Na década de 1950, a Guanabara contava com mais de 200 cinemas, 62 deles capazes de acomodar plateias superiores a mil espectadores. Cada sala possuía identidade própria, reflexo da gestão familiar ou de pequenos empresários, e funcionava como ponto de encontro comunitário: assistir a um filme era quase um rito social, que incluía intensos debates e, eventualmente, algum entusiasmo exagerado depois de alguns chopes.
Hoje, os sobreviventes tentam se manter à tona em um cenário dominado por serviços de streamings, televisores 4K e multiplexes impessoais em shoppings que, curiosamente, valorizam mais o preço do combo da pipoca do que a sétima arte.
Alguns desses cinemas alcançaram status lendário. O Cine Teatro Olinda, inaugurado em 1940 na Tijuca, ostentava 3.500 lugares e arquitetura art déco digna de um palácio, enquanto o Cine Rian, de frente para o mar de Copacabana, protagonizou um episódio memorável do rock’n’roll brasileiro: jovens dançaram pelos corredores ao som de Bill Haley, forçando a evacuação do cinema pela polícia.
O Metro-Boavista, primeiro a contar com ar-condicionado na cidade, fazia gente comprar ingresso só para aproveitar o fresquinho; e o Cine São Luiz, no Largo do Machado, impressionava com seu luxuoso foyer de 12 metros de pé direito, escadarias e detalhes em mármore e bronze, hoje preservados apenas em parte como Kinoplex.
Nem todos os grandes cinemas cariocas resistiram à passagem do tempo e à especulação imobiliária. O Cine Paissandu, reduto de cinema de arte e debates políticos, virou academia; o Cine Ipanema cedeu espaço a edifícios modernos; e o colosso Olinda transformou-se no primeiro shopping da cidade.
Como bem apontou Carlos Drummond de Andrade: “Os cinemas estão acabando… a cidade muda, os hábitos se transformam, mas a saudade permanece, como um filme que não termina.”

Quantos cinemas já teve o Rio de Janeiro?
Na década de 1950, a cidade possuía mais de 200 salas de cinema espalhadas por diversos bairros. Desse total, 62 comportavam plateias superiores a mil assentos.
Essas salas eram pontos de encontro cultural, onde as pessoas se reuniam para assistir aos lançamentos cinematográficos e discutir as obras exibidas.
A maioria dessas salas era independente, operada por pequenos empresários ou famílias, o que conferia a cada uma identidade própria.
Com o passar dos anos, muitos desses cinemas foram fechando as portas, vítimas da modernização e da especulação imobiliária.
Hoje os que ainda resistem enfrentam dificuldades para sobreviver em um mercado dominado pelos grandes multiplexes.
O maior da América Latina
Inaugurado em 1940 na Praça Saens Peña, na Tijuca, o Cine Teatro Olinda possuía uma arquitetura imponente, típica do estilo art déco.
Sua fachada, que chamava a atenção pelos grandes holofotes, era ornamentada com detalhes geométricos e linhas elegantes, enquanto o interior ostentava um grande salão com capacidade para absurdos 3.500 espectadores. O maior da América Latina.
O cinema era equipado com tecnologia de ponta para a época, incluindo um sistema de som de alta qualidade e projeção em grande formato.
Esse tamanho colossal permitia que o cinema recebesse grandes estreias e eventos de grande porte, com apresentações teatrais e musicais, tornando-se um centro cultural importante na cidade.
Sua localização na Tijuca também facilitava o acesso de moradores de diversos bairros, consolidando-o como um dos cinemas mais populares e frequentados do Rio de Janeiro.
Quando foi demolido e por quê?
O Cine Teatro Olinda foi demolido em 1972 para dar lugar ao Shopping 45, o primeiro shopping center da cidade.
A decisão de demolir o cinema foi motivada pela crescente especulação imobiliária e pela mudança nos hábitos de consumo da população.
O Olinda, apesar de sua grandiosidade, não conseguiu resistir a essas mudanças e foi substituído por um centro comercial que representava as novas tendências urbanas da época.
O cinema da Avenida Atlântica
Inaugurado em 1932, o Cine Rian foi um cinema localizado em plena Avenida Atlântica, em Copacabana. Sua localização privilegiada, de frente para o mar, proporcionava aos espectadores uma vista deslumbrante antes e depois das sessões.
Possuía uma arquitetura elegante, com elementos do estilo art déco e uma fachada que se integrava harmoniosamente ao ambiente praiano de Copacabana. O interior do cinema era decorado com requinte, oferecendo conforto e sofisticação aos frequentadores.
O Rian tinha capacidade para 1.130 espectadores. Mas apesar de ser menor em comparação com outros cinemas da cidade, sua localização o tornou um ponto de encontro cultural em Copacabana, recebendo estreias de filmes nacionais e internacionais e promovendo eventos especiais que atraíam cinéfilos de toda a cidade.

Um marco na história do rock’n’roll
Em 1957, durante a exibição do filme Ao balanço das horas no Cine Rian ocorreu um evento histórico do rock carioca, que se espalharia por todo o território brasileiro.
Ao som de Bill Haley & His Comets, a juventude carioca, tomada pela empolgação e energia da novidade musical, não resistiu e começou e saiu dançando como se não houvesse amanhã pelos corredores do cinema.
A reação foi tão considerada tão intensa que a tropa de choque da PM foi acionada para evacuar o cinema, e o filme teve sua exibição suspensa até segunda ordem.
O Cine Rian foi demolido em 1983 para dar lugar ao Hotel Pestana.
Um espaço de resistência cultural
Inaugurado em 1957, o Cine Paissandu, no Flamengo, era luxuoso, com poltronas estofadas e possuía uma sala diferenciada com 50 lugares reservados para fumantes.
Essa área inovadora era separada por um vidro, permitindo que os fumantes pitassem à vontade sem incomodar os demais 742 espectadores.
Mas foi como reduto de cinema de arte que ele se tornou um ícone cultural.
A “Geração Paissandu”
Durante o período da Ditadura Militar (1964-1985), o Paissandu transformou-se em um ponto de encontro de intelectuais, estudantes e cineastas, formando o que ficou conhecido como a “Geração Paissandu”.
Esse grupo utilizava o cinema não apenas para assistir a filmes, mas também como espaço para debates sobre política, cultura e resistência ao regime autoritário.
Mas Deus é um cara gozador e adora brincadeira. O Cine Paissandu encerrou suas atividades em 2008 e, atualmente, seu espaço abriga uma academia de ginástica.
Apesar de seu fechamento, o Paissandu permanece na memória afetiva dos cariocas como um símbolo da resistência cultural e da apreciação pelo cinema de qualidade.

O primeiro cinema refrigerado
Inaugurado em 1936 como Metro-Passeio, o Metro-Boavista, no Passeio, foi um dos maiores cinemas da cidade, com capacidade para cerca de 1.900 espectadores.
Sua arquitetura art déco, projetada por Robert Prentice, refletia o luxo e a modernidade da época, mas foi o bendito ar-condicionado que o destacou no cenário da cidade.
Uma inovação para os padrões cariocas, era tão eficiente que muitos frequentadores utilizavam o cinema apenas para desfrutar do ambiente climatizado.
A sala também era equipada com tecnologia de ponta para a época, incluindo projetores Cinemeccanica 70mm e telas curvadas D-150, sendo a primeira da América do Sul a oferecer filmes em formato Dimension-150.
O Metro-Boavista fechou no início dos anos 2000.

O palácio art déco
Inaugurado em 1937 no Largo do Macho o Cine São Luiz foi uma das salas mais chiques e emblemáticas do Rio de Janeiro. Seu interior era inspirado no Radio City Music Hall, de Nova York e tornou-se um ícone da arquitetura e do entretenimento da cidade.
Um de seus destaques era o luxuoso foyer, com pé direito de 12 metros, escadarias imponentes com carpetes vermelhos, cortinas de veludo e detalhes em mármore e bronze. O foyer era decorado com espelhos e luminárias de cristal, criando uma atmosfera de altíssima sofisticação.
Também ficaram na memória seus lanterninhas, que usavam uniformes formais, compostos por paletó azul-marinho, calça social, gravata borboleta e luvas brancas.
Com o passar dos anos, o cinema passou por reformas e foi subdividido em múltiplas salas. Hoje funciona como Kinoplex São Luiz, com quatro salas, incluindo uma com projeção 3D. Apesar das mudanças, ele ainda preserva elementos da arquitetura original.
Carlos Drummond de Andrada escreveu lamentando o fim dos cinemas do Rio?
Sim, o poeta expressou sua tristeza pela extinção das salas de cinema em seu poema Os cinemas estão acabando. A obra é um lamento pela mudança nos hábitos culturais e a perda de patrimônios simbólicos da cidade.
Os cinemas estão acabando,
as salas de projeção se fecham,
os filmes em preto e branco
dão lugar às telas coloridas.
A cidade muda,
os hábitos se transformam,
mas a saudade permanece,
como um filme que não termina.


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