Há cidades que passam séculos tentando construir uma identidade. Itu ganhou a sua num programa de humor, quando um comediante resolveu falar da terra natal como se cada mandioca tivesse o tamanho da ambição de um político carioca. Mas o Brasil achou graça na piada. E assim com admirável senso de oportunidade, Itu percebeu que talvez o melhor a fazer era rir também. 

Assim nasceu todo um comércio dedicado a vender lápis, borrachas e chaveiros em tamanho ampliado, tudo fruto de uma piada de televisão dos anos 1960 que nunca mais parou de crescer. E com o tempo foi ganhando versões mais ou menos apimentadas. 

E aqui mora toda a graça dessa história. Em um Brasil obcecado por reputação, onde cidades brigam por qualificações grandiosas (“capital nacional disto”, “terra do maior aquilo”), Itu conseguiu o efeito contrário. Assumiu o exagero como identidade, riu de si mesma antes que rissem dela, e transformou a caricatura em atração paga. Poucos municípios administram tão bem o próprio folclore. 

Qual é a história de Itu? 

Tudo começou em 1610, quando o bandeirante Domingos Fernandes e seu genro, Cristóvão Diniz, ergueram uma capela dedicada à Nossa Senhora da Candelária no local então conhecido como Utu-Guaçu. termo tupi para “cachoeira grande”, que autoriza todas as piadas de quinta série que você vai lembrar a partir de agora.  

Segundo registros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Arquivo Histórico Municipal, o povoado cresceu rapidamente no século XVIII impulsionado pelo cultivo do café e da cana-de-açúcar, tornando-se uma das vilas mais ricas de São Paulo. 

Mas Itu também tem uma dimensão política maior que muitas de suas quinquilharias para os turistas. Em 1873, a cidade foi a sede da Convenção Republicana de Itu, considerada a primeira convenção republicana do país, episódio que lhe rendeu o título de “Berço da República”. #vocesabia? 

Interior do Museu Republicano (Crédito: Reprodução)

Quando começou essa brincadeira de que tudo era grande em Itu? 

A origem tem nome, sobrenome e nome artístico: Francisco Flaviano de Almeida, o Simplício, nascido em Itu em 1916. No início dos anos 1960, ele interpretava no uberclassico programa “Praça da Alegria”, da extinta TV Tupi, um caipira que chegava à capital e insistia em exaltar as grandezas de sua terra diante da modernidade urbana, encarnando um personagem que, para não “ficar por baixo” da cidade grande, dizia que na sua terra tudo era maior ainda, em escalas gigantescas. Lá, as melancias eram do tamanho de prédio e os pernilongos pareciam aviões. 

Mas o quadro sé pegou pra valer quando o personagem finalmente revelou o nome do município, e as plateias passaram a associar o exagero diretamente a Itu. O tom ingênuo e ufanista do personagem conquistou o público brasileiro, e a piada local transbordou dos estúdios para o país inteiro. 

Como assim?  

Pessoas começaram a enviar “de Itu” legumes de tamanho excepcional para que pudessem aparecer na televisão. A cidade, que inicialmente era apenas o cenário verbal da fantasia de Simplício, começou a ser procurada por turistas interessados em descobrir se aquele lugar realmente tinha alguma coisa de extraordinário. 

Décadas depois, Simplício segue sendo lembrado como uma das figuras centrais da história do humor televisivo brasileiro, tendo integrado o elenco de programas de humor popular como “A Praça É Nossa” desde os anos 1950 até 2004. 

Boneco em homenagem a Francisco Flaviano de Almeida, o Simplício, na Praça dos Exageros (Crédito: Reprodução)

Como isso se popularizou em produtos vendidos até hoje Brasil afora? 

A fama criou demanda. Turistas chegavam procurando os objetos gigantes e comerciantes perceberam que não era preciso esperar que a natureza produzisse uma mandioca colossal. Bastava fabricar um lápis enorme. 

Em 1973, rolou uma ajudinha do poder público, quando o então ministro das Comunicações Higino Corsettti cedeu à cidade um orelhão de sete metros de altura, instalado na Praça da Matriz. Na cerimônia de instalação, o ministro encerrou seu discurso com a frase “O Brasil é grande, mas eu sei que Itu é maior”. 

A partir do orelhão nasceu um comércio próprio, especializado em réplicas ampliadas de objetos do cotidiano, sendo o item mais vendido entre os turistas o já famosíssimo Lápis de Itu. Mas há também borrachas, canetas, martelos, prendedores, chapéus, óculos, chupetas e outros itens não permitidos nesse horário. Esses produtos invadiram feiras de artesanato e lojas por todo o Brasil, fixando Itu no imaginário popular como a metrópole dos objetos desmesurados. 

O famoso orelhão gigante (Crédito: Reprodução)

O que mais tem de grande em Itu? 

O orelhão segue de pé, literalmente: mesmo com a ANATEL encerrando concessões de telefonia fixa e desativando cerca de 38 mil terminais pelo país, a estrutura de sete metros na praça da matriz de Itu resiste como relíquia urbana e patrimônio cultural, tendo, inclusive, sofrido pequenos acidentes de manutenção ao longo dos anos, como a queda de uma peça de cerca de cinco metros de altura registrada em 2022.  

Ao lado dele, o sinal de trânsito gigante, também operacional, e a chamada Praça dos Exageros reúnem outras peças em escala ampliada, incluindo o que é anunciado como o maior bilhete de trem do Brasil, alusivo ao passeio ferroviário Trem Republicano até a cidade vizinha de Salto, atração que também recupera a história da Convenção de Itu e da Proclamação da República durante o trajeto. 

Na Praça dos Exageros costumam ser realizados festivais gastronômicos com comidas em tamanho gigante, de fazer uma batata frita de Marechal se sentir uma porção pequena do Bob´s. 

Como essa piada de que em Itu é tudo grande tem enfrentado esses tempos de discussões sobre os limites humor? 

A piada de Itu escapa quase ilesa dessa discussão por um motivo simples: não ridiculariza uma minoria, satiriza um lugar, e o próprio lugar comprou a ideia, lucra com ela e a exibe com orgulho em placas turísticas oficiais. 

 Não há registro de controvérsia relevante envolvendo o folclore ituano nos debates recentes sobre humor e cancelamento. Em tempos de sensibilidade redobrada com estereótipos regionais, a cidade sobrevive porque o alvo da gozação é ela mesma, e o caipira de Simplício sempre venceu a discussão contando vantagem, nunca fazendo pouco de ninguém. 

O que mais tem para fazer em Itu? 

A Praça da Matriz reúne a belíssima Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária (século XVIII) e o famoso Orelhão. Ali perto, o Museu Republicano “Convenção de Itu” ocupa o sobradão colonial onde ocorreu a Convenção de Itu em 1873. O acervo pertence à USP e conta detalhes cruciais da transição do Império para a República no Brasil.  

Há também um Museu da Energia, instalado num sobrado histórico de 1847 que mostra a evolução da iluminação, da eletricidade e dos eletrodomésticos no Brasil; o FAMA Museu (Fábrica de Arte Marcos Amaro), o antigo complexo industrial da Fábrica São Pedro hoje transformado em um dos maiores museus de arte contemporânea da América Latina. E, óbvio, mais um colosso. No mesmo local funciona o Ateliê do Kobra, onde o famoso muralista desenvolve seus trabalhos.  

Ateliê do Kobra em Itu (Crédito: Reprodução)

Como chegar? 

Itu está a aproximadamente 90 a 100 quilômetros da capital paulista, e a viagem costuma levar cerca de 1h10 a 1h30. Em estimativa de custos de combustível e pedágio, o trajeto pode ficar aproximadamente na faixa de R$ 50 a R$ 80 por trecho, variando conforme o veículo, o consumo e a rota escolhida.  

Do Rio até Itu são aproximadamente 525 quilômetros por estrada, com tempo estimado de cerca de 5h45 a 6h30, sem considerar paradas e eventuais congestionamentos. É uma viagem consideravelmente mais longa, mas perfeitamente possível para quem pretende fazer um fim de semana prolongado. O único problema é que, depois de cinco horas de estrada, o visitante talvez chegue a Itu com a sensação de que pelo menos o percurso poderia ser menor. 

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