“Tem sido muito difícil. Uma dor imensurável, inexplicável. Uma revolta e indignação com o que meu filho passou e como sofreu’”, relatou Rhayza Baptista, mãe do pequeno Miguel Luca ao Agenda do Poder. O bebê, de 1 ano e 8 meses, morreu na última sexta-feira (13) com diagnóstico de derrame pulmonar depois de passar por três unidades de saúde públicas nas zonas Sul e Norte do Rio.
Desde as 7h desta terça-feira (17), a família realiza uma manifestação em frente às UPAs da Tijuca e da Rocinha, cobrando respostas e responsabilização por parte das autoridades. “Com toda essa repercussão do caso e essa luta, estamos dedicando todo nosso tempo. Somos autônomos, temos uma família para sustentar e, com tudo isso, estamos sem trabalhar, focados nessa causa. Tem sido muito difícil retomar a rotina normal”, completou.
Negligência
Antes de morrer com diagnóstico de pneumonia e derrame pulmonar, Miguel Luca passou por três unidades de saúde. Depois de dar entrada na UPA da Tijuca, na UPA da Rocinha e no Hospital Municipal Albert Schweitzer com sintomas de dor, febre, vômitos e dificuldades para respirar, o menino não recebeu, segundo a família, o tratamento adequado. Agora, os pais denunciam que a morte do bebê foi causada por negligência médica.
Segundo o pai de Miguel Luca, Lidson Baptista, o filho começou a apresentar sinais de cansaço respiratório, febre e vômitos ainda na madrugada do dia 12 de junho, na quinta-feira. Ele foi levado às 4h13 para a UPA da Tijuca e atendido apenas por volta das 5h, quando, segundo ele, os sintomas foram minimizados pelos profissionais de saúde.

“Liberaram a criança sem solicitar exames complementares, sem realizar monitoramento adequado ou indicar internação, o que eu considero uma falha grave. Desde o primeiro momento, percebi que o atendimento foi extremamente negligente, despreparado e sem a devida atenção que a gravidade do caso exigia”, relatou.
Com a piora do quadro, a família procurou, ainda no mesmo dia, a UPA da Rocinha, na Zona Sul, onde Miguel foi internado às 22h50 com saturação baixa e submetido a exames de sangue e raio-X.
“O atendimento foi rápido e eficaz, levando em consideração que o meu filho chegou com 92 de saturação e conseguiram conduzir a situação normalizando a saturação. Foram solicitados exames de sangue e raio-X, e imediatamente meu filho foi internado”, lembra.

Transferência
De lá, foi transferido por vaga zero para o Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo, por ser uma unidade de “maior porte’’. Na unidade, segundo Lidson, houve atraso na realização de exames e falha na comunicação com os responsáveis.
“Chegamos com vaga zero, ou seja, o hospital já sabia da gravidade do caso. Mesmo assim, demoraram a atender. No dia seguinte, por volta de 12h, a condição de saúde do meu filho agravava-se visivelmente, mas, mesmo assim, a equipe médica negligenciou os sinais clínicos críticos, não adotando as medidas cabíveis com a urgência necessária. Quando finalmente alguns exames foram realizados ou buscou-se atendimento especializado, meu filho já apresentava sinais claros de cansaço extremo e febre”, explica.
Ainda segundo o responsável, houve atraso na administração das medicações adequadas, ausência de comunicação transparente com ele e falta de prontidão para encaminhamento ao leito. Segundo Lidson, uma médica chegou a examinar o menino e falou que ele não apresentava riscos. Em seguida, foi solicitada uma tomografia.
“Depois de muito insistir, realizaram uma tomografia, mas sem oxigênio, porque a bala demorou mais de 40 minutos para chegar. Eu mesmo levei meu filho até o exame com a técnica de enfermagem e a médica da ambulância.”
Após o exame, o primeiro diagnóstico indicou um pequeno comprometimento pulmonar. Horas depois, a avaliação mudou, e Miguel foi internado no próprio hospital. A criança apresentou melhora após administração oral de glicose, mas logo em seguida voltou a ter sinais de cansaço extremo. O pai relata que o oxímetro foi desligado e, apesar de pedidos insistentes para religá-lo, não foi recolocado a tempo.
“Após cerca de 5 minutos, notei que meu filho estava ainda mais cansado e com os lábios um pouco arroxeados. Pela terceira vez, chamei uma enfermeira para recolocar o oxímetro, sem sucesso. Tentei eu mesmo posicioná-lo. Em seguida, senti que meu filho estava imóvel e imaginei que estivesse dormindo. Uma enfermeira passou, olhou para ele e demonstrou surpresa. Quando se aproximou, ele já estava com sangramento nasal e saliva pela boca. Entrei em desespero e comecei a gritar por ajuda. Fui retirado da sala, enquanto os médicos tentavam reanimá-lo”, relembra.
Depois de três horas aguardando, o pai teve a notícia da morte do filho: “Após cerca de 1 hora, a médica responsável pela internação informou que ele havia sido entubado e estava estável. Porém, após mais 2 horas sem qualquer retorno, recebi a notícia de que ele não havia resistido. A explicação foi que o pulmão estava tomado por completo e, ao tentar a drenagem, havia saído apenas sangue”, conta.
Diante das contradições nos diagnósticos e do que considera falhas graves no atendimento ao filho, Lidson afirma que houve omissão de socorro, despreparo da equipe e falha nos protocolos de atendimento. Segundo ele, o primeiro médico que avaliou a tomografia afirmou que o comprometimento pulmonar era pequeno e não exigia drenagem. No entanto, após a morte, a médica responsável afirmou que o pulmão estava completamente tomado. “Isso me causa desconfiança”, completou.
O pai também questiona o uso da máscara de ventilação não invasiva (VNI), que teria sido aplicada de forma inadequada. Por conta disso, a família solicitou oficialmente a realização de uma autópsia legal, para esclarecer as causas da morte e possíveis responsabilidades.
O que dizem os hospitais?
De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde (SES), a direção da UPA Tijuca informou que o paciente deu entrada na unidade com dor abdominal, tosse com secreção, náuseas e vômitos. Sintomas que, de acordo com a família, começaram no dia anterior.
Ainda conforme a direção da unidade, a equipe médica avaliou o menino com base nos parâmetros da Organização Mundial da Saúde (OMS) para crianças de 0 a 5 anos e concluiu que não havia sinais de gravidade. Após o atendimento, os responsáveis foram orientados a procurar emergência caso o quadro se agravasse.
A Fundação Saúde, responsável pela gestão da unidade, informou que determinou a apuração detalhada sobre o atendimento prestado ao paciente.
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, a direção do Hospital Municipal Albert Schweitzer informou que Miguel chegou à unidade às 11h25, encaminhado de outra UPA, para avaliação da cirurgia pediátrica. Passou por atendimento médico inicial e, às 12h13, realizou tomografia. O diagnóstico foi de pneumonia e derrame pleural.
Conforme a nota, não havia indicação cirúrgica, mas, devido à gravidade do quadro, o paciente foi internado e recebeu os cuidados recomendados. No entanto, houve rápida piora clínica e parada cardiorrespiratória. Apesar dos esforços das equipes, Miguel não resistiu.
A unidade lamentou o falecimento e disse estar à disposição da família.
A Polícia Civil investiga o caso, que foi registrado na 33ª DP (Realengo). De acordo com a instituição, testemunhas serão ouvidas e outras diligências estão em andamento para apurar os fatos.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes






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