* Paulo Baía
Na trajetória da história republicana brasileira, poucos nomes conjugam com tanta coerência a arte do cuidado e a arte da política quanto Jandira Feghali. Médica de formação, militante de convicção, parlamentar de ofício, dirigente sindical por paixão e guerreira da democracia por vocação, ela construiu uma biografia que é, ao mesmo tempo, uma oferenda à República e um testemunho vivo da resistência democrática que atravessou as sombras da ditadura, os labirintos da transição e os vendavais do presente.
Jandira é filha do Brasil que se insurgiu contra o silêncio. Filha de uma geração que não se permitiu resignar diante da violência institucional, da mordaça cultural, da negação dos corpos, dos direitos e das liberdades. Nasceu em Curitiba em 1957. Mas foi no Rio de Janeiro que formou sua alma política e profissional. Ali se graduou em medicina na UERJ em 1979. Em pleno final da ditadura militar. E desde o primeiro dia pós-formatura foi ao encontro de sua outra paixão: o movimento sindical e social. Antes de pisar no parlamento, Jandira já era tribuna. Sua oratória nasceu nas assembleias de médicos residentes, nos debates sobre saúde pública, nos comícios pela redemocratização, nas marchas pela Constituinte.
Presidiu a Associação Nacional de Médicos Residentes. Dirigiu o Sindicato dos Médicos do Estado do Rio de Janeiro no auge da luta pela redemocratização. Ali, entre uma assembleia e outra, fincou os alicerces do que viria a ser uma vida dedicada ao bem comum. Sua trajetória no SinMed-RJ foi tudo, menos burocrática. Em um país ainda à sombra dos escombros da ditadura, o sindicato se tornava espaço de combate político, de crítica social e de proposição programática para a reconstrução de um Brasil democrático. E Jandira estava lá com sua fala firme, sua escuta sensível, sua indignação lúcida. Os embates não eram apenas por salários ou condições de trabalho. Eram, acima de tudo, por um SUS público, gratuito, universal e de qualidade.
Em 1986, com a redemocratização em curso, Jandira Feghali foi eleita deputada estadual constituinte do Rio de Janeiro. Começava ali uma longa e marcante atuação legislativa. Em 1990, foi eleita pela primeira vez deputada federal. E ali se instalou como uma das mais importantes parlamentares da esquerda brasileira. Ocupou, desde então, posições de liderança política em todas as legislaturas que exerceu. Tornando-se referência em articulação política, elaboração legislativa, negociação estratégica e defesa de direitos. Seus mandatos, atualmente ela cumpre o oitavo na Câmara dos Deputados, foram marcados por uma constância rara: a fidelidade à democracia, a coragem da coerência e a vocação de servir ao público.
No Parlamento, fez do ofício de legislar uma expressão da ética do cuidado. Como médica, sabia que não há justiça social sem saúde, nem saúde sem justiça. Fez aprovar leis fundamentais para o sistema de saúde, como a que garante a cirurgia reparadora de mama para mulheres vítimas do câncer. E se destacou na defesa dos profissionais da saúde, da ampliação do acesso a medicamentos no SUS, da produção farmacêutica nacional e do duplo vínculo para médicos e médicas no setor público. Mas seu olhar ultrapassou os muros da medicina.
Como parlamentar, Jandira foi uma das principais articuladoras da Lei Maria da Penha. Relatora de direitos das mães adotantes. Defensora obstinada das políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres. Fez da cultura uma trincheira de emancipação coletiva. Foi secretária de Cultura da cidade do Rio de Janeiro. Relatora da Lei Aldir Blanc e patrona de incontáveis batalhas em defesa dos artistas, das comunidades culturais, da música, do teatro, das escolas de samba e dos terreiros de resistência estética e espiritual do povo brasileiro.
Em 2008 e 2016, lançou-se candidata à Prefeitura do Rio de Janeiro. Teve votações expressivas e desempenhos relevantes, mesmo em cenários adversos. Não venceu nas urnas, mas colheu prestígio e respeito de adversários, aliados e da opinião pública. Ao apoiar outros candidatos no segundo turno, sempre agiu com grandeza e lealdade institucional. Sinalizando sua capacidade de dialogar para além de seu campo político. Com inteligência estratégica, Jandira sempre soube conversar com todas as bancadas. Da esquerda revolucionária ao centro liberal. Foi líder da Minoria na Câmara em momentos decisivos da política nacional. Exercendo o papel de ponte entre diferentes partidos, sem jamais abdicar de seus princípios.
Articuladora fina, Jandira é a síntese rara entre militância e pragmatismo, entre a paixão e a razão. Enquanto muitos se apegam a dogmas, ela compreende o valor da mediação, da construção, da política como arte de fazer possível o que é necessário. Sua capacidade de diálogo com todos os campos institucionais, inclusive em momentos de crise e radicalização, fez dela uma referência para o campo progressista e um nome respeitado mesmo entre os adversários mais ferrenhos.
Jandira nunca abandonou sua trincheira de origem: os movimentos sociais, os sindicatos, os fóruns populares, os artistas de rua, os grupos de base. Sua presença constante em mobilizações, protestos, conferências e seminários revela que seu mandato é coletivo. Ela não é representante apenas de eleitores. É porta-voz de causas, de minorias, de grupos vulneráveis, de utopias que resistem. Ela carrega em sua trajetória o Brasil que não se ajoelha, que não se vende, que não se cala.
Mas Jandira é também ternura. É filha, irmã, mãe. É amiga dos músicos, parceira dos poetas, vizinha das baianas do acarajé e dos mestres de bateria. Toca percussão. Toca corações. Toca a política com a mesma leveza com que enfrenta a dureza dos tempos. E ainda encontra tempo para sorrir com a alma, para celebrar a vida, para confiar no futuro.
Se a República é, no sentido mais elevado da palavra, o governo do bem comum, então Jandira é sua sacerdotisa. Se a democracia é o regime onde o povo deve ser ouvido, então Jandira é sua porta-voz. Se a política é a arte de cuidar da polis, então Jandira é, antes de tudo, médica da cidadania. Cuidou do Brasil em todas as suas dores. As sociais, as institucionais, as invisíveis e as gritantes. Curou feridas com palavras, remédios e projetos de lei. Comoveu com firmeza. Ensinou com exemplo. Provocou com inteligência.
Neste tempo em que tantas figuras públicas vacilam entre o oportunismo e o silêncio, Jandira se mantém inteira. Coerente. Forte. Bela. Do lado certo da história. Do lado do povo. Com o povo. Para o povo.
Obrigado, Jandira Feghali. Por tua coragem, tua constância, tua lucidez. Por tua entrega diária à política como serviço. À República como sonho compartilhado. E à democracia como pacto de amor coletivo. Você é um patrimônio da vida pública brasileira. Um exemplo que atravessa gerações. Uma chama acesa que nos lembra que a política pode, sim, ser decente, generosa e luminosa.
* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.





