Flávio diz que vai derrubar ‘amarras ambientais’, enquanto Lula aposta em proteção das florestas; veja propostas

Candidato do PL defende exploração de terras raras, mineração em territórios indígenas e relativiza aquecimento global; já o petista aposta em agenda climática, proteção das florestas e transição energética

Adicione o Agenda do Poder como fonte preferencial no Google

A política ambiental abriu mais uma frente de contraste entre Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida presidencial, aponta reportagem da Folha de S. Paulo. Enquanto o senador promete flexibilizar regras e ampliar a exploração econômica de recursos naturais, Lula coloca o enfrentamento à emergência climática e a preservação ambiental entre os compromissos de seu programa de governo.

“Vamos acabar com essas amarras ambientais.” A declaração foi feita por Flávio em vídeo de campanha publicado em agosto, no qual defendeu a exploração de terras raras no Norte do país.

O candidato do PL também tem criticado leis de proteção ambiental e operações contra crimes ambientais. Entre suas posições estão a exploração de recursos naturais em áreas protegidas, inclusive terras indígenas, e a legalização do garimpo.

No mês passado, Flávio afirmou que regras ambientais dificultam a construção de resorts, defendeu mineração e turismo em territórios indígenas e tratou o aquecimento global como parte de eventos extremos e cíclicos.

Planos apresentam diferenças sobre clima e fiscalização

O programa de governo de Flávio não menciona diretamente os termos “mudança climática” ou “aquecimento global”. O documento, porém, estabelece a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2029 e prevê ações de prevenção, monitoramento, fiscalização e combate aos crimes ambientais.

O candidato também propõe utilizar inteligência artificial e imagens de satélite na fiscalização, mas afirma que isso deve ocorrer “sem criar novas obrigações ou custos desnecessários para o produtor”.

Em relação à estrutura federal, o plano promete: “Vamos eliminar superposições entre Ibama, Funai e ICMBio”. Também prevê maior transparência sobre financiadores e projetos de organizações não governamentais que recebem recursos internacionais.

Lula apresenta uma abordagem diferente. Seu programa menciona a emergência climática, prevê alcançar o desmatamento líquido zero até 2030 e defende políticas de descarbonização, monitoramento por satélite, inteligência artificial e mecanismos de rastreabilidade das cadeias produtivas.

O presidente também propõe políticas permanentes de adaptação climática, incluindo planos estaduais e municipais para enfrentar calor extremo e enchentes.

Terras raras e petróleo também dividem propostas

Os dois candidatos defendem que o Brasil agregue valor aos minerais críticos e às terras raras, mas apresentam caminhos distintos.

Flávio propõe atrair capital estrangeiro e tecnologia para desenvolver o setor. Lula defende evitar a simples exportação das matérias-primas estratégicas e ampliar o beneficiamento desses minerais dentro do país, associando a estratégia à soberania nacional.

Apesar de adotar a defesa ambiental como uma de suas bandeiras eleitorais, o governo Lula também enfrenta críticas pela exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Em agosto, o presidente prometeu cuidados ambientais nas atividades realizadas na costa do Amapá.

No programa eleitoral, Lula defende investimentos da Petrobras na transição energética e afirma que “novas reservas serão exploradas com cuidados socioambientais ainda maiores e visão estratégica”. O plano de Flávio trata do petróleo de forma genérica e apresenta propostas para ampliar a exploração de gás.

Debate ambiental chega às disputas estaduais

A flexibilização das regras ambientais também aparece nas campanhas ao Congresso. No Pará, uma lei aprovada pela Assembleia Legislativa em agosto permitiu a presença de pecuaristas dentro da terra indígena Ituna-Itatá, onde há registro de povos isolados. Segundo o material fornecido, Polícia Federal e Ministério Público Federal investigam um grupo de cerca de 300 fazendeiros por atuação coordenada contra indígenas.

Em estados da Amazônia, candidatos ao Senado também defendem mudanças nas regras sobre garimpo e exploração econômica de territórios indígenas. Em Roraima, onde ficam as terras Yanomami e Raposa Serra do Sol, o tema ganhou espaço na campanha eleitoral.

Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, avalia que o debate ambiental mudou de característica nos últimos anos.

“Você tem hoje um cenário muito diferente do que aconteceu há alguns anos, em que ser acusado de destruir o meio ambiente era algo que um candidato queria evitar a qualquer custo. Hoje tem parlamentares que fazem da destruição ambiental um palanque eleitoral”, afirma.

Já Guilherme Syrkis, diretor-executivo do Centro Brasil no Clima, defende combinar fiscalização com políticas de desenvolvimento sustentável para ampliar o apoio das populações locais.

“Enquanto não se chegar ao bolso das pessoas, o discurso da flexibilização vai continuar ganhando voto.”

Propostas ambientais — Lula x Flávio Bolsonaro

TemaLula (PT)Flávio Bolsonaro (PL)
Mudança climáticaDefende políticas contra o aquecimento global e aborda mudança climática no planoNão cita “mudança climática” ou “aquecimento global”; menciona “eventos climáticos extremos”
Desmatamento e fogoPropõe desmatamento líquido zero até 2030 e Plano Nacional de Manejo Integrado do FogoPropõe zerar o desmatamento ilegal até 2029 e combater queimadas e crimes ambientais
FiscalizaçãoDefende satélites, inteligência artificial e rastreabilidade das cadeias produtivasPrevê IA, satélites e ação coordenada, “sem criar novas obrigações ou custos desnecessários para o produtor”
Ordenamento territorialQuer destinar terras públicas a unidades de conservação, territórios indígenas e quilombolas ou assentamentosPropõe mudar a política que, segundo o plano, criminaliza moradores da floresta e ampliar cooperação contra crimes ambientais
Entidades ambientaisDefende Código Florestal, Lei da Mata Atlântica e governança envolvendo diferentes níveis de governo e setoresPromete “eliminar superposições entre Ibama, Funai e ICMBio” e cobrar transparência de ONGs

Economia, energia e adaptação climática

TemaLula (PT)Flávio Bolsonaro (PL)
Economia verdeDefende mercado de carbono, serviços ambientais e restauração bioculturalDefende mercado regulado de carbono, serviços ambientais e indústria de fármacos e cosméticos
Acordo de ParisCita TFFF, Fundo Clima e Eco Invest como instrumentos para cumprir metas climáticasNão trata do tema
Petróleo e gásDefende transição energética e exploração de novas reservas com maiores cuidados socioambientaisDefende políticas para gás, incluindo Pré-Sal e fracking, e busca por segurança energética a menor preço
Minerais e terras rarasPropõe beneficiamento no Brasil e agregação de valor para reduzir a simples exportação de matérias-primasDefende agregação de valor, incentivos de mercado, capital estrangeiro e tecnologia
AdaptaçãoPrevê planos contra calor extremo, enchentes e seca e revitalização de baciasPropõe infraestrutura contra eventos extremos, saneamento, reservatórios e medidas contra seca e enchentes

Relacionadas

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo