No calendário afetivo e comercial do Brasil, o 12 de outubro ocupa um lugar multifacetado. É o dia de celebrar a Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida; é a data que consolidou o Dia das Crianças como um pilar do varejo; e é um momento que dialoga com celebrações ancestrais. Mas, para além das vitrines lotadas e das festas religiosas, a data conta com significados diversos que ressaltam a importância do brincar para o desenvolvimento infantil.
Como remonta Ivanir dos Santos, Babalawô e professor do programa de Pós-graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ouvido pelo Agenda do Poder, a data, oficializada em 1924 pelo presidente Arthur Bernardes, nasceu de um debate sobre políticas de proteção e educação, numa época em que a criança, principalmente pobre, era vista mais como futura mão de obra do que como sujeito de direitos.
Contudo, foi apenas pelos anos 1950 que o dia pegou no imaginário popular, com uma campanha publicitária agressiva chamada “Semana do Bebê Robusto”, feita pela fábrica de brinquedos Estrela, em parceria com a Johnson & Johnson. A peça acabou se desdobrando na “Semana da criança”, que resgatou o decreto, e aí a data se popularizou. Logo, a celebração virou um fenômeno de consumo, consolidando a tradição de presentear que é conhecido hoje.
“Acabou virando uma ampla data comercial. Outros fabricantes acabaram entrando nesse movimento iniciado pela Estrela, e as famílias acabaram sendo convencidas de que era o dia de presentear a criança”, conta o historiador.

‘Ligada, antes de tudo, à chegada de Colombo à América’: a origem ambígua da data
A escolha do 12 de outubro não foi aleatória. Documentos históricos guardados no Arquivo do Senado, em Brasília, mostram que a ideia original do Dia da Criança partiu do 1º Congresso Brasileiro de Proteção à Infância e do 3º Congresso Americano da Infância, realizados em 1922, no Rio, como um único evento que era parte do centenário da Independência.
A ideia, segundo registros, era associar a imagem da “nova geração” (as crianças) à do “Novo Mundo”, criando um simbolismo de futuro. “Era um continente ‘de crianças’, visto como uma terra jovem”, explica o professor Ivanir.

Antes de 1924, o Dia da Criança era comemorado informalmente em 2 de outubro, data em que a Igreja Católica celebra o Dia dos Anjos da Guarda. No entanto, o debate que levou à criação oficial tinha um pano de fundo duro. Naquela época, como resgata um artigo da Agência Senado, a infância pobre no Brasil não tinha direitos assegurados. “As crianças pobres em geral não frequentavam a escola, eram obrigadas a trabalhar, vagavam em bandos pelas cidades e, se detidas por algum crime ou mera vadiagem, iam para a cadeia”, aponta a publicação da Casa Legislativa.
Historiadores apontam que a preocupação da elite da época com a infância era ambígua. Por um lado, havia um interesse em modernizar o país e aplicar conceitos de saúde e educação. Por outro, havia também o objetivo de formar uma mão de obra nacional “dócil e produtiva” para substituir o trabalho escravo e disciplinar as camadas mais pobres, garantindo a manutenção da ordem social.
‘A criança é continuidade’
Enquanto a data se consolidava no comércio e na política, outras formas de celebrar a infância já existiam no tecido cultural e religioso do país. Para as religiões de matriz africana, por exemplo, a energia infantil é vista como sagrada e representa a perpetuação da vida. A criança, nesse contexto, não é vista sob a ótica individualista ocidental.
“A infância no Candomblé é continuidade. Você está ligado a uma cultura, é perpetuar. A criança nunca é um indivíduo, ela é uma continuação na sua família, na sua comunidade, no seu mundo”, enumera o Babalawô.
Essa visão, segundo ele, implica em uma educação coletiva, onde a formação da criança é responsabilidade de todos e se baseia em valores comunitários. Um dos principais ensinamentos é a reverência aos mais velhos, um pilar que, para o historiador, a sociedade moderna perdeu.
“Temos que educar a criança para respeitar a diversidade, respeitar o outro e, principalmente, respeitar os mais velhos. O respeito ao mais velho, que tanto se perdeu na sociedade atual, é o que nós temos que recuperar”, defende Ivanir. Ele lembra que, nas comunidades antigas, todos se sentiam responsáveis por cada criança. “Educar uma criança é tarefa não de uma pessoa, mas de toda a comunidade.”
O sacerdote ressalta que a principal celebração relacionada às crianças nessas tradições não ocorre no 12 de outubro, fugindo dessa relação comercial da data; mas sim em 27 de setembro, dia de São Cosme e São Damião, sincretizados nas religiões afro-ameríndias com os Ibejis, Orixás gêmeos ligados à infância. A data é tradicionalmente marcada pela distribuição de doces, simbolizando o afeto, não de brinquedos e bens materiais.

“O 12 de outubro não é uma data central. O valor não está no valor monetário do presente, mas sim no afeto”, pontua Ivanir. O pesquisador ressalta que mesmo o feriado que coincide com o Dia das Crianças não é voltado para essa comemoração em si, mas para o Dia de Nossa Senhora da Aparecida, considerada pelos católicos a padroeira do Brasil — e, na Umbanda e Candomblé, sincretizada com Oxum, que também está ligada à fertilidade e ao cuidado com as crianças.
“Você vê que mesmo a Igreja Católica não celebra o Dia das Crianças específicamente, porque 12 é o dia da Nossa Senhora da Aparecida. Olha só a coincidência. É uma data que está dentro da outra”, ressalta.
‘Raspe o adulto e encontrará a criança’
Se no campo espiritual as celebrações sobre a infância propõem uma reflexão sobre à ancestralidade, no plano material ela expõe os dilemas da maternidade e da paternidade moderna. Para a psicanalista e pedagoga Izabel Barreto, a rotina acelerada e a falta de tempo transformaram o presente e, principalmente, as telas, em ferramentas para compensar a ausência.
“Infelizmente, os pais estão fazendo isso porque querem sossego. Quando chega o fim de semana, tudo é prioridade, menos a criança. Você liga uma televisão, ela vai ficar ali boazinha, ou dá um celular”, analisa. “Sabemos que os pais precisam trabalhar e que, muitas vezes, não há como mudar isso. Mas sempre há uma folga, um tempo mesmo que pequeno. É preciso gerir esse tempo de modo que a criança se torne prioridade. Ter filhos exige energia e dedicação. A faxina e outras tarefas podem esperar”, completa.
Segundo a psicanalista, o brincar é um dos pilares desse desenvolvimento. “A criança precisa brincar. Faz parte do desenvolvimento dela. As leis que cuidam da infância — como o ECA e a própria Constituição — dizem que brincar é um direito. É brincando que ela expressa a criatividade e elabora questões emocionais”, explica. “O brincar é interação, é expressão, é linguagem. A criança pode ser um super-herói, um animal, o que quiser — é a forma dela acessar e simbolizar o mundo”, diz.
Izabel destaca que a qualidade da infância reverbera por toda a vida, citando o psicanalista Sándor Ferenczi: “‘Raspem o adulto e encontrarão a criança’. Nossa vida adulta é feita de restos da infância. Dentro de nós existe uma ‘criança interior’, que são as memórias de tudo que a gente viveu”, afirma. “Quanto melhor for a infância de um indivíduo, há uma tendência de a vida adulta dele ser melhor.”
Para que essa boa infância seja uma realidade para todos, no entanto, a psicanalista defende a necessidade de mais políticas públicas de apoio aos pais. “O psicanalista Donald Winnicott dizia que ‘mãe suficientemente boa’ é aquela que consegue prover ‘um ambiente suficientemente bom’. Ele não dizia ‘perfeitamente bom’, porque perfeição não existe. Mas há um mínimo necessário. Acredito que deveríamos ter políticas públicas que ajudassem os pais a se tornarem pais melhores — não perfeitos. Infelizmente, isso ainda é uma utopia no Brasil”, finaliza a profissional.
Consumo e, principalmente, brincadeira
Em termos de consumo, a movimentação deve ser grande. Neste ano, a expectativa é que a data injete pelo menos R$ 487 milhões na economia da Região Metropolitana do Rio, segundo pesquisa do Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises (IFec-RJ).
O levantamento aponta que mais da metade dos consumidores — 66,2% — pretendem comprar presentes, com um gasto médio de R$ 202. Os brinquedos continuam no topo da preferência (53%), seguidos por roupas (27,1%) e os calçados (com 6%). Os números confirmam a força da tradição iniciada pela publicidade ainda nos anos 1950 e mostram que, para o bem ou para o mal, o ato de presentear continua sendo o principal motor do feriado.
Brincar no Dia das Crianças é mais do que uma simples diversão — é uma forma essencial de desenvolvimento, expressão e construção de vínculos afetivos. Nesse dia especial, valorizar o ato é reconhecer a infância como uma fase única, onde a imaginação, a criatividade e a socialização florescem.


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