“Fugimos porque ele voltou para tentar matar a gente”, diz motociclista preso após tiros de ex-PM; universitário atingido segue em estado grave

Thiago Marques, piloto de aplicativo, deixou a prisão de Benfica, na Zona Norte do Rio, na tarde desta terça-feira

Após passar cerca de 17 horas detido, Thiago Marques deixou a prisão de Benfica, na Zona Norte, na tarde desta terça-feira e relatou os momentos de terror que viveu na madrugada de segunda, na Penha. Ele e o estudante Igor Melo de Carvalho foram alvos de um disparo do PM reformado Carlos Alberto de Jesus, que supostamente os confundiu com assaltantes. Segundo o motociclista, mesmo após acertar Igor o policial militar seguiu com a perseguição.

— Fugimos porque ele voltou para tentar matar a gente. Se não tivéssemos fugido, ele ia matar a gente — disse Thiago.

O episódio aconteceu na madrugada da última segunda-feira, na Penha. Segundo o piloto da moto, o policial estava à paisana e puxou a arma de repente, após emparelhar o carro ao seu lado:

— Minha reação foi só me jogar no chão. Eu vi que o carro parou um pouco mais à frente. Eu corri, levantei o passageiro que estava comigo, fomos para trás do carro e pulamos o viaduto.

Thiago foi solto após uma audiência de custódia realizada por volta das 13h45 desta terça-feira. Os advogados do estudante Igor Melo e do piloto de aplicativo Thiago Marques conseguiram o relaxamento da prisão dos dois, que haviam sido considerados suspeitos de assaltar a esposa do policial militar reformado.

— A juíza reconheceu que a prisão era ilegal, diante de parâmetros racistas, onde o Igor foi reconhecido por ser um homem negro. Tanto para o Igor, quanto para o Thiago, não havia nenhuma característica que identificassem eles — contou Louize Andrade, advogada de Igor Melo.

Ela explicou ainda que a juíza do caso reconheceu a “ilegalidade da prisão” e determinou o retorno dos autos à delegacia, para que a investigação continue e o verdadeiro autor do assalto ocorrido no último domingo seja identificado.

— Cor de camisa não é uma prova, e os tribunais superiores já entendem que isso não segue os parâmetros corretos de um reconhecimento pessoal e tudo isso foi prontamente analisado pela promotora e pela magistrada e elas reconheceram ali que a prisão era ilegal — concluiu a advogada.

Na decisão de soltar os dois, em audiência de custódia, a juíza Rachel Assad da Cunha, da 29ª Vara Criminal da Capital, afirmou:

“Portanto, todas as informações indicam que tanto Carlos Alberto quanto Josilene teriam confundido os ora custodiados com os supostos autores do crime de roubo, de forma que os indícios de autoria restam totalmente esvaziados, impondo a imediata soltura dos custodiados.”

Visivelmente emocionado, Thiago correu para os braços de sua mãe, Jaqueline Marques, assim que saiu pelos portões da unidade prisional.

— Eu estava trabalhando, mãe. Eu ia deixar minhas duas crianças sozinhas porque eu estava trabalhando mãe, como que isso aconteceu comigo? — perguntou o motociclista, aos prantos.

Entenda o caso

Igor foi baleado no Viaduto João XXIII, na Penha, Zona Norte do Rio. Sua família e amigos afirmam que ele foi baleado pelas costas, acusado de um assalto que não cometeu.

O autor dos disparos foi o policial militar da reserva Carlos Alberto de Jesus, que teria agido após a esposa ter reconhecido o condutor da moto como um dos responsáveis pelo roubo do seu celular. Em um primeiro depoimento, ele disse que atirou após ver Igor armado. Depois, afirmou que ele “fez menção” de pegar uma arma.

Os parentes dizem que Igor Melo de Carvalho, de 32 anos, solicitou uma moto por aplicativo para voltar da casa de samba Batuq, onde é garçom aos finais de semana para casa. O trajeto era da Rua Belizário Pena, na Penha, onde a casa de samba fica, até o bairro do Turiaçu, residência de Igor.

No caminho ele teria percebido que um veículo seguia a motocicleta. Minutos depois ouviu disparos e caiu da moto. Percebendo estar ferido, Igor conseguiu ligar para colegas de trabalho, que foram até o local e o socorreram ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha.

Igor chegou a ficar sob custódia da polícia no hospital. Em imagens enviadas pelo familiares, é possível ver o momento em que Igor, por volta das 1h30, embarca na moto por aplicativo ao sair do bar.

“Dever de agir”

O secretário de Segurança do Rio, Victor Cesar Carvalho dos Santos afirmou que não considera o caso um ato de “fazer justiça com as próprias mãos”.

— Eu não acho que foi justiça com as próprias mãos. Ele é um policial e tomou conhecimento de um fato criminoso. Então, tem o dever de agir, independentemente de ser a namorada dele. Ele está aposentado, mas suas obrigações continuam. Ele não pode simplesmente ver um crime sendo cometido e se omitir — declarou o secretário.

O caso foi encaminhado para a Corregedoria da PM e está sendo investigado.

Policial não deu ordem de parada

Tanto o motociclista quanto o universitário atingidos afirmaram que o policial não deu ordem de parada antes de atirar.

O policial reformado Carlos Alberto de Jesus disse em dois depoimentos que pediu para a moto parar antes de atirar.

— Em momento nenhum ele chegou a falar nada. Ele só atirou. A gente não expressou nada, a gente so abriu passagem para ele passar e ele efetuou o disparo. Como que ele falou para a gente parar se nem fardado ele estava, nem de viatura ele estava?”, questionou Thiago, ao sair da delegacia nesta terça.

Em declaração por escrito feita do hospital, Igor também afirmou que não houve ordem de parada. Igor acabou sendo atingido pelos disparos e está internado no Hospital Getúlio Vargas. Ele ficou sob custódia, mas na tarde desta terça uma juíza mandou soltar tanto Igor, quanto Thiago.

— Eu estou me sentindo mal, mas a Justiça vai ser feita por mim, pela minha família e pela família do Igor, disse Thiago.

Thiago foi levado para o Presídio de Benfica depois que a mulher do policial reformado que atirou contra ele e Igor os acusou de roubar seu celular.

— Ela (Josilene) me tirou para nada. Me tirou para um bandido, acrescentou Thiago, que negou ter pedido desculpas para Josilene na delegacia. — Eu implorei para que ela olhasse para o meu rosto e visse que não fui eu que fiz.

Thiago, que faz viagens por aplicativo, ainda disse que vai tentar viver sua vida normalmente a partir de agora, mas pede Justiça:

— Sou trabalhador e vou continuar sendo. Hoje eu tô saindo ‘escutado’, e os demais que não?, questionou.

Clemilson da Silva Gonçalves, pai de Thiago, esabafou assim que o filho prestou depoimento na 22ª DP (Penha), no início da tarde.

— Ele vai pagar também pelo que fez. Meu filho estava trabalhando para levar o leite das crianças. Ele tem duas crianças pequenininhas dentro de casa. Inocente, nunca se envolveu pros drogas, tem a ficha limpa, nunca deu trabalho para mim e para a mãe dele. Saiu para trabalhar e quase não voltou por causa de um cara desse aí. Desequilibrado, não merece carregar o diploma de polícia, afirmou o pai de Thiago.

Com informações de O GLOBO e g1.

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