Um novo golpe vem assustando moradores do Rio. Ele começa com uma ligação aparentemente banal: uma pessoa informa que um exame médico recente apresentou alteração e que será necessário apresentá-lo o mais rápido possível. O detalhe que torna tudo mais convincente — e perigoso — é que os bandidos parecem saber exatamente quais procedimentos a vítima realizou, acessando dados que deveriam estar sob absoluto sigilo. A promessa de entregar o documento na casa da vítima, mediante uma pequena taxa, abre a porta para uma fraude que mistura tecnologia, logística e a exploração do medo pela saúde.

Apelidado pelas autoridades de ‘Golpe do falso exame’, esse esquema criminoso vem lesando milhares de vítimas que moram em bairros nobres da cidade, como Barra da Tijuca, na Zona Oeste, e outros na Zona Sul.

O grande trunfo dos golpistas é a informação — eles não ligam com frases genéricas, mas citam exames que a vítima de fato fez há poucos dias. Para muitos, sobretudo idosos, isso basta para acreditar que estão falando com alguém do laboratório, clínica ou hospital.

“Com certeza eles têm acesso a pessoas que realizam exames médicos, de maneira geral, esses dados trafegam na rede, seja interna ou externa, desses estabelecimentos. Acreditamos que algum hacker consegue essas informações e as vende em grupos na internet. A partir do momento que eles têm acesso a essas informações, utilizam ferramentas de Inteligência Artificial para fazer contato com as vítimas”, detalha o delegado Neilson Nogueira, titular da 16ª DP (Barra da Tijuca), ao Agenda do Poder.

Depois da ligação, entra em cena a parte “física” do golpe: a vítima é convencida a aceitar a entrega do exame em casa, pelo valor de uma taxa que varia entre R$ 4 a R$ 10. Um motoboy chega ao condomínio com envelopes lacrados e uma maquininha de cartão. A cobrança inicial parece pequena, mas no momento da transação surgem valores muito mais altos. Os criminosos alegam que houve falha na operação e passam o cartão diversas vezes, drenando rapidamente a conta da vítima.

Delegado Neilson Nogueira, titular da 16ª DP (Barra da Tijuca) | Reprodução

“Quando o motoboy chega na porta da pessoa, ele afirma que só pode receber através de cartão. E quando a pessoa apresenta o cartão, ele coloca um valor maior, a pessoa digita a senha, ele afirma que a operação não foi validada e pede para digitar a senha de novo. Muitas vezes, o golpista troca a máquina, porque se passar valores próximos no mesmo aparelho, o cartão costuma bloquear”, explica Nogueira, acrescentando que, quando conseguem um valor alto, alegam que a máquina está com problemas e retornarão mais tarde para trazer o laudo: “E, quando a pessoa se dá conta, ela já teve quatro, cinco operações realizadas com o cartão dela”.

Um esquema com logística própria

A Polícia Civil identificou que o golpe não é improvisado. Havia um apartamento usado como base, onde foram encontradas 40 maquininhas de cartão, motocicletas, roupas específicas para as abordagens e até cartões bancários de vítimas.

O material foi encontrado em um apartamento na comunidade do Vidigal | Divulgação / Pcerj

O ‘quartel general’ do crime foi desmantelado pela 15ª DP (Gávea) no início de agosto. O espaço, escondido no Vidigal, Zona Sul do Rio, estava vazio quando os policiais chegaram. No entanto, os integrantes já estavam sendo monitorados pela distrital desde fevereiro, quando os dois primeiros suspeitos foram presos: Daniel Vinicius Reis De Souza e Adriano Santos Pereira

A dupla estava hospedada em um hotel na Zona Sul e foi identificada pelo Setor de Inteligência da instituição, depois de várias denúncias sobre o golpe. Em um vídeo, um deles foi flagrado enganando uma das vítimas. Veja:

Na ocasião da prisão, as ligações começaram a cessar. Mas em julho, os golpes retornaram. Dessa vez, o grupo criminoso encontrou um novo método de dificultar o trabalho da polícia.

“Eles vão se aprimorando, vieram em quatro e vão trocando de moto [no percurso]. Eles ficaram em um hostel que fica dentro da comunidade do Vidigal. Dessa forma, se passam mais despercebidos e dificultam o trabalho da polícia, porque se a polícia for entrar lá, obviamente vai ter troca de tiros, alguém pode ser baleado. Então, não é fácil”, explica a delegada Daniela Campos, titular da 15ª DP (Gávea). 

Delegada Daniela Campos, titular da 15ª DP (Gávea) | Reprodução

As investigações da distrital apontam ainda que a quadrilha tem recebido apoio de facções criminosas do estado, como o Terceiro Comando Puro e o Comando Vermelho. Em troca, parte dos valores arrecadados no golpe é repassado aos traficantes. 

“Hoje, as facções criminosas do Rio de Janeiro dão guarida para que esses criminosos de outro estados pratiquem crime aqui. Depois, eles dividem o valor com os criminosos da facção. O tráfico de drogas não só ganha dinheiro do tráfico, ganha dinheiro com outras coisas como exploração de mototáxi, exploração de internet, fornecimento de gás, e, além de tudo, de outros crimes”, aponta Daniela. 

Golpistas foram presos em falha

Três dias após a 15ª DP encontrar o esconderijo do grupo, agentes da 16ª DP prenderam mais dois integrantes da quadrilha, dessa vez Vitor de Souza e Clayton de Jesus Passos.

Os dois são de São Paulo e estavam hospedados na comunidade do São Carlos | Reprodução

Um dos fatores para a prisão em flagrante ter sido bem sucedida foi um erro da próprio bando, que ligou, por engano, para a mesma vítima de um golpe já aplicado anteriormente.

“Por um erro, eles acabaram ligando para a mesma vítima. Ai, a pessoa foi na delegacia e já estávamos avisados”, diz a delegada.

“A gente já vinha investigando esse golpe, arrecadando várias imagens deles atuando aqui na região. No dia da prisão, a neta da vítima procurou a gente porque eles entraram em contato para supostamente entregar o laudo de um idoso de 97 anos. Já conhecíamos o golpe, encaminhamos duas equipes para o local e os policiais ficaram lá aguardando. Até que eles chegaram e os policiais fizeram a abordagem e a prisão dos dois indivíduos”, completa Nogueira.

Por que os idosos?

A fragilidade da saúde é um tema sensível. Para quem já enfrenta consultas e exames frequentes, ouvir que “houve uma alteração” é suficiente para gerar medo. Especialistas em segurança pública apontam que esse receio, combinado à pressa em resolver a situação, torna os idosos alvos preferenciais.

“Idosos são mais vulneráveis e por esta razão são as melhores vítimas para a organização criminosa. As pessoas próximas aos idosos têm que fazer o alerta para que eles não sejam mais uma vítima, porque o crime vai se adaptando, eles vão se aprimorando, se modernizando”, diz Nelson Andrade, ex- tutor da Secretaria Nacional de Segurança Pública.

Além disso, muitos ainda têm pouca familiaridade com procedimentos digitais e acabam confiando em quem demonstra conhecer suas informações pessoais.

“Pegamos uns casos em que as vítimas eram mais idosas e estavam com problemas de saúde. Quando elas desceram para receber o ‘exame’, estavam com a carteira cheia de cartões. Eles enrolam a vítima de uma tal forma, que ela esquece de pegar o cartão de volta. A pessoa idosa não está acostumada com as notificações do cartão que chegam no telefone, por exemplo”, pontua Daniela.

O advogado criminalista e especialista em segurança pública Marcos Espínola explica que a lei já reconhece essa vulnerabilidade: “O cometimento de crimes contra idosos através da internet é considerado uma agravante e pode aumentar a pena do criminoso. De acordo com a legislação brasileira, foi alterado o Estatuto da Pessoa Idosa para punir crimes cometidos por meios eletrônicos e contra idosos. O objetivo é punir com maior severidade o criminoso que utiliza o meio virtual para enganar e explorar a vulnerabilidade de pessoas idosas”.

Como eles acessam os dados médicos?

Inicialmente, uma das hipóteses levantadas pela Polícia Civil era de que os dados sobre exames e consultas eram vazados por funcionários do próprio hospital ou clínica, em sua maioria particulares. Apesar desta ainda não ser descartada, os agentes descobriram que um hacker trabalha para o grupo. É ele que obtém as informações certeiras que consegue enganar tantas pessoas.

“Existe alguma falha, porque são várias redes distintas. Se fosse só o mesmo hospital, o mesmo laboratório, poderia até ser alguém. Mas não, são várias redes distintas. Essas empresas precisam deixar esses bancos de dados mais protegidos”, explica Daniela.

Quando consegue os dados, o responsável pela parte técnica do golpe começa a vender as informações em grupos de rede social. Em alguns casos, usa a Deep Web.

“Eles compram esses dados também da Deep Web, e é uma dificuldade muito grande você descobrir os IPs das máquinas que frequentam esses ambientes. O crime, na internet, ele deixa rastros sim, mas a grande questão é o embate que a gente encontra para formalizar a quebra de sigilo para essas empresas [de rede social]. Outra coisa é que, muitas vezes, o IP fica maquiado”, conta.

O papel dos condomínios

Os prédios também se tornam peças centrais nessa engrenagem. Como a entrega é feita nas portarias, síndicos e porteiros precisam estar atentos.

O diretor da Associação Brasileira das Administradoras de Imóveis (Abadi), Marcelo Borges, pontua que treinamentos são fundamentais: um porteiro que sabe reconhecer sinais de fraude pode evitar que moradores caiam em golpes.

“O primeiro protocolo é a busca da credencial da pessoa, a certeza de que aquele que está querendo entrar é realmente o representante de uma entidade séria. É importante que o condomínio invista em um sistema de monitoramento, que permita que a pessoa veja do seu apartamento essa pessoa que está solicitando a entrada no prédio. Na dúvida, faça que essa pessoa forneça dados, peça o nome, o nome do órgão para quem trabalha, ligue para confirmar. Tendo esses cuidados todos, se for falso, essa pessoa vai ser desmascarada”, enumera.

Ele lembra ainda que o próprio morador tem papel fundamental nesse processo: “A porta de entrada do edifício é a porta de entrada da casa de todo mundo. Então, o morador, sendo acionado pela portaria, tem que ter a consciência de não permitir a entrada. Ele tem o dever de ligar para o órgão [responsável pelo exame], se cercar de toda a certeza de que aquela abordagem é verdadeira ou não. Na dúvida, não deve permitir a entrada”.

Como se proteger

A prevenção passa por alguns cuidados simples, mas eficazes:

  • Desconfiar de ligações que falem sobre alterações em exames;
  • confirmar diretamente com o laboratório ou clínica antes de aceitar qualquer entrega;
  • não autorizar pagamentos de taxas por meio de motoboys ou na portaria;
  • alertar familiares idosos sobre a existência desse golpe;
  • procurar a delegacia mais próxima em caso de suspeita.

“Os laboratórios deveriam ter mais pró-atividade e alertar os seus clientes sobre estes golpes, seja no momento que a pessoa está realizando os exames ou no momento seguinte através de sites e aplicativos”, pontua ainda Andrade.

O delegado Nogueira acrescenta: “A informação é crucial para que as pessoas tomem conhecimento desse tipo de golpe e consigam se prevenir. As pessoas precisam saber que, em regra, os laboratórios e hospitais não disponibilizam esse serviço de entrega de laudo através de motoboy. E se chegar um motoboy na casa da pessoa e exigir que o pagamento seja feito através de maquininha, seja de crédito ou de débito, a pessoa pode ter certeza que se trata realmente de um golpe”.

A reportagem não conseguiu localizar a defesa dos citados. O espaço segue aberto para eventuais manifestações.

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