Governo federal muda fonte de repasse e garante R$ 12 milhões às escolas de samba do Rio para 2026

Aporte federal ao Grupo Especial do carnaval do Rio será feito por cooperação entre Cultura e Embratur e coincide com desfile que homenageia Lula

O governo federal alterou a fonte pagadora do repasse destinado às escolas de samba do Rio de Janeiro para o Carnaval de 2026, informa a Folha de S. Paulo. Um termo de cooperação técnica assinado na última semana pelo Ministério da Cultura e pela Embratur prevê a liberação de R$ 12 milhões às 12 agremiações do Grupo Especial, o equivalente a R$ 1 milhão para cada escola.

O contrato foi firmado no dia 19 pelo secretário-executivo do Ministério da Cultura, Cassius Rosa, e pelo presidente da Embratur, Marcelo Freixo (PT). O novo formato substitui o modelo adotado no ano passado, quando os recursos tiveram como origem o Ministério do Turismo.

Mudança no modelo de repasse

Segundo o governo federal, em 2025 o mesmo valor foi transferido às escolas a partir de articulação entre o então ministro do Turismo, Celso Sabino (PP), e o presidente da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), Gabriel David. Na ocasião, o repasse ocorreu por meio de um acordo de cooperação técnica com o Sesc e teve divulgação mais discreta.

Para 2026, a decisão de centralizar o aporte no Ministério da Cultura, em parceria com a Embratur, busca associar o Carnaval à promoção cultural e turística do país, reforçando o papel do evento como vitrine internacional do Brasil.

Acadêmicos de Niterói e o enredo sobre Lula

Entre as escolas beneficiadas está a Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial. A agremiação levará para a Marquês de Sapucaí um enredo que homenageia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com foco em sua infância em Pernambuco e na trajetória que o levou de líder operário à Presidência da República.

Fundada há apenas quatro anos, a escola receberá subvenções de diferentes esferas do poder público. Além do repasse federal, contará com recursos do governo do estado do Rio de Janeiro e das prefeituras do Rio e de Niterói.

O prefeito de Niterói, Rodrigo Neves (PDT), empenhou R$ 4,4 milhões para a escola no Carnaval de 2026. A Unidos do Viradouro, outra agremiação da cidade, também será contemplada com subvenção municipal.

Repasses do governo estadual e da prefeitura do Rio somam cerca de R$ 2,5 milhões para cada escola do Grupo Especial.

Aportes municipais e debate sobre equilíbrio

No Grupo de Acesso, a União de Maricá recebeu R$ 8 milhões da prefeitura comandada por Washington Quaquá (PT). O volume expressivo de recursos públicos reacendeu, nos bastidores do samba, o debate sobre a criação de um teto de gastos para evitar desequilíbrios na competição.

No ano passado, dirigentes de escolas e representantes de prefeituras chegaram a discutir limites para os aportes, sobretudo os municipais, diante da diferença de capacidade financeira entre cidades.

É comum que escolas localizadas fora da capital recebam recursos de mais de uma prefeitura. Além disso, as agremiações também contam com patrocínios privados e públicos, especialmente quando os enredos homenageiam cidades, estados ou personagens ligados ao poder público.

Homenagem inédita a presidente em exercício

O desfile da Acadêmicos de Niterói marcará a primeira vez, desde o governo Getúlio Vargas, que uma grande escola de samba do Rio homenageia um presidente da República em exercício. O enredo dialoga com a década de 1950, quando escolas como Vila Isabel e Portela celebraram a volta de Vargas ao poder.

A diferença, segundo especialistas e dirigentes do Carnaval, é que naquele período os desfiles eram tutelados por órgãos do governo federal, com algum grau de interferência nos temas apresentados. Já a escolha do enredo da Niterói, de acordo com dirigentes da escola, partiu da vontade de construir identificação com brasileiros beneficiados por políticas sociais.

Visitas e bastidores do enredo

A primeira-dama Janja e integrantes do PT visitaram o barracão da Acadêmicos de Niterói em setembro. No mesmo mês, dirigentes e compositores da escola estiveram em Brasília para se encontrar com Lula.

O compositor Paulo César Feital, que assina o samba-enredo ao lado de nomes como Teresa Cristina e Arlindinho, relata que o presidente se emocionou ao ouvir a gravação.

“Entrou em prantos. Ouviu e aprovou plenamente o samba. Não fizemos pensando em campanha eleitoral, pensamos na vida do Lula, no aspecto de um político contemporâneo. Ele se emocionou muito porque nós capturamos exatamente o que foi o início da vida do Lula e da luta de sua mãe”, diz Feital.

Militante de esquerda desde a década de 1970 e próximo ao grupo que deu origem ao MR-8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro), Feital já compôs sambas para escolas como Mocidade, Mangueira e Viradouro.

“Eu nunca tive tanto pedido de gente para poder sair na escola. Eu acho que o efeito, ainda mais no ano de eleição, é totalmente positivo. Esse samba na avenida vai agradar a todo mundo. Menos, claro, a extrema direita. Foi uma escolha inteligente e pontual da Niterói.”

Cuidados jurídicos e interesse do público

Para evitar riscos de caracterização de propaganda eleitoral antecipada, a escola recorreu a advogados ainda no ano passado durante a construção do enredo. A letra do samba faz menção a temas atuais, como o tarifaço imposto por Donald Trump e a discussão sobre anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, mas não cita diretamente as eleições.

A procura por fantasias e vagas nas alas cresceu rapidamente. As inscrições já foram encerradas, e algumas alas acumulam fila de espera com mais de uma centena de interessados.

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