Empresa ligada a brasileiro sancionado pelos EUA movimentou R$ 29,3 bilhões sem funcionários, aponta PF

Operação Exchange investiga suposto esquema internacional de lavagem de dinheiro ligado ao tráfico de drogas; investigação brasileira, entretanto, cita o PCC apenas uma vez em 79 páginas

Uma empresa apontada pela Polícia Federal (PF) como peça central de um suposto esquema internacional de lavagem de dinheiro movimentou R$ 29,3 bilhões entre janeiro de 2021 e agosto de 2024, apesar de não possuir funcionários registrados. O dado consta na representação que embasou a Operação Exchange, deflagrada na semana passada, e envolve Victor Henrique de Oliveira Shimada, brasileiro recentemente sancionado pelo governo dos Estados Unidos por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Segundo a investigação, a empresa Hi Quality Importação, Comércio e Distribuição teria sido utilizada para lavar recursos provenientes do tráfico internacional de drogas, principalmente haxixe. No período analisado, a companhia foi alvo de 645 comunicações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) por movimentações consideradas atípicas.

As investigações brasileiras, entretanto, diferem da justificativa utilizada pelas autoridades estadunidenses para impor sanções ao grupo. Embora o governo dos Estados Unidos tenha relacionado Shimada ao PCC, a representação da Polícia Federal faz apenas uma referência à facção criminosa ao longo de suas 79 páginas. As informações são do portal Metrópoles.

Empresa sem funcionários movimentou bilhões

De acordo com a Polícia Federal, a Hi Quality Importação, Comércio e Distribuição está formalmente registrada em nome de Ygor Fokin Saviolli, preso pelo FBI em janeiro deste ano no aeroporto de Fort Lauderdale, na Flórida. Ele é apontado pelos investigadores como um dos líderes da organização, ao lado de Victor Henrique de Oliveira Shimada.

As apurações indicam que a empresa operava sem possuir empregados cadastrados na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), mas ainda assim registrou movimentações financeiras bilionárias.

“O investigado Ygor utiliza, de acordo com o HSI, a conta da empresa Hi Quality Importação Comércio e Distribuição Ltda. para receber depósitos de dinheiro proveniente da venda de haxixe e, assim, promover a lavagem de capitais decorrente dessa atividade ilícita. A empresa Hi Quality não possui empregados cadastrados na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e, ainda assim, foi citada em 645 comunicações que somam R$ 29.306.589.876,00”, diz a Polícia Federal.

Segundo os investigadores, parte dessas movimentações envolvia transferências em que Ygor aparecia alternadamente como remetente e beneficiário.

A PF também afirma que contas bancárias vinculadas à empresa, registradas em nome de Anderson Gonçalves Amaral, apontado como laranja da organização, eram frequentemente utilizadas pelo grupo para realizar pagamentos relacionados à comercialização internacional de entorpecentes.

Celular apreendido nos EUA revelou o esquema

As investigações tiveram início após a prisão de Ygor Fokin Saviolli pelo FBI, nos Estados Unidos.

No momento da prisão, agentes apreenderam seu telefone celular, onde foram encontrados fotografias e vídeos mostrando grandes quantias em dinheiro, além de mensagens criptografadas que, segundo as autoridades, indicavam atividades ligadas ao narcotráfico.

A partir dessas informações, o Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) notificou a Polícia Federal brasileira sobre a existência de uma investigação envolvendo cidadãos brasileiros suspeitos de integrar uma organização especializada em lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada e movimentação de recursos em espécie.

Com base nessas informações, o Grupo Especial de Investigações Sensíveis (Gise), da PF, aprofundou as apurações e concluiu que Saviolli e Shimada comandariam a estrutura financeira investigada por intermédio das empresas Victory Trading e Hi Quality, que possuem o mesmo contador.

Sanções dos EUA anteciparam operação da PF

No dia 1º de julho, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou sanções financeiras contra Victor Henrique de Oliveira Shimada, a secretária Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira e a empresa Victory Trading.

Segundo integrantes da Polícia Federal, a divulgação pública da medida acabou interferindo na estratégia da Operação Exchange.

Os mandados judiciais já haviam sido autorizados pela Justiça Federal desde junho, mas os investigadores aguardavam o momento considerado mais adequado para localizar Shimada e cumprir as ordens judiciais.

“A foto dele saiu em tudo o que é jornal. Isso não ajudou muito. O caso é anterior à sanção. Ele (Shimada) não estava no local”, afirmou uma autoridade da Polícia Federal ao Metrópoles em reservado.

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, também afirmou que a decisão do governo norte-americano alterou o planejamento da operação.

“Alterou a nossa ação. Houve uma antecipação. Mas, de fato, se não houvesse essa designação, talvez o desfecho fosse outro e nós teríamos localizado essa pessoa [Shimada], mas infelizmente não localizamos. Então, houve prejuízo à investigação”, declarou.

“Já estavam em curso. Tem uma investigação nos Estados Unidos que também já estava em andamento, assim como essa nossa da PF. Em razão da publicação, tivemos que adiantar e deflagrar a operação hoje”, afirmou.

Investigação brasileira faz apenas uma referência ao PCC

Apesar de as sanções impostas pelos Estados Unidos associarem Victor Henrique de Oliveira Shimada ao Primeiro Comando da Capital (PCC), a investigação conduzida pela Polícia Federal brasileira praticamente não trata dessa ligação.

Segundo a representação apresentada à Justiça Federal, o PCC aparece citado apenas uma vez em todo o documento de 79 páginas.

A única menção ocorre durante a descrição de uma conversa entre Shimada e outro investigado, Carlos Henrique Costa Almeida, apontado pela PF como intermediário em operações de remessa de grandes valores ao exterior.

De acordo com o documento, Almeida teria perguntado a Shimada “se teria euro para vender, pois um indivíduo que seria ex-membro da organização criminosa PCC, estaria solicitando esse tipo de serviço, a fim de receber cerca de um milhão no Brasil”. Conforme o relato da investigação, Shimada respondeu que tentaria organizar a operação.

Esse é o único trecho em que a facção criminosa é mencionada na representação da Polícia Federal. A referência, contudo, trata de um suposto ex-integrante da organização, e não de um membro em atividade.

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