Menos de uma hora. Esse é o tempo que um doador de sangue leva para salvar até quatro vidas. O processo é simples, seguro e pode fazer a diferença nas emergências, cirurgias e tratamentos contínuos. Ainda assim, nos dias de Carnaval, os estoques no Rio de Janeiro registram uma queda média de até 70%, segundo dados do Hemorio.

Os números baixos não são novidade. É comum, em datas sazonais, como Carnaval, Natal e Ano Novo, que os estoques tenham uma redução. No entanto, nesse mesmo período, os hospitais seguem funcionando em ritmo normal e, em alguns casos, com demanda ainda maior. Acidentes, cirurgias de alta complexidade e pacientes oncológicos continuam precisando de transfusões diariamente.

“A gente tenta manter um estoque de três dias. O ideal seria 7, mas é muito difícil. No Brasil, acho que ninguém consegue manter um estoque tão grande assim. Isso não é tão fácil de fazer porque depende da ação voluntária, sujeita a sazonalidade, intercorrências, por exemplo, climáticas…”, afirma Luiz Amorim, diretor-geral do Hemorio.

A instituição é responsável por coordenar a distribuição de sangue para mais de 200 hospitais públicos e unidades conveniadas ao Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o estado. No Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), referência em casos de alta complexidade, o impacto da queda nas doações também é sentido.

“Essas temporadas de férias e festas impactam diretamente, não conseguimos o número de doadores adequado para manter a rotina do hospital. O Pedro Ernesto tem muitos pacientes clínicos complexos, cinco unidades de terapia intensiva, um centro cirúrgico imenso com várias cirurgias, inclusive transplante de fígado, cardíaco, de medula… Então, quando não tem estoque, ficamos preocupados em como vamos atender essas pessoas”, enumera a doutora Flavia Bandeira, da hemoterapia do Hupe.

Os estoques no Rio de Janeiro registram uma queda média de até 70% | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

Da triagem à transfusão, a reportagem percorreu cada etapa da doação de sangue para mostrar o que acontece depois que o voluntário estende o braço. Especialistas explicam como funciona o processo, quanto tempo leva para uma bolsa ficar disponível e por que a redução nos estoques afeta diretamente quem depende de tratamento.

Do braço do doador ao leito do hospital

O caminho da bolsa até o paciente envolve uma engrenagem que funciona quase sem pausas. A coleta em si leva poucos minutos, mas o processo começa muito antes.

A bolsa passa por exames laboratoriais e é fracionada | Foto: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

“A doação é muito rápida, dura em média cinco minutos, a pessoa fica aqui 40 a 45 minutos porque tem a entrevista antes da doação, depois o lanche… Uma série de etapas. Depois que esse sangue é doado, aí a gente começa a separar as bolsas em diversos componentes”, explica Amorim.

A bolsa passa por exames laboratoriais e é fracionada em concentrado de hemácias, plaquetas e plasma. Cada um deles atende a uma necessidade específica.

“Mas além de fazer isso, a gente testa o sangue. Não só o doado aqui no Hemorio, mas o de todo estado e do Espírito Santo. Damos início a parte de grupo sanguíneo, exames para doenças infecciosas, uma série de testes. São várias etapas, mas elas não são consecutivas, são simultâneas. Tem ainda a etapa final, que é a conferência, se aquela bolsa pode ser usada”, detalha o diretor.

“Todo esse processo fica pronto no dia seguinte, então, quem doou agora de manhã, amanhã a bolsa já está pronta para doação.”

Luiz Amorim, diretor-geral do Hemorio
Luiz Amorim, diretor-geral do Hemorio | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

Entenda passo a passo

  1. Fracionamento: A bolsa de sangue total é centrifugada e separada em três componentes: concentrado de hemácias, concentrado de plaquetas, plasma
  2. Exames laboratoriais: são realizados exames para determinação do grupo sanguíneo e para detecção de doenças transmissíveis pelo sangue.
  3. Liberação da bolsa – após a realização dos exames laboratoriais, a bolsa de sangue é liberada para transfusão.
  4. Transfusão – o sangue é utilizado principalmente nas grandes emergências (acidentes de trânsito, por armas, hemorragias agudas, etc), nas cirurgias e em pacientes com doenças oncológicas e hematológicas.

O impacto nos hospitais quando falta doador

Quando o número de doadores cai, o impacto deixa de ser estatístico e passa a ser clínico. Dentro do hospital, a falta de bolsas significa rever agendas, reorganizar prioridades e, em alguns casos, adiar procedimentos.

“Procedimentos eletivos, infelizmente, chega a hora que a gente precisa adiar, até que tenhamos um número [suficiente]”, conta Flavia.

“Aqui no hospital temos muitos pacientes dependendo de transfusão. A maternidade de alto risco, com gestantes e recém-nascidos, a parte clínica com o serviço de hematologia, onde tratamos leucemias, linfomas, transplante de médulas. Pacientes com anemia falciforme, pacientes cirúrgicos…”, enumera a médica.

Só na área cardíaca, a pressão é diária. “Por dia, temos três a quatro cirurgias cardíacas agendadas. Demandam bastante transfusão de sangue. E outras de alta complexidade. Temos em torno de 30 a 35 transfusões por dia”, explica.

Flavia Bandeira, médica da hemoterapia do Hupe | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

 “Em um momento de emergência, a gente faz contato com a Hemorede e tenta conseguir esse sangue de todo jeito”, explica a profissional.

“Geralmente, procuramos manter o estoque mínimo de bolsas para a extrema urgência, e se não temos, vamos correr atrás da ajuda.”

Flavia Bandeira, médica da hemoterapia do Hupe

O tipo sanguíneo que salva nas emergências

O sangue O- é conhecido como “universal”, pois pode ser transfundido em praticamente qualquer pessoa em situações emergenciais. No Brasil, apenas cerca de 5% da população possui esse tipo sanguíneo, o que torna sua manutenção em estoque ainda mais desafiadora.

“Tem muito mais gente além desses 5% que precisam desse sangue. Esse é o sangue universal, pode ser usado para qualquer pessoa. Em uma emergência, não se tem tempo de tirar o sangue da vítima para saber o tipo sanguíneo. E aí começa a transfundir com o O negativo”, explica Luiz Amorim. Mas a preocupação não se restringe a ele.

“Todo tipo sanguíneo é importante para a gente, mas o que preocupa é o tipo O, porque é um dos mais comuns, mas é o que mais sai. Então temos uma demanda para o tipo O que é grande”, completa Flávia. Ela ressalta que o desafio vai além da quantidade de bolsas disponíveis: “Nosso problema não é apenas o número de bolsas, mas o tipo de doador. Muitas vezes tenho pacientes que precisam de um tipo de doador específico”.

Para quem tem sangue O negativo, a consciência dessa responsabilidade pode ser um incentivo a mais para doar. É o caso da estudante Juliana Nunes, de 27 anos, que já fez a quarta doação.

“Meu sangue é universal, e é importante ter no banco de sangue. Acho que tem um estigma de que pode ser perigoso doar, pegar alguma doença, mas tudo é descartável, feito de uma forma consciente, e é muito importante doar sangue”, diz.

Para doar sangue é preciso:

  • Estar em boas condições de saúde;
  • Ter entre 16 e 69 anos (menores de 18 com autorização);
  • Pesar mais de 50kg;
  • Estar alimentado, evitando alimentos gordurosos nas 4h anteriores;
  • Apresentar documento oficial com foto (original ou cópia autenticada);
  • Não ter ingerido bebida alcoólica nas últimas 12h;
  • Não estar com sintomas de gripe, febre ou infecção;
  • Ter dormido ao menos 6h na noite anterior;

Homens podem doar a cada dois meses, até quatro vezes por ano. Mulheres, a cada três meses, até três vezes por ano.

Juliana Nunes, de 27 anos, faz a quarta doação | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

Uma única doação coleta até 450 ml de sangue, um volume que o organismo repõe rapidamente.

Conheça alguns locais para doar

  • Hemorio

Local: Rua Frei Caneca, 8

Horário: Segunda a domingo, das 7h às 18h (inclusive feriados)

Disque Sangue: 3916-8310

Agendamento para doação de plaquetas: (21) 96463-8072

  • Banco de Sangue Herbert de Souza

Local: Avenida Boulevard 28 de setembro, 109 (Prédio Anexo ao Hupe)

Horário: Segunda a Sexta – de 9:00 às 15 horas. (exceto feriados)

  • Hemonit

Local: Avenida Marquês do Paraná, nº 303 – Térreo / Centro – Niterói

Horário: de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 16h  (sem intervalo para almoço)

Telefone: (21) 2629-9067 | (21) 99796-8879  *somente Whatsapp

  • Hemonúcleo de São Gonçalo

Local: Alameda Pio XII, anexo ao Polo Sanitário Washington Luiz, Zé Garoto

Horário: de segunda a sexta, das 8h às 16h30, e no primeiro sábado do mês, das 8h às 12h30 (exceto feriados)

  • Banco de sangue do Hospital Geral de Nova Iguaçu

Local: Avenida Henrique Duque Estrada Meyer, n° 953, Posse – Nova Iguaçu

Horário: Segunda a domingo, das 7h30 às 18h

Telefone: (21) 3779-9900 (ramal 117) / (21) 97177- 9671

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading