A ex-diretora de inteligência do Ministério da Justiça, Marília Alencar, confirmou em depoimento à Polícia Federal ter feito um mapeamento dos locais onde o então candidato do PT à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), havia obtido mais votos no primeiro turno.
No depoimento, prestado na semana passada em Brasília, Marília afirmou ainda que o levantamento teria sido um pedido de seu chefe na época, o então ministro da Justiça, Anderson Torres, preso há 96 dias em um batalhão da Polícia Militar no Guará, no Distrito Federal, após os atentados golpistas de 8 de janeiro.
O depoimento da ex-auxiliar de Torres está sob sigilo, mas a equipe da coluna de Malu Gaspar, no Globo online, apurou o teor com fontes que acompanham de perto as investigações.
O próprio Anderson Torres será chamado a prestar esclarecimentos sobre o caso na próxima semana.
O documento confirmado por Marília foi produzido em outubro, entre o primeiro e o segundo turno, e detalhava os locais em que o petista havia obtido melhor desempenho em 2 de outubro.
Segundo a apuração da PF, o relatório serviu como suporte para a montagem da operação de bloqueios em rodovias no dia do segundo turno, que ocorreu em 31 de outubro.
A Polícia Federal já identificou inclusive diversas coincidências entre os locais mapeados por Marília e os pontos onde foram instalados os bloqueios nas rodovias.
Conforme informou o colunista Lauro Jardim, Marília tentou apagar o documento do seu celular, mas a PF recuperou parte do material– mais especificamente um print do boletim, produzido a partir de utilização de um aplicativo chamado Bussiness Inteligency.
O aplicativo, conhecido como BI, é comumente usado no setor público e em empresas para cruzamento de dados. Em depoimento, a ex-diretora de inteligência confirmou o uso do aplicativo e a elaboração do documento.
Disse, porém, não saber o motivo pelo qual o ministro da Justiça teria encomendado o mapeamento dos dados. Essa é uma das perguntas que Torres terá que responder na semana que vem, quando for depor na PF.
Outro episódio que ele será chamado a esclarecer será uma viagem que fez à Bahia entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2022.
Nessa viagem, Torres visitou a superintendência da Polícia Federal na Bahia e se reuniu com o então superintendente, Leandro Almada, e seus auxiliares, para cobrar empenho na operação que estava sendo planejada para o dia da eleição.
Na operação, que gerou um conflito entre o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ministro do Supremo, Alexandre de Moraes, e o diretor da PRF, Silvinei Vasques, foi feito o dobro de abordagens do primeiro turno – um dos motivos para a Polícia Federal colocá-la na mira de uma investigação específica.
A PF apura se houve um esforço dirigido para impedir que eleitores de Lula chegassem aos locais de votação. Apura, ainda, qual a responsabilidade de Torres e do próprio ex-presidente Jair Bolsonaro no episódio.
Conforme informou a coluna na semana passada, apesar de Torres ter dado uma guinada na sua estratégia de defesa, buscando pontes com o Supremo Tribunal Federal (STF) para convencer o ministro Alexandre de Moraes a derrubar a sua prisão, as chances do ex-ministro da Justiça ser colocado em liberdade são consideradas praticamente nulas, pelo menos por enquanto.
A gota d’água na delicada situação do ex-ministro da Justiça foi justamente o aprofundamento das investigações envolvendo o uso da máquina estatal para atrapalhar a votação de eleitores de Lula no segundo turno.





