Em 2023, crimes de extorsão cresceram 42% no RJ; principal causa é a exploração de territórios pelo crime organizado

Foram 3.264 notificações de extorsão, maior número de registros contra essa prática criminosa em 20 anos.

A chegada de dois homens ao salão acende o alerta em Carlos (nome fictício). Há 11 anos, a visita é feita todo sábado, sempre ao fim da tarde. Ele se aproxima do caixa, recolhe R$ 20 e espera a entrada de um dos rapazes. “Boa tarde. É segurança”, avisa o sujeito. O cabeleireiro entrega a quantia e se despede, sem demorar em conversas. Uma semana depois, acontecerá o mesmo, assim como a perda de R$ 80 todo mês no pequeno estabelecimento em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio.

Classificada como extorsão no Código Penal, essa cobrança tem sido cada vez mais comum no estado, principalmente na Zona Oeste da capital, onde houve aumento de casos em 26 bairros. Em 2023, o crime teve o maior número absoluto de registros desde o início da série histórica há 20 anos pelo Instituto de Segurança Pública (ISP). Foram 3.264 notificações, um crescimento de 42% em relação ao ano anterior.

Segundo a Polícia Civil, a expansão dos registros se deve, em parte, à exploração dos territórios por organizações criminosas, como as milícias e facções do tráfico de drogas. Há também casos em que pessoas mal intencionadas fingem ser membros dessas quadrilhas para conseguir lucro financeiro.

‘É uma indignação’

Carlos mora em Campo Grande há 17 anos, onde decidiu, em 2013, alugar um espaço e abrir o salão. O bairro é conhecido por ser reduto da milícia, primeiro com a Liga da Justiça, depois, após prisões, desavenças e substituições dos integrantes, com a Família Braga, do miliciano Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho.

No início, conta o cabeleireiro, não havia nenhuma cobrança de taxa, mas, depois de um ano e meio, um homem apareceu no local cobrando R$ 10. Ao fim, avisou que, a partir daquela data, o valor seria recolhido presencialmente todos os sábados. Para justificar a arrecadação indevida, explicou ser para a segurança do estabelecimento.

Após cinco anos trabalhando no local, a taxa cobrada a Carlos passou a R$ 15. Segundo ele, os milicianos do bairro esperam o comércio “fixar” para depois iniciar a cobrança e, com o passar do tempo, ir aumentando o valor. Atualmente, ele paga R$ 20 aos criminosos, e cobra R$ 40 pelo corte de cabelo.

— No início, ninguém aparece, eles esperam o ponto fixar, dar certo. Depois, quando você já está conhecido na rua, tem clientela, eles aparecem na sua porta exigindo o pagamento. Geralmente, são dois homens, em carro ou moto, de “cara limpa”, sem esconder o rosto — explica Carlos.

Certa vez, ele não foi ao salão e se esqueceu de entregar a taxa à manicure que iria receber os milicianos:

— Ela me ligou desesperada, dizendo que o homem a tinha ameaçado e que iria cobrar o dobro na próxima vez. Eu expliquei a situação, disse onde estava o dinheiro e tentei acalmá-la. No sábado seguinte, tentei conversar com o rapaz, disse que não havíamos feito por mal. Ficou um medo de que pudessem fazer algo contra nós. A gente trabalha para dar dinheiro a bandido.

Naquela época, o salão funcionava em outro imóvel alugado e, assim como Carlos, o proprietário também era cobrado. Mas, ao contrário dele, o homem se recusava a pagar a quantia, o que o fez ficar visado entre os milicianos, suspeitos de terem roubado um carro comprado recentemente por ele:

— Se você paga, fica tranquilo, mas é uma indignação, sabe? Agora, se não paga, uma coisa ruim pode acontecer. É melhor não arriscar. A gente não pode provar, mas sabemos que foi um dos milicianos que levou o carro; não ficou nada pra contar história.

Segundo dados do ISP, a 40ª Área Integrada de Segurança Pública (Aisp), formada por Campo Grande, Cosmos, Inhoaíba, Santíssimo e Senador Vasconcelos, registrou aumento de cerca de 25%, saindo de 95 casos, em 2022, para 119, no ano passado.

Além de Campo Grande, outros 25 bairros da Zona Oeste tiveram aumento de registros de extorsão. Os principais ficam na 18ª Aisp, como Bangu, Gericinó, Padre Miguel, Senador Camará, Vila Valqueire, Praça Seca, Tanque, Anil, Cidade de Deus, Curicica, Gardênia Azul, Jacarepaguá e Taquara. Neles, o crescimento foi de 37%: de 186 casos, em 2022, para 256 , em 2023.

Empresas como alvo

Além de moradores e comerciantes, as extorsões também costumam ser praticadas contra empresas. Em 9 de janeiro, o prefeito Eduardo Paes denunciou, pelas redes sociais, a cobrança indevida de R$ 500 mil à empreiteira responsável pelas obras no futuro Parque Piedade, na Zona Norte do Rio. O crime, cometido por traficantes de uma facção, foi feito sob ameaça: caso a construtora não efetuasse o pagamento, as obras seriam paralisadas. A denúncia está sendo apurada pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco), e as obras prosseguem.

A construção do Parque Piedade começou em setembro, com a demolição de dois prédios que pertenciam ao antigo Colégio Piedade, dentro de uma área de cerca de 18 mil metros quadrados. No terreno, ficava o campus da Universidade Gama Filho (UGF), abandonado desde 2014, com a falência da instituição privada de ensino. A promessa da prefeitura é de que o novo parque seja inaugurado até o fim de 2025, a um custo de R$ 58 milhões.

O projeto, a cargo da Secretaria municipal de Infraestrutura, prevê a implantação de áreas de lazer para atender moradores do bairro de Piedade e adjacências, além de um centro cultural, esportivo e educacional, erguido em parceria com a Fecomércio. Haverá ainda espaço para feiras e eventos, academia, campo de futebol, pista de skate, parque infantil e parque aquático com cachoeira artificial.

Em nota, a Polícia Civil informou que “o aumento nos casos de extorsão nas regiões citadas se explica, em parte, à exploração de territórios por organizações criminosas, sejam milícias, que tradicionalmente fazem cobranças ilegais, ou facções do tráfico de drogas que vêm adotando tal prática”. Disse ainda que “todos os casos comunicados são investigados pelas delegacias distritais, bem como pela Draco e pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE). As equipes trocam informações, realizam trabalho de inteligência e fazem diligências para identificar e prender os envolvidos”.

Com informações do GLOBO.

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