A confirmação do retorno do fenômeno El Niño pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) acendeu um alerta para o setor elétrico brasileiro. Com 63% de probabilidade de alcançar intensidade considerada muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, o evento climático pode comprometer as reservas de água acumuladas nos últimos anos e provocar aumento nas tarifas de energia elétrica.
Embora o país ainda conte com reservatórios em níveis confortáveis, especialistas avaliam que o impacto mais significativo não deve ocorrer em 2026, mas sim ao longo de 2027, quando os efeitos do fenômeno sobre o regime de chuvas poderão comprometer a recuperação dos estoques hídricos.
Atualmente, os reservatórios das hidrelétricas do Nordeste operam próximos da capacidade máxima, enquanto os sistemas do Sudeste e Centro-Oeste — responsáveis pela maior parte do armazenamento de água para geração elétrica — também apresentam condições favoráveis.
Segundo especialistas, porém, essa situação pode transmitir uma sensação enganosa de segurança diante da intensidade prevista para o próximo ciclo do El Niño.
Reservatórios podem perder capacidade de recuperação
De acordo com meteorologistas, o período de maior influência do El Niño coincidirá justamente com a estação chuvosa do Sudeste e Centro-Oeste, que ocorre entre setembro e março. Esse intervalo é fundamental para a reposição dos reservatórios que abastecem o sistema hidrelétrico nacional.
A expectativa é de chuvas mais irregulares e abaixo da média em diversas regiões do país, especialmente nas áreas que concentram os principais reservatórios. Caso a recuperação hídrica seja insuficiente durante o verão, o sistema poderá enfrentar dificuldades ao longo do período seco de 2027.
Apesar das preocupações, especialistas descartam, neste momento, um cenário semelhante à crise hídrica enfrentada em 2021. A ampliação da matriz energética brasileira, com maior participação das fontes eólica e solar, contribui para reduzir os riscos de desabastecimento.
Uso de termelétricas pode pressionar tarifas
O principal impacto esperado para os consumidores está relacionado ao possível acionamento das usinas termelétricas. Essas unidades entram em operação quando os níveis dos reservatórios ficam baixos e a geração hidrelétrica se torna insuficiente para atender à demanda.
Como possuem custos operacionais mais elevados, as termelétricas influenciam diretamente o sistema de bandeiras tarifárias. Nessas situações, os encargos adicionais são repassados às contas de luz dos consumidores.
Além do aumento das tarifas, economistas e especialistas do setor apontam que o encarecimento da energia pode provocar efeitos indiretos sobre a inflação, elevando custos para empresas e consumidores em diversos segmentos da economia.
A preocupação é que a alta dos preços da eletricidade tenha impacto sobre toda a cadeia produtiva, pressionando índices inflacionários em um momento de recuperação econômica.
Excesso de energia hoje pode dar lugar à escassez amanhã
O cenário atual do sistema elétrico brasileiro é marcado por uma situação oposta à projetada para 2027. Em vários momentos, especialmente nos fins de semana e feriados, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem determinado cortes temporários na geração de energia devido ao excesso de oferta proveniente das fontes solar e eólica.
Recentemente, o operador chegou a adotar medidas emergenciais para gerenciar o excedente energético, reduzindo a produção de usinas conectadas à rede de distribuição.
No entanto, especialistas ressaltam que as fontes renováveis apresentam característica intermitente, dependendo das condições climáticas para produzir energia. Por isso, elas não substituem integralmente as fontes consideradas firmes e despacháveis, como hidrelétricas e termelétricas.
Quando há períodos prolongados de estiagem e aumento do consumo, o sistema necessita de fontes capazes de gerar energia continuamente, independentemente das condições meteorológicas.
Mudanças climáticas ampliam os efeitos do fenômeno
Meteorologistas alertam que o novo ciclo do El Niño poderá ocorrer em um planeta mais aquecido do que em eventos passados. Esse fator tende a potencializar extremos climáticos, ampliando tanto períodos de calor intenso quanto episódios de chuva severa.
A expectativa é de temperaturas acima da média em grande parte do território brasileiro, além de ondas de calor mais frequentes e prolongadas.
No Sul do país, o fenômeno pode provocar chuvas intensas e persistentes, ampliando o risco de enchentes e desastres naturais. Especialistas avaliam que os impactos podem atingir áreas mais amplas do que as observadas durante os eventos recentes.
Estados como Santa Catarina e Paraná também podem enfrentar episódios climáticos severos, além do Rio Grande do Sul, que sofreu com enchentes históricas em 2024.
Risco de tempestades e queimadas preocupa setor elétrico
Além da pressão sobre os reservatórios, o El Niño traz desafios adicionais para a infraestrutura energética brasileira.
No Sudeste e Centro-Oeste, a combinação de altas temperaturas e umidade favorece a formação de tempestades severas, acompanhadas por ventos fortes, granizo e descargas elétricas. Esses eventos podem causar danos à rede de distribuição e aumentar o número de interrupções no fornecimento.
Empresas do setor já intensificam o monitoramento meteorológico e reforçam protocolos de resposta rápida para minimizar impactos sobre os consumidores.
Já no início de 2027, outro risco ganha relevância: o aumento das queimadas. Com a redução gradual da umidade e o avanço de períodos mais secos, cresce a possibilidade de incêndios próximos às linhas de transmissão do Sistema Interligado Nacional.
Especialistas alertam que o fogo pode comprometer estruturas estratégicas, provocar desligamentos e aumentar a vulnerabilidade do sistema elétrico em diferentes regiões do país.
Enquanto isso, o ONS afirma manter acompanhamento permanente das condições hidrometeorológicas e destaca que a intensidade definitiva do fenômeno e seus impactos operacionais ainda dependem da evolução das condições climáticas nos próximos meses.






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