Em fevereiro de 1824, o Rio de Janeiro recebeu uma visita improvável: o rei do Havaí, Kamehameha II, em escala de uma viagem diplomática que ligava o Pacífico à Europa. À frente de uma pequena comitiva, o monarca buscava reconhecimento internacional e alianças que garantissem a soberania de seu reino diante do avanço russo. O que parecia uma simples parada técnica transformou-se em um raro encontro entre dois mundos: o Império do Brasil e uma monarquia insular recém-unificada do outro lado do mundo.

Dom Pedro I, ainda construindo sua imagem de soberano independente, tratou o visitante com todas as honras reservadas aos chefes de Estado. O rei havaiano ganhou uma espada cravejada de diamantes; o imperador recebeu, em troca, um manto cerimonial de penas tropicais, a mais alta insígnia de poder na cultura polinésia. Por alguns dias, a corte carioca se viu no centro de uma história global que misturava exotismo, diplomacia e curiosidade mútua.

A passagem do rei havaiano pela Guanabara, inicialmente prevista para durar três dias, estendeu-se por dezoito. Nesse intervalo, selaram-se gestos de amizade, trocas culturais e até o início de um curioso legado agrícola: as primeiras mudas de café levadas do Brasil ao Pacífico. Foi uma visita breve, mas suficiente para lembrar que, desde cedo, o Brasil já se via envolvido nos caminhos sinuosos da política e das ambições globais.

Estátua do Rei Kamehameha I, no Havaí | Crédito: Reprodução

Qual a história do Reino do Havaí?

O Reino do Havaí emergiu como entidade política organizada no início do século XIX, quando Kamehameha I, “o Grande”, unificou as ilhas principais e fundou a dinastia que levaria seu nome, hoje amplamente associado ao golpe icônico do personagem Goku, do famoso mangá e anime Dragon Ball.

Kamehameha adaptou tanto costumes locais quanto influências ocidentais, criando uma nobreza havaiana moderna e centralizada.

A presença de missionários, a alfabetização e o contato crescente com potências como a Grã-Bretanha e os Estados Unidos mostravam que o reino não vivia em isolamento mítico, mas estava inserido em fluxos globais de comércio e poder.

Em resumo, o Reino do Havaí era tradicional na origem, mas aspirava a se comportar como uma monarquia digna de figurar nos mapas diplomáticos do mundo.

Rei Kamehameha e Goku, da série Dragon Ball: personagem popularizou golpe com nome de rei | Crédito: Reprodução

Quem era o rei havaiano que veio parar no Brasil?

Kamehameha II, também chamado de Liholiho, subiu ao trono em 1819 após a morte de seu pai. Ele governou de acordo com uma lógica híbrida: embora seja rei, parte do poder administrativo ficava nas mãos da regente e chefe de gabinete, a favorita do pai do rei, que por acaso era também sua mãe.

Durante seu reinado curto, ele aboliu o antigo sistema Kapu, uma aberração polinésia de tabus religiosos rigorosíssimos. No Kapu, mulheres eram proibidas de comer alguns tipos de alimentos e pessoas comuns não podiam pisar na sombra (!) de um chefe.

Sua ambição culminou em uma viagem à Europa, com escala no Brasil, em busca de apoio militar contra a Rússia, e acabou se tornando a última grande aventura de sua vida.

Palácio Iolani abrigou últimos monarcas do Havaí | Crédito: Reprodução

O rato que ruge

Kamehameha II no fundo não queria ser rei. Sonhava em ser almirante ou comandante de uma frota naval e tinha uma coleção de navios.

Logo após subir ao trono, ele enfrentou uma insurreição em Kauai, a última ilha a integrar o reino. Só que a ameaça era maior. A rebelião de Kauai tinha o apoio financeiro e militar do Império Russo, que queria anexar o Havaí.

Kamehameha II escreveu ao czar Alexandre I cobrando satisfações e até enviou uma bela canoa esculpida de presente. Sem resposta, ele decidiu viajar à Europa em busca de ajuda internacional.

Ainda não havia o Canal do Panamá, e para chegar a Europa, Kamehameha e sua corte precisaram contornar o Cano Horn, na ponta sul das Américas e, na sequência, aproveitaram para fazer uma escala na Guanabara.

A chegada real ao Rio

Em fevereiro de 1824, o baleeiro L’aigle (A águia em francês) que conduzia corte havaiana atracou no porto do Rio onde Kamehameha II foi recebido com todas as pompas de Chefe de Estado em visita oficial ao lado de uma de suas esposas, a Rainha Kamāmalu, sua meia-irmã e favorita.

Kamehameha II foi recepcionado pessoalmente pelo Imperador Dom Pedro I, que, em um gesto de fraternidade, o presenteou com uma espada cravejada de diamantes com bainha de ouro. A Rainha Kamāmalu ganhou um colar diamantes.

Em igual gesto e como forma de agradecimento, o Rei presenteou o Imperador com uma “ʻAhuʻula” da própria Rainha Kamāmalu, um manto feito com penas de raras aves tropicais nativas do Havaí. A peça, de maior honraria na cultura havaiana, era reservada somente à classe governante na sociedade do ensolarado arquipélago.

Esta capa se manteve preservada e em exposição no Museu Nacional do Rio de Janeiro até ser destruída no incêndio que atingiu o prédio em 2018.

Manto tradicional havaiano foi destruído no incêndio no Museu Nacional | Crédito: Reprodução

Havaianos na Guanabara

E num dessas maluquices do destino, Dom Pedro e Kamehameha viraram BFFs. A estadia que estava planejada para durar apenas três dias durou 18. E só o Chalaça, famoso confidente do imperador, poderia contar o que essa dupla inusitada aprontou.

Kamehameha  ofereceu dois nobres de seu mais alto escalão para que fossem adotados por Dom Pedro I: os chefes Boki, governador da ilha de O‘ahu, e Kalanimoku seu primeiro-ministro. Os dois depois seguiram viagem, mas sua passagem pelo Rio foi inesquecível.

Durante a visita, Boki e Kalanimoku foram à praia, um costume natural para os havaianos, mas não para os brasileiros da época. Eles atraíram tanta atenção e olhares femininos que a Guarda Real os interpelou por “indecência”.

Dom Pedro, sendo Dom Pedro, achou graça e encerrou a controvérsia dizendo que não havia vergonha no que os havaianos fizeram, apenas nos pensamentos vergonhosos que as pessoas tinham sobre eles. A visita foi uma oportunidade para o monarca brasileiro difundir seu projeto de um Brasil multiétnico e progressista.

O café brasileiro no Havaí

O chefe Boki, de bobo, só tinha o nome. Ele reparou no potencial econômico de uma certa bebida estimulante que bombava aqui e levou as primeiras mudas de café para o Havaí.

A produção inicial, embora promissora, encontrou desafios de clima, solo e logística de exportação, além de competição internacional e custos de transporte.

Ainda que o café tenha hoje papel importante no Havaí, os primeiros esforços não se converteram de imediato em grande sucesso econômico para o reino.

Esta tentativa de diversificação agrícola mostra que o Havaí buscava integrar-se ao mercado global com dificuldade, como toda periferia geográfica enfrenta.

Que fim levou a viagem?

Em maio de 1824, os reis havaianos finalmente chegaram à Grã-Bretanha. Mas a recepção não foi tão calorosa quanto no Rio. Os ingleses faziam piadas com o nome do rei e não sabiam se deveriam tratá-lo a sério como chefe de Estado.

Enquanto aguardavam audiência com o rei George IV, a rainha Kamāmalu caiu de cama devido a um surto de sarampo. Ela morreu em 8 de julho, e Kamehameha II sucumbiu à doença seis dias depois.

Com a morte dos dois, Boki liderou a missão e conseguiu ser recebido por George 4º, que garantiu a proteção da soberania do Havaí, pelo menos por mais algumas décadas.

O Reino do Havaí terminou oficialmente em 1893, depois de quase 100 anos de existência como uma monarquia independente.  O fim foi resultado de pressões políticas e militares dos Estados Unidos, que financiaram dois golpes de estado, até anexaram oficialmente o arquipélago, durante o governo do presidente William McKinley, em 1898.

O Havaí virou território americano em 1900 e, em 1959, tornou-se o 50º Estado dos EUA.

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