Essa é uma daquelas pequenas cidades que fazem questão de ser dramática: tem casarões do ciclo do café, túneis que lembram cenários de romances de aventura e uma cascata que é apenas a maior queda-livre do estado. O visitante chega esperando o sossego de uma vila pacata e tropeça num dramalhão geológico digno de novela: penhascos, poços escuros e um rio que, vez ou outra, resolve desaparecer entre lajes de pedra. E daí seu nome: Sumidouro.

A história do lugar é um colar de passagens: rota de tropeiros, esteiras de café, mão de obra escravizada e, no fim do século XIX, uma ferrovia que deixou viadutos e pontes que hoje parecem ter sido transformados em ruínas cinematográficas. Mas calma: a sensação de “sumir” tem lados práticos. A cidade tem estrutura modesta para turistas com pouca rede hoteleira, comércio enxuto e é uma experiência que demanda planejamento: trilhas, estradas de terra e atrações com acesso beeeem rústico. Ou seja: vá por amor à paisagem, não à conveniência.

Sumidouro exerce um charme contraditório: é ao mesmo tempo cartão-postal grandioso e cidade modesta. Para o turista flexível, é destino que recompensa: paisagens que “somem” e reaparecem no enquadramento certo. Para quem quer conforto e serviço 24/7, vale combinar a visita com hospedagem em Nova Friburgo ou alguma das cidades vizinhas. Em todo caso, leve botas, câmera e paciência, por que a cidade parece não ter a menor pressa em se modernizar.

Passeio nos Túneis de Murinelli mistura história industrial e natureza | Crédito: Reprodução

História

A gênese de Sumidouro mistura estrada do ouro e economia cafeeira. No século XVIII a região fez parte de rotas utilizadas por tropeiros e contrabandistas que buscavam driblar fiscalizações rumo ao litoral; depois, no século XIX, o cultivo de café e a chegada da Estrada de Ferro Leopoldina deram o impulso urbano e econômico que transformou o povoado em vila e, por fim, em município.

O declínio ferroviário e as mudanças econômicas do século XX deixaram rastros: viadutos e pontes em ruínas que hoje são pontos de interesse cultural e paisagístico. Para quem entra de fato na história local, Sumidouro funciona como um pequeno museu a céu aberto do Brasil cafeeiro e das transformações da província para o estado moderno.

De onde saiu esse nome?

Sumidouro é um nome técnico. Registros e descrições desde o século XIX explicam que trechos do rio Paquequer “somem” sob lajes e pedras, formando cavernas e trechos onde a água corre por galerias subterrâneas. Ou seja, é um verdadeiro sumidouro natural que batizou a localidade.

A formação geológica da região é variada (granitos, lajes e gargantas esculpidas pela água). Há menções a lajes de pedra e cavernas ao longo do Paquequer, mas chamar Sumidouro de “cidade dos blocos de calcário” seria reduzir o cartão-postal a uma única rocha.

A realidade é mais de um mosaico geológico que inclui canais, gargantas e quedas d’água. Em resumo: o nome vem mesmo do rio que some, não de um catálogo de pedras.

Aqui fica mesmo a maior queda d’água do Rio de Janeiro?

Em um estado onde quase toda cidade do interior tem no portfólio uma cascata ou cachoeira de encher os olhos, esse título enche de orgulho os sumidourenses. A Cascata Conde d’Eu é o cartão-postal natural de Sumidouro: uma queda do rio Paquequer que forma uma garganta impressionante e um poço profundo na base.

A designação histórica do nome remonta a 1877, quando o local foi palco de uma festa que envolveu a Corte Imperial e culminou na homenagem ao Conde d’Eu.

A única controvérsia é quanto a sua altura exata. O portal oficial de turismo do estado crava cerca de 160 metros, enquanto fontes locais mencionam cerca de 127 metros de queda-livre.

Cascata Conde d’Eu, a maior do estado, enche de orgulho os sumidourenses | Crédito: Reprodução

O que são os túneis de Murinelli?

Os túneis de Murinelli são parte de um antigo trecho ferroviário que cortava a serra: três túneis escavados na rocha por escravizados que integravam o ramal e hoje atraem trilheiros outros caçadores de emoção. Dá até pra cruzar de carro, devagarinho.

A rota preserva o leito da ferrovia desativada e oferece um caminho cênico, entre galerias, nascentes e pequenas quedas d’água. Um passeio que mistura história industrial e natureza.

Os Túneis de Murinelli fazem parte do circuito histórico de Sumidouro e foram construídos no final do século XIX, no antigo ramal ferroviário da Leopoldina e permaneceram ativos de 1889 a 1967, eles preservam relíquias da época, como as ruínas da Ponte Seca.

E o que são as ruínas da Ponte Seca?

A chamada Ponte Seca é um viaduto ferroviário construído no apogeu do ramal da Estrada de Ferro Leopoldina e hoje se apresenta como ruína espetacular. Tem arcos de pedra, trilhos ausentes e um cenário que rende fotos dramáticas. Era peça-chave na malha que ligava pontos como Nova Friburgo e Conselheiro Paulino.

A ferrovia como sistema foi gradualmente desativada ao longo do século XX, e a Ponte Seca ficou como um atrativo patrimonial. Os visitantes que chegam ao local costumam combinar a visita às ruínas com a Cascata Conde d’Eu e trilhas próximas.

Ponte Seca: ferrovia desativa que virou atrativo patrimonial | Crédito: Reprodução

O que mais tem para fazer por lá?

É um destino ideal para quem busca fotografia, trekking leve e um contato rústico com a Mata Atlântica. Sumidouro oferece trilhas, mirantes e formações rochosas como a “Pedra Duas Irmãs”, rampas de voo livre e o circuito histórico das fazendas do período cafeeiro.

Cultura local e eventos menores também pontuam a agenda, como pequenas festas religiosas e roteiros culinários caseiros, com comidas regionais.

Mas lembre-se: muitos serviços como bares, restaurantes ou pousadas são limitados. Planeje levar suprimentos e reservar hospedagem em cidades vizinhas se for alta temporada.

Qual a melhor época para visitar?

A melhor época é nos meses secos (outono e inverno, abril–setembro), quando trilhas e estradas de terra estão mais firmes e a visibilidade nas cachoeiras tende a ser melhor.

Na estação chuvosa (verão) a Cascata fica mais volumosa, mas as trilhas podem ficar escorregadias e o acesso por estradas de chão pode ficar complicado para os menos valentes. Mas o espetáculo é garantido.

Onde fica e como chegar?

Sumidouro está na Região Serrana do Rio de Janeiro, vizinho a municípios como Nova Friburgo, Duas Barras ou Teresópolis. De carro, saindo da Guanabara, são 162 km de estrada, o que dá umas três horas de viagem.

Não há linhas de ônibus diretas até lá. O jeito é comprar passagem até Nova Friburgo (a partir de R$ 60) e seguir por ônibus municipal, táxi ou carro de app até Sumidouro.

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