Íris Lettieri: a voz da cidade e da memória

Com coragem e talento, inaugurou um novo tempo, abrindo espaço para a presença feminina em um lugar reservado aos homens

Íris Lettieri foi mais que uma locutora, mais que uma jornalista, mais que uma profissional da voz. Foi um símbolo, uma síntese da cidade do Rio de Janeiro, uma presença que se tornou memória coletiva de milhões de brasileiros e brasileiras. Sua vida pública e profissional atravessou mais de meio século, marcada por pioneirismo, ousadia, disciplina, elegância e, sobretudo, pela capacidade de transformar sua voz em patrimônio imaterial de uma cidade, de um país, de uma época.

Ao contar sua história, não se fala apenas de uma carreira individual, mas de um testemunho sobre o Rio e sobre o Brasil, sobre a modernidade e a tradição, sobre a festa e o rigor, sobre o cotidiano e a eternidade.

Nascida carioca, filha da cidade e de sua energia contraditória, Íris começou a trilhar seu caminho no rádio ainda no final dos anos 1950. O rádio, naquela época, era o coração pulsante da comunicação. Era o veículo que reunia famílias em torno de notícias e novelas, era a caixa mágica que dava voz a artistas e a políticos, era o espaço de sedução da palavra.

Nesse ambiente, Íris aprendeu a modular o som, a respirar com precisão, a articular cada sílaba como se fosse uma joia polida. Sua voz cresceu no rádio até transbordar para a televisão, então nascente, onde se transformaria em um marco.

Na década de 1960, a televisão se consolidava como grande mediadora da vida pública. Íris entrou em cena e quebrou paradigmas: foi a primeira mulher a assumir a locução de telejornais no Brasil. Até então, a figura do locutor era masculina, austera, uma voz grave que ditava o tom da seriedade. Íris quebrou esse monopólio.

Com coragem e talento, inaugurou um novo tempo, abrindo espaço para a presença feminina em um lugar reservado aos homens. Esse gesto, aparentemente simples, de sentar-se diante das câmeras e dar notícias com voz clara e firme, foi também um gesto político. Representou o avanço de uma luta de gênero, um corte na ordem conservadora, uma conquista simbólica que inspiraria outras mulheres a ocupar espaços públicos. Foi a inscrição da voz feminina na formação da opinião nacional, um marco histórico que uniu jornalismo e emancipação.

Íris Lettieri construiu sua trajetória na TV Continental, depois na TV Tupi e, mais tarde, na Rede Manchete. Foi na Manchete que ganhou projeção definitiva, especialmente no Jornal da Manchete, desde 1983, e no Manchete Panorama, em 1984. A emissora, que apostava na inovação estética, encontrou nela a intérprete perfeita.

Sua presença na tela transmitia seriedade e elegância, e sua voz, já então inconfundível, dava credibilidade à informação. Para a memória televisiva brasileira, a imagem de Íris é inseparável da Manchete, daquela tentativa ousada de criar um jornalismo sofisticado, de qualidade e estilo. Ela foi a face e a voz de uma televisão que queria ser mais do que notícia, queria ser símbolo cultural de um país.

Sua imagem séria, de jornalista respeitável, não a impediu de aceitar desafios de ousadia. Em 1984, protagonizou a histórica campanha da Lubrax, veiculada diariamente na contagem regressiva para o Carnaval. Os comerciais, exibidos logo após o Jornal da Manchete, mostravam Íris em pequenas encenações. Dia após dia, ela retirava acessórios e roupas, entre eles a blusa, simulando um strip-tease em tom brincalhão e sofisticado.

No penúltimo dia, apareceu parcialmente oculta atrás do espaldar de uma cadeira, sugerindo nudez. No dia do desfile, porém, a surpresa: surgiu vestida com fantasia carnavalesca, anunciando que não faltava mais nenhum dia para a festa. Ela própria relatou com humor essa experiência no programa Jô Soares Onze e Meia em 1997, dizendo que foi uma das campanhas mais ousadas e divertidas de sua vida.

Essa sequência entrou para a história da televisão brasileira, tanto pelo ineditismo quanto pela forma como uniu jornalismo, publicidade e carnaval, seriedade e riso, ousadia e elegância.

A relação de Íris com o Carnaval não parou aí. Em 1994, sua voz abriu o desfile da escola de samba Tradição, no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. O enredo “Passarinho, Passarola, Quero Ver Voar” começou com seu grito de guerra, que antecedeu o samba na Avenida.

Não foi registrada como destaque de luxo ou de carro alegórico, mas sua presença vocal deu solenidade e encantamento ao desfile. Era a cidade mais uma vez reconhecendo nela uma síntese: a voz do aeroporto, a voz do jornalismo, a voz do Carnaval. Um fio invisível ligava os universos da vida carioca, e em todos eles estava presente a marca de Íris Lettieri.

Foi em 1976 que sua trajetória alcançou outro patamar de permanência: ao ser contratada pela Infraero, tornou-se a voz oficial do Aeroporto Internacional do Galeão. Quem passava pelo terminal, seja a caminho de um destino doméstico ou internacional, ouvia suas chamadas precisas e cordiais. E não apenas no Galeão: Íris tornou-se a voz dos principais aeroportos do Brasil, entre eles Guarulhos e Congonhas em São Paulo, Santos Dumont no centro do Rio, Manaus e Foz do Iguaçu. A experiência de viajar tornou-se inseparável de sua voz. Para milhões de passageiros e passageiras, embarcar era também ouvir Íris Lettieri, uma voz que orientava, acalmava, informava e acolhia. A cidade e o país falavam por meio dela.

Essa presença se renovou em 2014, quando foi convidada a ser a voz oficial do BRT do Rio de Janeiro. No transporte público que liga zonas distantes da metrópole, sua voz se tornou parte do cotidiano de trabalhadores, estudantes, mães com crianças no colo, jovens apressados, turistas. Ao anunciar cada estação, ao pontuar os trajetos, Íris tornava-se parte do tecido da cidade em movimento. O BRT ganhava personalidade com sua presença vocal, e a cidade se reconhecia nela. Era como se o Rio inteiro fosse conduzido pela mesma voz que por décadas orientou passageiros em aeroportos.

Sua trajetória ainda alcançou o insólito da cultura pop internacional. Uma gravação sua com anúncios de aeroporto foi utilizada pela banda norte-americana Faith No More na faixa “Crack Hitler” do disco Angel Dust. O caso gerou disputa judicial, mas transformou sua voz em ícone global, uma presença inesperada no cenário do rock internacional. Mais uma vez, Íris ultrapassava fronteiras, mostrando que sua marca era universal.

Os reconhecimentos institucionais vieram naturalmente. Em 1995, foi eleita Personalidade Aeroportuária pela Infraero, celebrando sua ligação com os viajantes e com a experiência de voar. Em 1996, recebeu a Medalha Pedro Ernesto da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, a maior honraria da cidade. Eram premiações que confirmavam aquilo que já era sabido pela população: Íris Lettieri fazia parte da história cultural e social do Rio.

Ao narrar sua trajetória, é impossível separar sua biografia da própria biografia da cidade. Íris foi pioneira no rádio e na televisão, foi voz de aeroportos e do transporte público, foi figura de ousadia na publicidade e presença marcante no carnaval. Conjugou o rigor jornalístico com a leveza da festa, a disciplina profissional com a sedução da voz, a seriedade informativa com a irreverência carioca. Sua vida é a expressão do Rio em sua pluralidade, em sua mistura de contradições e encantos.

Íris Lettieri faleceu em 28 de agosto de 2025, vítima de um infarto fulminante, aos 84 anos. A notícia se espalhou com pesar, mas também com gratidão. Não era apenas o fim de uma vida, era a despedida de uma presença simbólica. Sua voz, contudo, não se calou. Permanece viva nas memórias sonoras de todos aqueles que um dia passaram por um aeroporto, embarcaram no BRT, ouviram um telejornal da Manchete ou assistiram à contagem regressiva da Lubrax. É uma voz que não se apaga porque se inscreveu na memória coletiva, porque se tornou paisagem da cidade, porque virou trilha sonora da vida cotidiana.

Íris Lettieri é lembrada como jornalista pioneira, como locutora de rádio e televisão, como a voz do Galeão e do Santos Dumont, como a voz do BRT, como presença ousada na publicidade, como figura do carnaval. Mas, acima de tudo, Íris Lettieri é lembrada como a voz de uma cidade inteira. Sua vida foi intensa, foi pública, foi profissional, mas foi também profundamente cultural, enraizada na identidade de um Rio que canta, samba, trabalha e viaja.

É nesse lugar que repousa sua grandeza. Íris Lettieri é saudade boa, é memória de passageiros e passageiras, é lembrança de frequentadores de aeroportos e de usuários do BRT, é símbolo de uma carioca que sintetiza a cidade. E ao lembrar de sua vida, o que ecoa não é apenas a ausência, mas a permanência. Porque ainda se ouve, nos corredores imaginários da cidade e do país, aquela voz que com serenidade dizia que era chegada a hora, que não faltava mais nenhum dia.

*Paulo Baía é socíologo, cientista político e professor da UFRJ

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