Corria o ano de 1911 quando as mulheres da Guanabara resolveram vestir uma novidade que prometia muito mais do que simplesmente aquecer as pernas: as calças compridas chegavam ao Rio, e com elas, uma enxurrada de polêmicas, piadas, perseguições e, claro, muito estilo. O que hoje parece uma peça banal do guarda-roupa feminino, na época foi capaz de mobilizar a imprensa, dividir opiniões e até render concursos de “opinião masculina autorizada” sobre o assunto. A tal jupe-culotte (ou saia-calça) desembarcou na então capital federal pelas mãos de uma modista ousada e virou o centro dos debates sociais mais acalorados do ano.

Como mostra o historiador João Braga em seus estudos sobre moda no Brasil, o Rio acompanhava com atenção as novidades francesas, replicando-as com rapidez surpreendente para os padrões da época. Mas o humor dos jornais não escondia o desconforto social: mulheres que ousavam vestir a peça eram alvo de comentários maldosos, olhares atravessados e até perseguições. Afinal, vestir calças era, para muitos, uma invasão do território masculino. O Rio, ainda fortemente influenciado pela alta-costura parisiense, via-se diante de um dilema: seguir a moda internacional ou preservar seus códigos locais de pudor.

E, como sempre acontece quando a moda desafia costumes, a polêmica virou espetáculo. As ruas cariocas tornaram-se passarela improvisada, onde cada jupe-culotte era julgada como se fosse um ato político. Os anos passaram e as calças femininas se consolidaram sem pedir licença a ninguém. Mas o riso, a sátira e o escândalo se misturavam, mostrando que moda nunca foi apenas sobre tecidos, mas sobre poder, gênero e liberdade.

Anúncio de moda da Casa Raunier | Crédito: Reprodução

O primeiro choque cultural

Na virada de 1910 para 1911, surgem na Europa as jupe-culottes impulsionadas pelo estilista francês Paul Poiret, que defendia a libertação do corpo feminino dos espartilhos e das armações rígidas. A novidade repercutiu rapidamente na imprensa europeia e, segundo registros dos jornais da época, chegou ao Rio meses depois.

A jupe-culotte era visualmente ambígua: à primeira vista parecia uma saia longa e volumosa; ao caminhar, revelava-se dividida em duas pernas amplas. O corte buscava preservar certa aparência de recato, embora permitisse maior mobilidade.

Alguns modelos tinham sobreposições que escondiam a divisão frontal. Outros eram mais evidentes, causando maior controvérsia. Fotografias publicadas em revistas europeias entre 1911 e 1913 mostram peças amplas, presas à cintura alta, muitas vezes acompanhadas de turbantes ou blusas orientais.

Poiret declarava-se inspirado em trajes do Oriente Médio e do Norte da África, especialmente nas calças largas associadas à indumentária turca e persa. Esse orientalismo fazia parte de uma tendência mais ampla nas artes europeias do período, influenciada também pelos espetáculos dos Ballets Russes de Sergei Diaghilev.

A chamada “calça harém” ou jupe-culotte tinha, portanto, uma referência estética oriental reinterpretada com total liberdade poética (digamos assim) pela alta-costura francesa. Autores como Valerie Steele e João Braga apontam que a peça foi vista como exótica e ousada, reforçando tanto fascínio quanto rejeição.

Como foi a chegada ao Rio?

Segundo registros da Gazeta de Notícias e do Jornal do Brasil, as sofisticadas casas de moda francesas estabelecidas na Rua do Ouvidor muito rapidamente comercializaram versões da peça. De acordo com as colunas sociais de então, Madame Lespinasse, modista da tradicional loja de artigos de luxo Casa Raunier, é considerada uma das principais difusoras da nova tendência na Guanabara.

Mas chega da mais nova moda de Paris não foi exatamente bem recebida nos trópicos. Crônicas de 1911–1912 relatam zombarias e comentários jocosos dirigidos às primeiras usuárias. O tom variava entre o humor e a crítica moral. A imprensa ilustrada frequentemente tratava o tema como curiosidade extravagante.

 A maior acusação era de que as calças conferiam às mulheres um “ar masculino” carregava, nas entrelinhas, o peso do desvio não apenas estético, mas comportamental e moral. A história da moda documenta que a relação entre calças femininas e lesbianismo foi, durante décadas, um tabu poderoso usado para desencorajar mulheres a adotar a peça. 

O que, na verdade, era uma grandessíssima bobagem.

Mulheres passaram a ousar no vestuário com as jupe-culottes | Crédito: Reprodução

Como assim?

Muito antes de se tornarem objeto de desejo das revistas de moda, as calças já eram uma realidade para algumas trabalhadoras, por absoluta falta de alternativa. Nas minas de carvão da Inglaterra e da França do século XIX, as mulheres vestiam calças como parte de seu uniforme de trabalho, não por escolha estética, mas porque as saias eram impraticáveis e perigosas nos túneis apertados e sujos das minas.

Essas trabalhadoras, no entanto, não eram vistas como pioneiras da moda ou ícones de liberdade. Eram, na melhor das hipóteses, invisíveis aos olhos da sociedade respeitável. Suas calças eram toleradas porque associadas ao trabalho braçal, à pobreza e à necessidade.

Quando mulheres de classes mais altas começaram a adotar a peça, aí sim o alarme soou: se as senhoras “de família” estavam usando calças, o que seria do mundo?

A revolução silenciosa

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) funcionou como uma aceleração histórica para o uso de calças femininas. Com os homens nos campos de batalha, as mulheres assumiram postos de trabalho nas fábricas, nos transportes e em diversas atividades até então exclusivamente masculinas.

E, para trabalhar, precisavam de roupas adequadas, o que significava, invariavelmente, calças e macacões. A peça, até então restrita ao universo masculino operário, tornou-se uma vestimenta comum entre as mulheres que trabalhavam na indústria bélica e em outros setores essenciais. Isso se repetiu na 2ª Guerra.

Mas o que ninguém esperava era que, acabada a guerra, a indústria da moda, rápida em perceber novos mercados, começou a anunciar “vestidos para o lar” que, na prática, eram calças ou macacões apresentados de forma mais palatável à moral da época. A estratégia de marketing era clara: oferecer a peça como uma roupa íntima, doméstica, mas que não deveria jamais ser usada em público.

Quebrando tabus

Marlene Dietrich, a deusa loira do cinema alemão que conquistou Hollywood, não foi exatamente a primeira atriz a usar trajes masculinos, mas certamente foi a que o fez com mais estilo e impacto. Em 1930, durante as filmagens de “Marrocos”, ela apareceu de fraque e cartola, beijando uma mulher na boca. Uma cena que chocou a América puritana e a transformou em ícone absoluto da ambiguidade fashion.

Dietrich elevou a calça a um novo patamar: não era mais uma peça utilitária ou uma excentricidade de algumas mulheres vanguardistas, mas sim um símbolo de sofisticação, poder e, acima de tudo, escolha pessoal. Ao lado de outras atrizes como Katharine Hepburn e Greta Garbo, ela ajudou a popularizar a silhueta andrógina e a mostrar que uma mulher podia ser elegantíssima vestindo até aquilo que então era prerrogativa exclusivamente masculina.

Marlene Dietrich: atriz foi pioneira no uso de calças femininas | Crédito: Reprodução

O retrocesso fracassado (em parte)

Em 1947, a Maison Dior lançou o “New Look”, que de new não tinha nada. Era uma proposta que celebrava a feminilidade mais tradicional, com saias extremamente rodadas, cinturas marcadas e uma profusão de tecidos que contrastava violentamente com a escassez dos anos de guerra. Foi uma tentativa explícita de fazer as mulheres voltarem a usar saias e abandonarem as calças que adotaram durante o conflito.

A estratégia da Dior e de outros estilistas do período funcionou em parte: o luxo e a sofisticação das saias armadas conquistaram muitas mulheres, especialmente na alta sociedade. Mas as calças não desapareceram, apenas recuaram para espaços mais informais, aguardando o momento certo para um retorno triunfal.

A batalha entre saias e calças estava longe de terminar.

O jogo mudou, não é mesmo?

A década de 1950 foi, contraditoriamente, de consolidação para as calças femininas. Embora a moda dominante insistisse nas saias rodadas e na silhueta ampulheta, as calças conquistaram seu espaço como roupa informal, de lazer e, principalmente, como símbolo de uma nova mulher que emergia no pós-guerra: mais independente, mais trabalhadora e menos disposta a se submeter aos ditames da moda tradicional.

Nos anos 1960, as calças ganharam novos nomes e novas formas. A cigarette era uma calça reta e justa, geralmente com vinco marcado, que lembrava o formato de um cigarro. Era sofisticada, elegante e frequentemente usada com salto alto, num visual que equilibrava a androginia da peça com elementos claramente femininos.

Já a calça corsário, que viria um pouco depois, era mais curta, geralmente na altura da batata da perna, e foi batizada em homenagem aos navegadores em uma referência à liberdade e à aventura. Ambas representavam a diversificação do guarda-roupa feminino: as mulheres já não usavam apenas um tipo de calça, mas podiam escolher entre diferentes modelagens para diferentes ocasiões.

E as calças jeans, claro, mereceriam uma reportagem só para elas.

Enquanto isso, na Guanabara…

Às margens da Guanabara, entretanto, de onde se ditava a moda usada em todo o Brasil, a consolidação foi bem mais lenta. Segundo os relatos dos jornais da época, ainda nos anos 1950 e 1960, mulheres eram severamente repreendidas por usar calças em determinados ambientes.

Depoimentos disponíveis no Museu do Ipiranga, descrevem algumas situações. Uma professora precisou trocar de roupa porque o diretor de sua escola não permitia que ela desse aulas de calças; outra senhora, já nos anos 1960, lembra que comprou uma calça para viajar ao Rio e a pequena cidade onde morava praticamente parou, chocada com tamanha ousadia.

Acredite se quiser, mas até os anos 1970 usar calças ainda era tabu para as mulheres em muitos lugares do Brasil. Os relatos se multiplicam: uma senhora conta que sua avó, além de ser desquitada (outro tabu enorme para a época), usava calças compridas, o que era considerado um verdadeiro escândalo. Sua mãe, nascida no Rio em 1918 e formada em medicina, sentia vergonha da própria mãe por causa disso.

O preconceito era tão arraigado que atravessava gerações e atingia até mulheres consideradas progressistas em outros contextos.

Entra em cena a cultura pop

A cultura pop dos anos 1970, incluindo o cinema e a música das discotecas, consolidou definitivamente a calça feminina como peça universal. Filmes como Os embalos de sábado à noite mostraram ao mundo mulheres dançando de calças, se divertindo de calças, sendo sexy de calças.

A era disco, com seus brilhos, liberdades e celebração do corpo, adotou a calça como peça fundamental com modelagens justíssimas que brilhavam nas pistas. A partir dali, não havia mais volta. As calças estavam incorporadas definitivamente ao guarda-roupa feminino, prontas para novas batalhas que viriam, claro, em outras frentes.

Hoje, quando vemos uma mulher de calça andando tranquilamente pelas ruas de Ipanema, talvez ela não imagine que cada passo seu carrega mais de um século de história, lutas, tabus e, acima de tudo, a coragem de tantas mulheres que, um dia, ousaram vestir uma peça de roupa e, com isso, mudaram o mundo.

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