‘Imposto do pecado’: Brasil pode evitar até 236 mil mortes em 20 anos se taxar ultraprocessados, diz estudo

Pesquisa projeta que aumento de 50% no preço desses alimentos reduziria obesidade, doenças crônicas e bilhões em gastos públicos

O Brasil pode chegar a 2044 com três em cada quatro adultos acima do peso. A projeção, longe de ser um alerta isolado, reflete uma tendência consolidada nas últimas décadas. Foi a partir desse cenário que pesquisadores brasileiros decidiram simular o impacto de uma política fiscal mais rigorosa sobre alimentos ultraprocessados.

Segundo reportagem do portal g1 sobre a pesquisa, o resultado da modelagem indica que um aumento de 50% no preço desses produtos poderia evitar cerca de 1,8 milhão de novos casos de doenças crônicas e até 236 mil mortes ao longo de 20 anos.

O estudo foi publicado na American Journal of Preventive Medicine e analisou diferentes cenários de tributação entre 2024 e 2044. Atualmente, 57% dos adultos brasileiros vivem com sobrepeso. Mantida a trajetória atual, esse índice pode alcançar 75% em duas décadas. No cenário com maior taxação, a prevalência cairia para 50%.

A redução projetada no peso médio da população teria impacto direto sobre enfermidades associadas ao excesso de peso, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, doença renal crônica e alguns tipos de câncer ligados ao índice de massa corporal elevado.

Como a pesquisa foi feita

O estudo utilizou modelagem matemática com base em dados nacionais de consumo alimentar e saúde da população. O ponto central da análise é a chamada elasticidade-preço, que mede o quanto o consumo tende a cair quando o valor de um produto sobe.

A partir da estimativa de redução no consumo, o modelo projetou os efeitos graduais sobre o peso corporal e, posteriormente, sobre a incidência de doenças crônicas ao longo do tempo. A análise considerou exclusivamente enfermidades mediadas pelo excesso de peso, sem incluir possíveis impactos diretos dos ultraprocessados independentes do índice de massa corporal.

Para Eduardo Nilson, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Brasília e do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens/USP), que liderou o estudo, a escolha metodológica foi conservadora.

“Trabalhamos buscando subestimativas. Estamos falando só de doenças mediadas pelo excesso de peso. O impacto real pode ser maior.”

O debate sobre o Imposto Seletivo

A discussão ganha peso em meio à aprovação do chamado Imposto Seletivo, que entrará em vigor a partir de 2027. A medida prevê taxação sobre produtos fumígenos, bebidas alcoólicas e bebidas açucaradas.

Os ultraprocessados, como categoria ampla, ficaram fora do texto final aprovado. Durante a tramitação da reforma tributária, houve propostas para incluir alimentos industrializados como biscoitos recheados, salgadinhos, embutidos e macarrão instantâneo, mas a iniciativa não avançou no Congresso.

Nilson avalia que a inclusão das bebidas açucaradas representa um avanço, mas sustenta que o impacto seria maior caso a base de incidência fosse ampliada.

“O Brasil está discutindo as alíquotas. Quanto maior o aumento de preço, maiores são os impactos projetados.”

Ele afirma ainda que houve forte resistência política à ampliação da medida.

“Houve uma força de lobby atuando tanto no Executivo quanto no Legislativo para restringir o imposto e excluir os ultraprocessados. Em determinado momento, até as bebidas açucaradas quase ficaram de fora.”

O que são ultraprocessados

Os ultraprocessados são formulações industriais produzidas majoritariamente a partir de substâncias extraídas de alimentos ou sintetizadas em laboratório, combinadas com aditivos como aromatizantes, emulsificantes e estabilizantes. A definição segue a classificação NOVA, desenvolvida por pesquisadores brasileiros.

No Brasil, cerca de 20% das calorias consumidas já vêm desse grupo de produtos. Entre crianças e adolescentes, a participação é ainda maior. O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos recomenda que esses alimentos não sejam oferecidos até essa idade. Ainda assim, pesquisas indicam exposição precoce, inclusive antes dos seis meses de vida.

“Há crianças consumindo ultraprocessados antes mesmo de completar um ano, quando a recomendação é evitar até os dois. Essa exposição precoce antecipa o risco de obesidade, hipertensão e diabetes”, afirma Nilson.

A literatura científica aponta associação consistente entre maior consumo de ultraprocessados e aumento do risco de doenças crônicas, em parte pelo efeito cumulativo no ganho de peso ao longo do tempo.

Impacto nas contas públicas

Além da redução de mortes e novos casos de enfermidades, o estudo sugere que a medida teria repercussão significativa sobre os gastos em saúde. Embora o artigo não detalhe os cálculos econômicos, Nilson afirma que as estimativas indicam economia potencial de bilhões de reais ao longo das duas décadas analisadas.

“Estamos falando de doenças crônicas que exigem tratamento contínuo, internações e medicamentos de alto custo. A redução desses casos inevitavelmente se traduz em economia significativa para o sistema de saúde.”

Mantida a tendência atual, o país pode acumular mais de 10 milhões de novos casos de doenças crônicas atribuíveis ao excesso de peso nas próximas duas décadas, além de mais de 1 milhão de mortes associadas.

Para o pesquisador, a tributação deve integrar um conjunto mais amplo de políticas públicas, que inclua estímulos ao consumo de alimentos in natura e medidas para tornar escolhas saudáveis mais acessíveis.

“Produtos e serviços que causam dano à saúde precisam pagar.”

O debate sobre a tributação de ultraprocessados, portanto, ultrapassa a esfera fiscal e se insere na discussão sobre o modelo de ambiente alimentar que o país deseja construir e o custo humano e econômico de manter a trajetória atual.

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