Quando se fala na chegada da luz elétrica ao Brasil, poucas imagens vêm à mente além das grandes metrópoles do Sudeste, como a Guanabara ou aquela estranha cidade cinza ao sul do país. Mas em junho de 1883, um pequeno munícipio do litoral norte fluminense fez sombra a todas essas e muitas outras tornando-se a primeira cidade brasileira, da América Latina e uma das cinco primeiras do mundo a oferecer à sua população iluminação pública elétrica.

As ruas brasileiras à noite eram iluminadas por lamparinas de azeite, óleo de baleia ou em alguns casos, gás encanado, até que exatamente no dia 24, Dom Pedro II foi a Campos dos Goytacazes, acionou as chaves de uma usina térmica localizada às margens do Paraíba do Sul e o Império do Brasil deu um salto para o futuro.

Foi um começo modesto, diga-se de passagem. Mas que vale como símbolo de que o Brasil estava pronto para deixar de ser um país à luz de velas e ambicionar saltos maiores. E se no século XIX a eletricidade não era só assunto da aula de física, mas metáfora de progresso, Campos dos Goytacazes a acendeu antes de todo mundo.

Beira-Rio foi uma das localidades de Campos a receber lâmpadas de arco voltaico | Crédito: Reprodução

Campos dos Goytacazes foi mesmo a primeira cidade a ter luz elétrica?

Sim, Campos tornou-se a primeira cidade da América Latina a receber luz elétrica pública em 24 de junho de 1883, quando uma usina térmica alimentou lâmpadas destinadas à iluminação das ruas da cidade.

E ainda figura entre as cinco primeiras do mundo. Disputando o título com cidades da Inglaterra, Estados Unidos, França e Alemanha. A polêmica entre os historiardes é grande, porque muitos sistemas eram quase experimentais, mas no fim das contas Nova York é considerada a primeira a ter luz elétrica na rua, em 1882, seguida pela nossa Campos.

Como funcionava o sistema elétrico das ruas de Campos?

A cobertura inicial abrangia 39 lâmpadas de arco voltaico (cada uma com cerca de 2 mil velas de intensidade) distribuídas em pontos estratégicos da cidade como a entrada da Rua dos Goytacazes, Beira-Rio, Ilha dos Lázaros, Rua Direita, entre outros. 

A energia vinha de uma usina térmica movida a vapor, acionando três dínamos gerando uma potência de cerca de 52 kW.

Praça São Salvador, em Campos dos Goytacazes | Crédito: Reprodução

Por que usaram uma térmica?

Porque no fim do século XIX no Brasil a infraestrutura de hidrelétricas ainda era incipiente e bem mais cara de implantar, além de depender de quedas d’água, linhas de transmissão mais sofisticadas e redes de distribuição.

Já o sistema térmico era direto: caldeira, vapor, motor a vapor, dínamos, lâmpadas. As fontes permitiam instalar o sistema “onde fosse preciso” sem depender tanto do relevo.

Mas a Guanabara, capital do Império, não conhecia iluminação elétrica?

Bom, em 1879 foi inaugurado na Guanabara o primeiro serviço permanente de iluminação elétrica no país, a Estação da Estrada de Ferro D. Pedro II (atual Central do Brasil).

Nela foram instaladas seis lâmpadas de arco voltaico “velas Jablochkoff” que substituíram 46 jatos de gás. Em 1881, outras 16 lâmpadas foram instaladas no Campo da Aclamação alimentadas por térmicas com dínamos. 

 Mas esse sistema era limitado, localizado e longe de ser um sistema amplo de iluminação pública da cidade. Muitos historiadores distinguem entre “instalação elétrica” e “serviço de iluminação pública em rede municipal”.

Em Campos o salto era para iluminação pública regular, com usina própria, rede de distribuição. Portanto, mesmo o Rio tendo conhecido eletricidade antes, Campos mereceu o título de primeiro sistema municipal de iluminação elétrica pública em escala urbana na América Latina.

Quando foi construída a primeira hidrelétrica do Brasil?

A primeira usina hidrelétrica brasileira de que há registro entrou em operação em 1883 no ribeirão do Inferno, afluente do rio Jequitinhonha, em Diamantina, Minas Gerais.

No entanto, ela tinha caráter restrito de fazer funcionar bombas de desmonte de mineração. A primeira hidrelétrica destinada ao serviço público comercial foi a usina Usina Hidrelétrica Marmelos inaugurada em Juiz de Fora, em 1889.

E quando, afinal, a Guanabara passou a usar eletricidade na iluminação pública?

A capital começou a instalar iluminação elétrica pública em partes da cidade somente a partir de 1904.

Portanto, embora na cidade já existisse eletricidade antes, a transição para iluminação pública urbana em larga escala só ocorreu já no início do século XX.

Isso só reforça o pioneirismo de Campos dos Goytacazes: uma pequena cidade no interior avançando tecnologicamente do grande centro urbano da época.

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