.
A piora das condições financeiras, cedo ou tarde, chega à produção e ao emprego, e os mais atingidos são os pobres em cujo nome pretende falar o populismo.”
Por seu lado, o Estadão tenta dar a dimensão do que chama de “O peso de Lula na inflação” e como as falas do presidente da República contribuem para piorar expectativas já bastante ruins.
Segundo o jornal, “as estimativas de analistas do mercado financeiro para a inflação sobem semana a semana há, ao menos, dois meses. Para este ano, a previsão já atinge 4%, ou seja, um ponto porcentual acima do centro da meta de 3% e só meio ponto abaixo do teto; para 2025, a projeção é de 3,87%. A tendência já havia sido verificada no recente Relatório Trimestral de Inflação (RTI), que constatou consistente piora na percepção dos analistas para o comportamento inflacionário, ainda que os resultados fiscais negativos no curto prazo já fossem favas contadas.
Tanto o RTI quanto o Focus são elaborados pelo Banco Central (BC), com base em modelos de projeções coletados em mais de cem instituições financeiras. A deterioração das previsões, é bom ressaltar, não se deve apenas ao acompanhamento de preços ou ao comportamento desta ou daquela commodity agrícola ou mineral, ou mesmo aos reflexos da economia norte-americana. Contribuem – e muito – para o cenário as incertezas futuras no mercado doméstico e, neste tópico, o presidente Lula da Silva tem se esmerado em potencializar a inquietação.
Por óbvio, tem pesado muito nas expectativas de inflação a constatação de que a revisão das despesas prometidas pelo governo não será suficiente para equilibrar o orçamento público, ainda mais diante de uma arrecadação já no limite. E desde que decidiu substituir as lives semanais roteirizadas por entrevistas a veículos de comunicação, Lula da Silva se transformou numa fonte inesgotável de insegurança.
A cada declaração estouvada, faz disparar o dólar, recalibra opções de analistas, deixa o mercado em polvorosa e, depois, se diz surpreso com o resultado. Sem medir as palavras, chamou de “cretinos” os especialistas que atribuíram um pico na cotação do dólar em parte às dúvidas que ele manifestou sobre a necessidade de cortar gastos, em entrevista ao portal UOL, mesmo diante de um déficit primário de R$ 61 bilhões, o segundo pior desde 1997. “Os cretinos não perceberam que o dólar tinha subido 15 minutos antes”, disse Lula, ignorando o fato de que a alta do dólar naquela quinta-feira tinha ocorrido imediatamente depois de sua fala desastrosa, e não antes, conforme cronometrou o Estadão/Broadcast.
Dizer que não tem certeza da urgência de cortar despesas é assinar um atestado contra a responsabilidade fiscal. Sem que Lula ao menos demonstre efetivo interesse em equilibrar as contas, será necessário manter os juros altos para conter a inflação.
Mas Lula não está nem aí. Em entrevista à rádio mineira O Tempo, indiferente ao caos que espalha, voltou a criticar os juros e garantiu que “isso vai mudar” quando ele puder indicar o presidente do Banco Central. Ou seja, o presidente anunciou, a quem interessar possa, que o próximo presidente do BC será só um nome no crachá, pois a política monetária será ditada pelo Palácio do Planalto.
Enquanto isso, a inflação sobe. No momento em que se relembra o lançamento do real, que há 30 anos restabeleceu o poder de compra da moeda nacional e abriu caminho para o desenvolvimento maduro do País, é preciso reforçar a mensagem de que o controle da inflação não é uma dádiva da natureza, mas resultado de responsabilidade fiscal – aquela que Lula parece desdenhar.”, conclui a análise do articulista.
Por fim, o Globo alerta para a possibilidade extrema do pensamento do presidente Lula causar até possível aumento da taxa de juros até o final do ano.
Com o título “Na contramão do que Lula quer, mercado já vê possibilidade de alta nos juros por causa do dólar”, o jornal diz que “o dólar vai a R$ 5,66, e analistas já avaliam o impacto inflacionário do câmbio. As incertezas levantadas pelo presidente nas críticas ao BC e a resistência ao ajuste fiscal alimentam a curva de juros futuros”.
A seguir, o texto da reportagem de O Globo:
“O dólar comercial voltou a subir ontem, tendo sido negociado a R$ 5,70 na máxima do dia, para encerrar em alta de 0,22%, a R$ 5,66. A persistente valorização da moeda americana tem puxado a curva dos juros futuros, um sinal de que o mercado já começa a apostar que o Banco Central (BC) terá de elevar a taxa básica de juros (Selic), hoje em 10,5% ao ano, para conter a inflação.
O desempenho do dólar no Brasil ontem foi na contramão do exterior, onde a moeda se desvalorizou com sinalizações do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), Jerome Powell, de que os Estados Unidos estão caminhando para a desinflação, o que pode permitir a redução dos juros à frente.
Somente nos dois primeiros dias deste mês o dólar avançou quase 2%. No ano, a moeda acumula valorização de mais de 17%. Para analistas, o câmbio opera em alta excessiva, com elevado prêmio de risco. Eles avaliam que não há fundamentos na economia neste momento que expliquem essa valorização.
Segundo analistas, não se sabe que patamar o dólar pode atingir enquanto não houver sinalização mais clara do governo sobre o cenário fiscal.
‘Pulga atrás da orelha’
Pela manhã, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que a alta do dólar era preocupante e que fazia parte de um jogo “especulativo” e de “interesses” contra o real e disse que se reunirá hoje com a equipe econômica para debater medidas.
Depois das declarações, a moeda americana chegou a bater R$ 5,68. Para Victor Beyruti, economista da Guide Investimentos, a escalada do dólar é uma reação do mercado às incertezas no cenário fiscal:
— Não é uma questão especulativa, mas uma questão de risco do mercado, que reage às incertezas se protegendo. Tudo isso prejudica ainda mais a percepção de risco no Brasil, que já é muito afetada pelo fiscal, enquanto não há nenhuma sinalização concreta de que o governo vai cortar despesas.
Para Alexandre Viotto, diretor de banking e câmbio da EQI Investimentos, a fala de Lula deixou “uma pulga atrás da orelha”, pelo receio de que o governo tome medidas que tragam mais nervosismo.
Apesar de o BC ter sinalizado que a Selic deve permanecer em 10,50% pelo tempo que for necessário até a inflação desacelerar, o mercado começa a se questionar se a autoridade monetária não se verá obrigada a elevar a taxa básica de juros ainda este ano.
‘Tendência é que piore’
Analistas argumentam que, na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o cenário alternativo considerava um dólar mais baixo do que o visto atualmente.
Desde 19 de junho, a última reunião do Copom, o dólar subiu mais de 4%. Bruno Martins, economista sênior do BTG Pactual, destaca que as expectativas de inflação também se deterioraram:
— A tendência é que piore ainda mais, por conta dessa depreciação forte no curto prazo, então muito provavelmente esse cenário de ciclo (da Selic) constante não vai se concretizar, e pode ser que o Banco Central suba os juros ainda este ano.
Ele ressalta que o BTG ainda não alterou seu cenário-base, de Selic a 10,50% no fim de 2024. A projeção atual do banco para o dólar ainda é de R$ 5,20, mas, segundo Martins, o BTG considera revisar essa estimativa.
Mercado vê IPCA maior
Pela curva de juros, o mercado vê uma alta de 0,5 ponto percentual na Selic ainda neste ano. Isso não necessariamente significa que os analistas acreditem que isso irá ocorrer, visto que os contratos de DIs são tidos como ativos “seguros” e são muito buscados em momentos de risco e incerteza
Os contratos com vencimento em janeiro de 2025 até recuaram ontem, de 10,83% para 10,76%, mas estão acima dos 10,5% da Selic.
— O prêmio da curva de juros não está aumentando por influência da inflação, mas sim pelo cenário local, com risco fiscal e recentes falas do Lula, com ataques ao Banco Central — disse Luan Aral, especialista em dólar da Genial Investimentos.





