O plástico não desaparece. Ele se transforma. Sob a ação do sol, do vento, da água e do tempo, embalagens, sacolas, garrafas e descartáveis se fragmentam e se degradam em partículas menores, com menos de cinco milímetros até 0,1 micrômetros: os microplásticos. Presentes na areia, na água do mar, em organismos aquáticos e até em produtos de consumo, essas micropartículas se tornaram objeto de investigação científica em diferentes partes do mundo, inclusive no Rio.
À frente de um projeto que acompanha o caminho do plástico até sua fragmentação está a pesquisadora da Universidade Federal do Rio (UFRJ) Maria Inês Tavares, mestre em Química Orgânica e doutora em Ciência e Tecnologia de Polímeros. Segundo ela, a origem do problema está no descarte irregular.
“O que motivou o projeto é a falta de conscientização ambiental pelo descarte irregular dos produtos no meio ambiente. Um exemplo disso são as pessoas que, às vezes, abrem a janela do carro e jogam uma garrafa. Vimos um monte de garrafas de plástico, um monte de material plástico no meio ambiente. Esse foi o ponto de partida”, afirma.
A proposta da pesquisa é estudar desde a origem do material até sua fragmentação e degradação no ambiente. Para isso, os pesquisadores realizam coletas em praias e ambientes marinhos, onde a presença de microplásticos já é significativa.
“Primeiro, a gente estuda vários polímeros convencionais, que são os mais descartados no meio ambiente: garrafas PET, sacos à base de polipropileno e polietileno, às vezes o poliestireno, as poliamidas e, também, as fibras de celulose. Então, esse material, que é totalmente descartado, tem o padrão dos polímeros, antes de virar um artefato. A gente acompanha a degradação dele, quer seja no solo, quer seja na água marinha, ou em outros ambientes”, explica Maria Inês.
De maneira simples, polímeros são grandes cadeias químicas formadas pela repetição de unidades menores, como se fossem elos de uma corrente. Dependendo da estrutura dessa cadeia, o material pode ser mais rígido, flexível, resistente ao calor ou mais durável, entre outras propriedades. É essa estrutura que dá origem a plásticos como as garrafas de politereftalato de etileno (PET), sacolas de polietileno (PE) e embalagens de polipropileno (PP) e poliestireno (PS).
Mais de cinco mil partículas já foram analisadas.
“Retiradas do peixe, da água do mar, da areia e inclusive em garrafas de água mineral. Já foi encontrado microplástico no corpo humano em várias regiões. Mas, nem todo microplástico, como a gente analisou, tem metal pesado, então isso já é uma coisa boa. Não tendo o metal, eles vão ser excretados pelo nosso corpo.”
Maria Inês, mestre em Química Orgânica e doutora em Ciência e Tecnologia de Polímeros
A praia como laboratório
O local de coleta escolhido foi a Praia Vermelha, na Urca. A pesquisadora Marina Sacramento, mestre e doutoranda em Ciência e Tecnologia de Polímeros pelo Instituto de Macromoléculas da UFRJ, integra e coordena a equipe. Outros quatro alunos da graduação de nanotecnologia somam forças ao projeto: Yasmin Rodrigues, Marcelo Gonçalves, Vitor Costa e Endrius Silva.
“No ano passado (2025) foram realizadas coletas mensais no decorrer do ano. Agora em 2026 serão realizadas coletas a cada estação. A região está sendo dividida em três seções, com oito quadrantes em cada. A seção que está localizada no centro da praia é a de maior relevância, geralmente com maior identificação dos microplásticos. Naquela direção, fica uma barraca de venda de bebidas e alimentos. Então, a gente acaba inferindo que as pessoas compram ali, além de trazerem de outros lugares e descartam muitas vezes ali mesmo, na areia da praia”, detalha.

A escolha do local considerou o fluxo de pessoas, por se tratar de uma área turística, e a fácil acessibilidade e extensão da praia.
“Uma praia menor, para que se pudesse fazer uma amostragem bem significativa. E lá, o que mais encontramos era derivado do isopor. Isso acontece porque as pessoas compram quentinha no quiosque em frente e descartam ali. Mas também se encontra o polipropileno, o poliestireno, o polietileno e o PET”, diz Inês.
Como o plástico vira microplástico
Os microplásticos são partículas resultantes da fragmentação de plásticos maiores. Esse processo ocorre quando as cadeias poliméricas começam a se romper por ação do ambiente.

A radiação solar, o calor e reações de oxidação rompem ligações químicas, tornando o material cada vez mais frágil até se transformar em partículas menores, como explica a professora Mônica Marques Calderari, do Departamento de Química Orgânica da Universidade do Estado do Rio (Uerj).
“A quebra das cadeias poliméricas altera completamente as propriedades do material. Ele perde resistência, fica mais quebradiço e acaba se fragmentando”, detalha.
A professora Alessandra Monteiro, do Departamento de Engenharia Química e de Petróleo da Universidade Federal Fluminense (UFF), completa que essa quebra pode acontecer de diferentes formas.
“Pode acontecer por processo mecânico, como a própria abrasão por atrito, numa pedra, na areia ou até na corrente de água. Pode acontecer também fragmentação por impacto físico. Existem também processos biológicos como a ação de microorganismos que colonizam o plástico e vão liberando enzimas que fragilizam esse material”, enumera a especialista.
Além dos chamados microplásticos secundários, que surgem da fragmentação de resíduos maiores, existem também os primários, produzidos intencionalmente em tamanho na escala micro, como os já utilizados em cosméticos e produtos de higiene.
Mas, nem todos os polímeros se comportam da mesma forma. “Existem os que geram microplásticos mais persistentes e problemáticos do que outros. Isso vai estar associado à sua estrutura química, à resistência à degradação e também ao uso em larga escala”, afirma Alessandra.
Ela cita exemplos como polietileno, polipropileno, poliestireno, PET e PVC, materiais amplamente utilizados e com alta resistência à degradação, o que favorece sua permanência no ambiente. Mas quais são as consequências disso para a vida humana e animal?
‘Eles estão dentro do corpo humano, isso não é mais questionável’
Os impactos dos microplásticos extrapolam o ambiente, alcançam a cadeia alimentar e chegam à saúde humana. A professora Monica Marques chama atenção para o que já está documentado pela literatura científica.
“Os animais marinhos ingerem microplásticos confundindo com alimento. Os efeitos documentados incluem inflamação intestinal, redução de crescimento, alterações reprodutivas e estresse oxidativo. Além disso, ocorre a transferência trófica: o microplástico passa para o predador, e para o predador do predador. Sobe na cadeia alimentar, bioacumula, até chegar no topo. Que somos nós”, detalha.
Segundo a especialista, a presença dessas partículas no organismo humano já foi comprovada.
“Microplásticos foram encontrados no sangue, no pulmão, no intestino, na placenta e no leite materno. Ou seja, eles estão dentro do corpo humano, isso não é mais questionável.”
Mônica Marques, professora do Departamento de Química Orgânica da Uerj
A professora ressalta que os efeitos observados não configuram intoxicação aguda, mas um processo crônico.
“Não é um veneno imediato. É um problema crônico, cumulativo e silencioso. Uma alteração metabólica e inflamatória que vai se construindo ao longo dos anos. E isso, do ponto de vista da saúde pública, é muito sério porque é justamente o que é mais difícil de perceber”, conclui.
Caracterização e identificação
A explicação química e os impactos ajudam a entender o que a pesquisa observa na prática. O material recolhido durante as coletas passa por análises detalhadas em laboratório, que permitem identificar sua composição, estrutura e possíveis contaminantes associados.

“À medida que os materiais plásticos sofrem degradação e se fragmentam, realizamos a coleta desses resíduos e, posteriormente, sua caracterização para identificar os tipos de polímeros presentes. Essa etapa é fundamental para compreender suas propriedades físicas e químicas”, explica Marina.
A identificação do tipo de polímero permite compreender sua origem, seu comportamento ambiental e possíveis estratégias de tratamento ou reaproveitamento.
Como resultado, os pesquisadores esperam criar um banco de dados com informações detalhadas sobre os microplásticos encontrados, além de contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas mais eficazes no combate à poluição plástica.
A pesquisa é financiado pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), agência de fomento à ciência, tecnologia e inovação do estado. A presidente Caroline Alves afirma que a instituição prioriza iniciativas que possam gerar impacto social.

“No caso dos microplásticos, estamos falando de um tema que atravessa diferentes dimensões, ambiental, sanitária e econômica. Por isso, ao definir nossas prioridades de financiamento, consideramos não apenas o mérito científico dos projetos, mas também o seu potencial de gerar impacto social, contribuir para a formulação de políticas públicas e oferecer respostas concretas para problemas que afetam a população”, diz.
Reutilizar o que já está no ambiente
Outro fator importante é que além de mapear e caracterizar as partículas, o projeto também investiga possibilidades de reaproveitamento. Segundo Maria Inês, o resíduo encontrado na areia é o mais abundante e, por isso, mais viável de ser trabalhado.
“O resíduo da praia é maior do que os outros resíduos que tem na água e que tem até no peixe. Então, ele é um pouco mais fácil da gente tentar trabalhar. Estamos pensando em filtros, em alguns artefatos, inclusive, fizemos porta-copos e colocamos os microplásticos. Pensamos também em usar na construção civil. O próximo passo é colocar dentro do cimento e ver como ele se comporta para fazer a parte de cima de bancos”, explica a professora.
Marina reforça que a proposta não é eliminar o plástico da sociedade, mas repensar seu uso e destino.
“A ideia é reutilizar, reciclar e dar uma ressignificância para esse microplástico que já está no ambiente. Não tem como a gente abolir os produtos derivados do plástico, nós precisamos deles. A ideia é realmente ver onde conseguimos recolocar ele no nosso dia a dia de uma melhor forma.”
Marina Sacramento, mestre e doutoranda em Ciência e Tecnologia de Polímeros
Apesar das possibilidades de reaproveitamento, a professora Mônica Marques faz ponderações sobre os limites dessa estratégia.
“É possível reaproveitar plásticos para produzir materiais adsorventes, carvões ativados modificados, filtros. Mas precisamos ser honestos sobre os limites dessa abordagem. O microplástico ambiental já é altamente disperso, fragmentado e contaminado. Coletar em larga escala é extremamente difícil. Reprocessar pode gerar nanoplásticos ainda menores, mais difíceis de controlar. E existe o risco de liberar, no processo, os próprios contaminantes que ele estava carregando”, avalia.

“Vários impasses deverão ser estudados até que se possa garantir que este será uma tecnologia viável. A solução continua sendo reduzir a geração na origem e melhorar a gestão de resíduos. Não dá para tratar a consequência ignorando a causa”, completa a especialista.
Tecnologia, indústria e ciclo de vida
Para a engenharia química, a solução passa por diferentes frentes. “Esse problema na verdade é multifatorial, ele é multisetorial também. Então, existem múltiplos atores e setores também que precisam estar juntos para contribuir para que seja de fato solucionado e os impactos sejam mitigados”, afirma Alessandra.
Entre as possibilidades, ela cita o redesign de materiais, a melhoria da reciclabilidade, o desenvolvimento de polímeros biodegradáveis, a reciclagem química e o aprimoramento do tratamento de efluentes, já que fibras sintéticas liberadas na lavagem de roupas também contribuem para a presença de microplásticos na água.
“Então, a reciclagem química olha para o fim de vida do plástico e é uma solução muito interessante para evitar que esse material polimérico, residual, fique disposto no meio ambiente e liberando microplástico ao longo de toda a sua degradação no meio ambiente”, explica.
Responsabilidade compartilhada
Os dados coletados pela equipe também apontam para a origem dos resíduos. “Muito do que está no meio ambiente, que está no mar, na areia, infelizmente é causado pela população. Mais de 38% desses resíduos sólidos são domésticos, jogados inadvertidamente pela população. Mas tudo pode aproveitar, tudo”, afirma Maria Inês.
Para Marina, a pesquisa também cumpre um papel social. “Acho que a principal iniciativa é a conscientização ambiental. Através dessa pesquisa a gente consegue ter resultados expressivos, resultados robustos. Nós precisamos vir com algumas soluções mais efetivas. E claro que a academia, a universidade, tem um papel extremamente relevante. Mas ela sozinha não vai conseguir resolver muita coisa. É fundamental que esse conhecimento dialogue com o setor privado e com o poder público, para que possamos transformar ciência em ação concreta e impacto real na sociedade”.


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