* Paulo Baía
Não se trata de um romance a ser simplesmente lido. Trata-se de um processo social a ser acompanhado em seu lento deslocamento. O Bruxo do Contestado, de Godofredo de Oliveira Neto, não se organiza em torno de indivíduos isolados nem se satisfaz com trajetórias pessoais. O que se move ali é uma rede. Cada gesto nasce de outro gesto anterior. Cada crença carrega uma história coletiva. Cada ato de violência é efeito de tensões acumuladas no tempo. Nada existe sozinho. O livro não reconstrói um episódio do passado. Ele torna visível uma configuração social no instante exato de sua ruptura.
O Contestado aparece menos como espaço geográfico e mais como campo relacional. Um território atravessado por forças profundamente desiguais. De um lado, o Estado republicano em processo de consolidação, o Exército como instrumento de disciplinamento e o capital ferroviário como agente de reorganização econômica e espacial. Do outro, populações camponesas estruturadas por vínculos comunitários, tradições orais persistentes e uma economia moral própria, alheia aos códigos formais da República. Nenhum desses polos atua de forma autônoma. Todos dependem uns dos outros, ainda que se recusem a reconhecer essa dependência. O conflito nasce exatamente dessa recusa, dessa cegueira mútua que transforma interdependência em antagonismo.
A violência, no romance, não surge como explosão repentina. Ela se deposita. Acumula-se lentamente, como uma pressão social crescente, à medida que certos grupos concentram os meios legítimos de coerção e outros são progressivamente excluídos da possibilidade de fala e reconhecimento. O progresso não se apresenta como escolha compartilhada. Ele se impõe como força externa, assimétrica, sem negociação possível. Não há pacto social. Há deslocamento forçado de expectativas, de corpos, de modos de existência.
É nesse terreno fraturado que emerge a figura do “bruxo”. Não como exceção folclórica, mas como resultado necessário de uma estrutura tensionada ao limite. Sua autoridade não deriva de cargos, decretos ou normas escritas. Ela nasce da capacidade de produzir sentido em um mundo que se desfaz. O “bruxo” ocupa o vazio deixado por instituições que nunca chegaram a se instalar. Ele concentra, em sua presença, a tentativa coletiva de recompor alguma coerência onde o tecido social foi rasgado pela expropriação e pelo silêncio.
O equívoco persistente das autoridades republicanas, como o romance deixa claro, está em tratar essa liderança como anomalia, superstição ou resíduo de atraso histórico. Ao fazê-lo, revelam sua própria incapacidade de compreender os processos de longa duração que estruturam as relações sociais. Aquilo que se nomeia como fanatismo não é ausência de razão. É resposta organizada à exclusão contínua. Quando os canais formais de participação não existem, outras linguagens políticas se constroem e se impõem.
A repressão assume, então, um caráter pedagógico. Não basta eliminar fisicamente os corpos insurgentes. É necessário produzir medo duradouro, apagar lembranças, redefinir os limites do aceitável. A guerra não se encerra no campo de batalha. Ela prossegue na escrita da história oficial. O romance insiste nesse ponto com precisão quase clínica. O esquecimento não é falha da memória coletiva. É tecnologia de poder. O Contestado precisava desaparecer para que a República pudesse continuar a se narrar como racional, progressista e civilizadora.
Nesse processo, a terra deixa de ser apenas recurso econômico. Ela se revela como eixo estruturante das relações sociais. Ao romper o vínculo entre os grupos camponeses e o território, rompe-se também um modo específico de regulação dos conflitos, de transmissão de valores, de reconhecimento mútuo. A expropriação não produz somente pobreza material. Produz desorganização social profunda, desorientação simbólica, perda de referências. O romance compreende essa dimensão com rara acuidade.
A forma narrativa escolhida por Godofredo de Oliveira Neto acompanha esse diagnóstico. A fragmentação do texto não é ornamento estético. Ela traduz literariamente a desagregação das antigas formas de controle social e a emergência de uma ordem instável, marcada pelo choque entre códigos incompatíveis. Não há voz central porque não há centro social compartilhado. O leitor é lançado em uma rede de perspectivas em tensão permanente, obrigado a reconstruir sentidos em meio à descontinuidade.
O Estado aparece como entidade distante, incapaz de perceber que sua própria força depende daqueles que escolhe destruir. Ao transformar os sertanejos em inimigos, aprofunda seu isolamento. O resultado é paradoxal. Quanto mais violência se exerce em nome da ordem, mais frágil se torna o equilíbrio social. A repressão, longe de pacificar, acelera a dissolução das interdependências que sustentam qualquer projeto coletivo de longa duração.
O que confere a O Bruxo do Contestado sua densidade sociológica é a recusa do fechamento. O romance não conclui. Ele suspende. Deixa no ar a percepção de que aquela configuração não pertence apenas ao passado. Ela reaparece sempre que processos de centralização avançam sem incorporar os grupos situados nas margens. Sempre que a civilização se imagina como linha reta, ignorando os ritmos desiguais da vida social.
Ao final da leitura, torna-se evidente que o “bruxo” não é personagem histórico isolado, mas função social recorrente. Ele emerge quando a distância entre governantes e governados se torna intransponível, quando a violência substitui o reconhecimento, quando o progresso perde sua dimensão relacional. Nesse sentido, o romance não fala apenas do Contestado. Ele descreve uma estrutura persistente da experiência brasileira.
O livro permanece atual porque obriga o leitor a olhar para além dos eventos e enxergar os processos. Não pergunta quem venceu. Pergunta como se tornou possível vencer daquela maneira. E, sobretudo, que tipo de sociedade se constrói quando a coesão é produzida pelo medo e o silêncio passa a ser confundido com consenso.
O Bruxo do Contestado não é memorialismo. É diagnóstico. Um diagnóstico incômodo, escrito com a paciência de quem sabe que os grandes conflitos não nascem do acaso, mas da lenta deformação das relações humanas. Talvez seja por isso que sua leitura ainda perturbe. Porque sugere, com rigor e elegância, que o passado não ficou para trás. Ele continua agindo, discretamente, nas formas que insistimos em chamar de ordem.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ





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