Existem mortos que recebem as honras da República. Existem mortos que desaparecem antes mesmo de fechar os olhos. Não deixam discursos, não interrompem a rotina das cidades, não produzem escândalo, não constrangem os poderosos. Deixam apenas silêncio. O Brasil inventou para eles uma categoria que jamais apareceu em qualquer lei, mas organiza silenciosamente a vida nacional. Cadáver barato.
Eliane Brum passou a existência inteira recusando essa obscenidade.
Essa recusa explica sua obra com mais precisão do que os prêmios que recebeu, os livros traduzidos para diferentes idiomas ou o reconhecimento internacional que conquistou.
Seu jornalismo jamais aceitou a existência de vidas descartáveis. Sua literatura nunca permitiu que a morte fosse reduzida a um número. Cada página escrita por Eliane Brum desmancha a lógica que distribui importância conforme a renda, o sobrenome, a cor da pele, o endereço ou a utilidade econômica das pessoas.
Ela não procura personagens. Procura presenças. Personagens servem às narrativas. Presenças continuam respirando depois que o livro termina.
Uma fotografia esquecida sobre um armário, uma chaleira que continua no fogo depois da notícia da morte, um brinquedo que ninguém teve coragem de guardar, uma cadeira que permanece vazia durante o jantar ou um par de sandálias coberto pelo barro de um barranco amazônico dizem mais sobre um país do que muitas bibliotecas especializadas em explicá-lo.
As almas esquecidas vivem exatamente nesses lugares. Vivem onde quase ninguém decide permanecer tempo suficiente para ouvir. Estão nas cozinhas, nas margens dos rios, nas enfermarias, nas aldeias, nos bairros abandonados pelas políticas públicas, nas casas em que o relógio continua marcando a hora de alguém que nunca mais voltará.
O mundo passa depressa por esses lugares. Eliane Brum permanece. Permanecer é um gesto de inteligência, mas também de afeto. Permanecer significa aceitar que nenhuma vida revela seu sentido à primeira vista.
Por isso Altamira nunca me pareceu um detalhe de sua biografia.
Ela não escolheu a Amazônia dos folhetos turísticos, das metáforas fáceis nem das contemplações confortáveis. Escolheu Altamira, onde a floresta deixou de ser paisagem para se transformar em conflito, onde o rio testemunha, onde a terra conserva a memória das disputas e onde o futuro do Brasil continua sendo negociado entre a coragem de alguns e a ganância de muitos.
Existem lugares que oferecem respostas. Altamira oferece perguntas. Eliane Brum decidiu morar dentro delas.
Essa escolha ilumina sua obra inteira. Enquanto tantos observam a realidade protegidos pela distância, ela aceitou viver no ponto em que a vida deixa de caber nas categorias prontas.
Descobriu que uma árvore derrubada modifica uma comunidade inteira, que uma criança indígena pode revelar mais sobre o país do que uma sucessão de discursos parlamentares e que um corpo encontrado à margem de uma estrada jamais é apenas um corpo. Carrega uma família interrompida, uma mesa desfalcada, uma memória ameaçada e uma pergunta dirigida a todos nós.
Cadáver barato nunca foi apenas uma expressão.
É uma tecnologia da indiferença.
É a forma pela qual sociedades desiguais administram a própria consciência. Primeiro retiram o nome. Depois retiram a história. Em seguida retiram a importância. Por fim retiram o luto.
Eliane Brum passou a vida inteira sabotando esse mecanismo. Cada reportagem restitui um nome ao anonimato. Cada livro devolve espessura ao que parecia condenado ao desaparecimento. Cada encontro reafirma que nenhuma vida pode ser medida pelo espaço que ocupa nas manchetes ou pelo interesse que desperta nos mercados.
Sua escrita possui uma delicadeza que jamais suaviza a realidade. Ao contrário. É justamente essa delicadeza que lhe permite enxergar aquilo que a brutalidade perdeu a capacidade de ver.
Um país inteiro pode caber no silêncio de uma mãe diante da cama vazia do filho, no gesto paciente de um ribeirinho remendando sua canoa, na fumaça fina que sobe de uma cozinha enquanto a floresta continua decidindo o destino de todos nós.
Algumas inteligências precisam aumentar a voz para serem percebidas. Eliane Brum apenas aproxima o ouvido. Nesse instante, a realidade começa a falar.
Sua singularidade na cultura brasileira nasce dessa fidelidade. Ela ampliou o jornalismo porque ampliou nossa capacidade de atenção. Ampliou a literatura porque devolveu complexidade às vidas comuns. Ampliou o próprio Brasil porque obrigou o país a olhar para pessoas que sempre estiveram diante dos nossos olhos e, ainda assim, permaneciam invisíveis.
Enquanto o Brasil continuar produzindo cadáveres baratos, Eliane Brum continuará necessária. Não apenas porque escreve grandes livros ou realiza grandes reportagens, mas porque compreendeu que a morte mais cruel não acontece quando o coração para de bater. Ela acontece quando uma vida deixa de merecer memória.
Escutar as almas esquecidas nunca foi apenas seu ofício.
Foi sua maneira de impedir que elas morressem pela segunda vez.
* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ





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