O Brasil é pentacampeão mundial de futebol, espalhou a Bossa Nova pelo mundo, teve três campeões de Fórmula 1, ganhou um Oscar e, veja só, também decidiu brincar de corrida espacial. Porque, afinal, se até o Elon Musk lança foguete na praia, por que o país não poderia também pisar nos astros, distraído?
Mas como toda boa história tropical, a saga da astronáutica brasileira tem mais reviravoltas do que uma novela das nove: começamos com foguetes de sondagem em plena Ditadura, nos empolgamos com satélites próprios, rompemos com russos, decepcionamos norte-americanos, construímos uma base em Alcântara que ainda espera por decolagens realmente relevantes e até conseguimos colocar um brasileiro no espaço, de carona no rolê mas, diferente da turma com quem anda, ele pôde confirmar que a Terra é mesmo redonda.
Hoje, enquanto China e Índia já mandam robôs para a Lua, o Brasil ainda debate o custo do botijão de gás, mas não abandonou completamente seus sonhos celestes. Só que, entre as promessas dos governos e a realidade orçamentária, o espaço, para nós, continua mais como um ideal poético do que um destino concreto.

Começando a contagem regressiva
O programa espacial brasileiro começou oficialmente em 1961, ainda no governo de Jânio Quadros, com a criação do Grupo de Organização da Comissão Nacional de Atividades Espaciais (GOCNAE), uma sopa de letrinhas mais conhecida por quem ama siglas do que por quem entende de foguetes. Esse embrião do que viria a ser o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) nasceu com intenções sérias: monitoramento do clima, desenvolvimento de tecnologia nacional e, quem sabe, uma pontinha de orgulho patriótico em plena Guerra Fria.
Mas na prática, a coisa demorou a decolar pra valer. As décadas de 1970 e 1980 foram dedicados a foguetes suborbitais (aqueles que sobem, dão uma piscadela pro espaço e caem de volta), enquanto a base de Alcântara, no Maranhão, se arrastava com problemas fundiários, políticos e financeiros. Ainda assim, o Brasil lançou seus primeiros satélites em parceria com a China nos anos 2000.
O mico do programa na Estação Espacial Internacional
Em 1997, o Brasil assinou com pompa e circunstância sua entrada no seleto clube dos países participantes da International Space Station (ISS), a famosa estação espacial internacional. O acordo previa que o Brasil construiria seis equipamentos para o módulo americano da estação. Em troca, receberíamos transferência de tecnologia e uma vaga cativa no playground orbital mais caro da história.
Mas nada foi entregue. Dos seis equipamentos prometidos, nenhum saiu do papel. Em 2007, cansada de esperar, a Nasa rompeu o acordo unilateralmente, nos retirando do consórcio espacial sem nenhuma cerimônia. O Brasil saiu da ISS como aquele amigo que promete trazer gelo paro churrasco e aparece só no fim da tarde, perguntando se ainda tem picanha.
Quais compromissos o Brasil descumpriu?
Além dos equipamentos para a ISS que nunca chegaram, o Brasil também descumpriu obrigações de desenvolvimento de sistemas embarcados e módulos estruturais, além de atrasar pagamentos e relatórios técnicos. O descaso não foi só tecnológico, foi diplomático. A falta de comprometimento queimou o filme da Agência Espacial Brasileira (AEB), que passou a ser vista como parceira menos confiável do que alguns times de futebol, que contratam jogadores e depois dão o beiço.
Como resultado, perdemos o acesso a missões conjuntas, vagas para astronautas em treinamentos futuros e, o pior de tudo, credibilidade no setor. Em um universo onde tudo se move na precisão de milissegundos, o jeitinho brasileiro definitivamente não acoplou em lugar nenhum.
Como Marcos Pontes foi escolhido o primeiro astronauta brasileiro?
A escolha do hoje senador Marcos Pontes para ser o primeiro astronauta brasileiro seguiu um processo rigoroso, técnico e absolutamente inédito, porém com uma pitada de patriotismo rocambolesco. Em 1998, a Nasa abriu uma vaga para formar astronautas internacionais, e o governo brasileiro resolveu se inscrever um tanto na base do: “não custa tentar”.
Pontes, então major da Força Aérea e engenheiro formado pelo ITA, foi o escolhido não só por seu currículo impecável, mas também por preencher todos os pré-requisitos: fluente em inglês, com histórico militar, saúde de ferro e, sobretudo, uma intimidade interestelar de aguentar burocracias. Após anos de treino nos Estados Unidos, ele estava pronto para decolar. Só faltava um pequeno detalhe: o Brasil cumprir sua parte no acordo com a Nasa.
Quem o levou até a estação?
No fim das contas, quem realmente pôs Marcos Pontes em órbita foi a Rússia, com seu velho e confiável foguete Soyuz, que nos anos 2000 virou uma espécie de Uber espacial para nações que não possuíam recursos próprios. O Brasil, atrasado com suas obrigações no programa da Estação Espacial Internacional, teve que pagar uma passagem avulsa que custou cerca de US$ 10 milhões por um assento na nave russa.
Assim, o primeiro brasileiro no espaço embarcou em 2006 graças à boa vontade do Kremlin e ao orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia, numa mistura de diplomacia, cheque internacional e jeitinho geopolítico. Não era exatamente a missão espacial dos nossos sonhos, mas foi o suficiente para garantir manchetes patrióticas e camisetas da missão vendidas em feiras de ciências.
O que Marcos Pontes fez na estação?
Pontes participou da chamada “Expedição 13”, que decolou do cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, a bordo da nave russa Soyuz-TMA 8 em 29 de março de 2006. Havia tanto oba-oba que, no Brasil, a empreitada foi chamada de “Missão Centenário “, em referência ao voo do 14-Bis de Santos Dumont.
Durante seus oito dias na ISS, Pontes realizou alguns experimentos científicos. Os temas iam de germinação de sementes à cromatografia da clorofila. Ele também gravou vídeos educativos e fez transmissões ao vivo, com aquele toque motivacional de quem sabe que está virando figura de livro didático.
Pontes não pilotou nada, não apertou um só parafuso e nem enfrentou marcianos, mas cumpriu com competência seu papel de símbolo nacional. Mas o estrago internacional já estava consumado.
Barrado na foto oficial
No mundo da diplomacia espacial, até quem aparece na foto oficial é questão de protocolo. Embora Pontes tenha tirado dezenas de fotografias com seus colegas de viagem no cosmódromo de Baikonor, ele não apareceu na tradicional “foto oficial da tripulação”, aquela em que os astronautas posam juntinhos, com seus uniformes impecáveis e bandeirinhas no peito, sorrindo como quem está indo para uma colônia de férias cósmica. No retrato da missão da Soyuz TMA-8, aparecem apenas o cosmonauta russo Pavel Vinogradov e o astronauta norte-americano Jeffrey Williams.
O motivo? Como Pontes era um “passageiro comercial” ou, em termos menos elegantes, um “turista espacial patrocinado pelo governo brasileiro”. Ele não fazia parte da tripulação permanente da missão, e sim de uma estadia curta chamada de “missão visitante”. Seu voo durou cerca de 10 dias, enquanto os demais tripulantes permaneceriam na estação por meses. Nada pessoal, só burocracia orbital. Mas a ausência soou como um leve puxão de gravidade no ego nacional.
Quais as perspectivas do programa espacial brasileiro?
Apesar dos tropeços, o Brasil não desistiu do espaço. Em 2001 o satélite Amazônia-1, foi lançado com sucesso pelo Inpe da Base de Alcântara, no Maranhão, que fica próxima à linha do Equador — uma ótima posição para lançamentos. Há também investimentos no desenvolvimento do Veículo Lançador de Microssatélites (VLM), em parceria com a Alemanha, e outro com a Argentina para o lançamento do Satélite Argentino-Brasileiro de Informação Ambientais Marinhas (Sabia-Mar). Mas no Brasil tudo parece que ainda é construção, mas já é ruína.
A base explodiu em 2003, matando mais de 20 engenheiros. Seis anos depois um brigadeiro e um ministro tiveram que ser contidos antes que saíssem no braço durante uma reunião que discutira o futuro da instalação. Em 2019 a Câmara dos Deputados aprovou um controverso acordo com os Estados Unidos permitindo o uso da área para pesquisa científica e lançamento de foguetes, espaçonaves e satélites. E em 2024 foi finalmente encerrado uma querela de 40 anos com quilombolas que habitavam a região.

Hoje, até Elon Musk tem interesse em lançar foguetes de lá. Os especialistas acreditam que o futuro do programa espacial brasileiro ainda é promissor. Mas a cada governo que entra projetos são replanejados, cortados, remendados e o Brasil continua na mesma: olhando para o céu, tropeçando em cabos e apenas sonhando alto. Literalmente.


Deixe um comentário