Após dois anos consecutivos de queda, o desmatamento na Amazônia voltou a crescer de forma alarmante. Segundo dados divulgados nesta sexta-feira, com base em números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a floresta perdeu 960 quilômetros quadrados de cobertura vegetal apenas em maio de 2025 — um salto de 92% em relação ao mesmo mês do ano passado e o segundo pior índice da série histórica para maio, iniciada em 2016, informa O Globo.
O aumento da devastação ocorre em meio a uma conjuntura de fatores climáticos e políticos. De acordo com o secretário executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, os incêndios florestais registrados em 2023 e 2024, intensificados pelo fenômeno El Niño e pela seca severa na região, podem estar por trás do aumento atual. Isso porque os sistemas de monitoramento por satélite, como o Prodes, detectam com atraso os efeitos de queimadas que, inicialmente, não derrubam árvores, mas comprometem sua estrutura até a queda.
“Estamos começando a assistir uma mudança de cenário que comprova os alertas feitos pela ciência. A floresta tropical, naturalmente resistente ao fogo, está se tornando vulnerável por causa das mudanças climáticas”, afirmou Capobianco durante a apresentação dos dados.
A série histórica de desmatamento anual — calculada de agosto a julho — já aponta uma alta de 9% no ciclo de 2024-2025 em comparação com o ano anterior: 3.502 km² devastados até agora. Esse avanço pode comprometer a principal marca ambiental do governo Lula, que celebrou em 2023 e 2024 a redução da destruição florestal após anos de alta.
Período mais seco está se aproximando, o que pode agravar cenário
O cenário se agrava diante da aproximação do período mais seco no bioma, entre junho e julho, considerado decisivo para os índices anuais. “O Ibama vai ter que fazer muito esforço nos próximos dois meses”, afirmou Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima. Ele destacou a megaoperação “Embargão”, que recentemente bloqueou 70 mil hectares de terras e embargou 5.000 fazendas por desmatamento ilegal, mas alertou: “Só isso não basta.”
Segundo Astrini, fatores políticos também contribuem para o avanço da devastação. “Quem desmata é investidor do crime ambiental. Quando há sinais de Brasília indicando enfraquecimento das leis, isso anima esses grupos”, disse, citando ameaças como a tentativa de anistia de multas ambientais, o avanço da licitação da BR-319, o fim da moratória da soja e ataques à ministra Marina Silva.
Críticas semelhantes foram feitas por Ana Carolina Crisóstomo, especialista em conservação do WWF-Brasil, que denunciou a recente aprovação da lei que flexibiliza o licenciamento ambiental: “Trata-se de uma escolha que compromete o futuro do meio ambiente e da sociedade brasileira. É a institucionalização de uma nova ‘boiada’.”
Cerrado e Pantanal registram queda na devastação
Por outro lado, houve avanços importantes em outros biomas. O Cerrado teve queda de 15% no desmatamento em maio, e o Pantanal registrou redução de 65% na destruição da vegetação e de 99% nos focos de incêndio em comparação com o mesmo mês de 2024. Ainda assim, especialistas alertam que o futuro da Amazônia continua em risco, com impactos que vão muito além do território nacional.





