A vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, foi condenada pelo Tribunal Federal Oral nº 2, a seis anos de prisão por supostos desvios de verba em obras públicas. Além disso, Kirchner não poderá se exercer nenhum cargo público para o resto da vida. Ela foi inocentada do delito de associação criminosa. A decisão cabe recurso.
A ex-presidenta, que já atravessou diversos processos judiciais nos últimos anos, enfrenta agora o primeiro caso que chega a julgamento.
Trata-se de mais um caso de lawfare e que o poder concentrado busca a proscrição política de Cristina Kirchner, principal liderança popular atualmente na Argentina.
Kirchner considera que sua sentença “já está escrita” desde o início do processo, aberto em 2019 durante o mandato de Mauricio Macri (Juntos por el Cambio). Algo que ela disse em sua primeira audiência no processo e que voltou a repetir em sua última declaração de defesa, instância intitulada como “Últimas palavras” pelo tribunal.
“Nunca um termo judicial foi tão apropriado para definir o que é esse processo judicial e esse tribunal, Ministério Público incluído”, ironizou durante a declaração, transmitida de seu gabinete. “Se no dia 2 de dezembro de 2019, quando falei pela primeira vez perante este tribunal, eu disse que era o tribunal do lawfare, depois de tudo o que aconteceu, e a mim em particular, devo dizer que fui muito generosa. Na verdade, isto é um verdadeiro pelotão de fuzilamento.”
Pela primeira vez durante este processo, a vice também relacionou este caso ao atentado que sofreu no último dia 1º de setembro, quando uma arma foi engatilhada, sem sucesso, a centímetros de sua cabeça. A tentativa de magnicídio aconteceu em frente à sua casa, em uma vigília de apoiadores que protestavam, justamente, contra este processo judicial. A investigação está travada desde que surgiram indícios de conexão entre políticos da coalizão de Macri com os detidos pela tentativa de assassinato, algo que também é denunciado pela vice-presidenta.
“Os senhores juízes e promotores dirão: ‘que exagerada, pelotão de fuzilamento’”, continuou Kirchner. “Mas, vejam, não sou a única que interpreta assim. Doze dias após esse 1º de setembro, o jornal Clarín, em sua edição de 12 de setembro, nos presenteia esta capa: ‘a bala que não saiu e a sentença que, sim, sairá’. Vejam se não há uma identificação entre um fuzilamento e este processo.”
Em um processo repleto de irregularidades, a acusação pede pena de 12 anos de prisão. Organizações políticas e a militância peronista já preparam uma mobilização para acompanhar o veredito, que será conhecido na manhã de terça-feira (6).
“Há uma decisão política de condenar Cristina”, ressalta o secretário-geral da Central dos Trabalhadores da Argentina (CTA), Hugo Yasky, deputado federal pela Frente de Todos e sindicalista próximo a Cristina Kirchner. “A absolvição de Cristina é uma possibilidade remotíssima, apesar de que a defesa demonstrou a inconsistência dos argumentos da procuradoria”, afirma ao Brasil de Fato.
“O que estamos vivendo na Argentina é muito similar ao que vimos no Brasil, com a prisão de Lula”, afirma Yasky. “Cristina Kirchner não é apenas a vice-presidenta em exercício, ela é a principal figura política e do campo popular deste país. O ataque contra Cristina vai gerar rejeição em amplos setores, e com certeza isso irá aprofundar a polarização que existe no nosso país. A democracia entra em uma espécie de estresse, um dano que faz com que, todos os dias, as pessoas deixem de acreditar na justiça e nas instituições democráticas.”





