Desafios crescentes para o governo Lula: a realidade do “Mundo da Vida” refletida na pesquisa Genial/Quaest de 2 de Abril de 2025

Os dados falam por si: 56% da população brasileira desaprovam o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e 71% dos entrevistados acreditam que ele não está cumprindo as promessas de campanha

* Paulo Baía

A mais recente pesquisa Genial/Quaest, divulgada em 2 de abril de 2025, escancarou uma realidade que não chega a ser surpresa para quem vive fora dos circuitos da militância orgânica e enxerga a política a partir do “mundo da vida”, no sentido mais cotidiano, concreto e pragmático do termo. Os dados falam por si: 56% da população brasileira desaprovam o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e 71% dos entrevistados acreditam que ele não está cumprindo as promessas de campanha. Esses resultados refletem o que se ouve nas ruas, nos transportes públicos, nos mercados, nas feiras livres, nos consultórios médicos do SUS, nos postos de trabalho precários e no desalento das periferias. Não se trata de um fenômeno isolado, mas sim de uma deterioração progressiva da confiança popular. E, como diz a percepção geral, vai piorar.

A desaprovação ao governo Lula não vem como um raio em céu azul. Ela tem raízes concretas e progressivas, alimentadas por promessas que soaram grandiosas em 2022, mas que, passados mais de dois anos de gestão, começam a se desintegrar diante da realidade. A pesquisa mostra que o índice de desaprovação, que era de 49% em fevereiro, disparou sete pontos percentuais em apenas dois meses, chegando a 56%. A aprovação, por outro lado, caiu para 41%. Essa inversão de expectativas é significativa porque revela o descolamento entre o discurso político de reconstrução do Brasil e os sentimentos cotidianos de abandono e frustração experimentados por uma parcela expressiva da população.

Essa ruptura de expectativas é visível inclusive em redutos historicamente simpáticos ao Partido dos Trabalhadores. No Nordeste, por exemplo, a desaprovação subiu de 37% para 46% desde fevereiro, enquanto a aprovação caiu de 59% para 52%. Entre os jovens de 16 a 34 anos, parcela do eleitorado que costuma manifestar mais sensibilidade às pautas sociais, a desaprovação atingiu 64%. Esses dados apontam para um esvaziamento do apoio que antes era dado como garantido. O PT, ao se fiar apenas em seus núcleos duros de militância, perdeu a escuta do mundo real e empobreceu sua capacidade de leitura do sentimento médio da população.

A economia, como era de se esperar, ocupa papel central nessa crise de confiança. A pesquisa aponta que 56% dos entrevistados consideram que a economia piorou nos últimos 12 meses, e 81% afirmam que seu poder de compra diminuiu nesse período. A inflação dos alimentos é um ponto sensível: 88% dos brasileiros disseram ter percebido aumento nos preços nos últimos 30 dias. Esse dado, mais do que estatística, é um retrato da vida comum, onde o carrinho do supermercado está cada vez mais vazio e a renda não acompanha o custo básico de sobrevivência. A frustração cotidiana alimenta uma sensação de traição em relação às promessas de campanha — como a retomada da dignidade no prato e a melhoria das condições de vida para os mais pobres — que agora soam vazias.

Segundo Felipe Nunes, diretor da Quaest, o elemento decisivo da crise é a quebra da confiança. Não se trata apenas de não entregar o prometido, mas de parecer não estar sequer comprometido com isso. A confiança, uma vez abalada, não se recompõe com discursos ou campanhas publicitárias. Para Nunes, o eleitor agora desconfia não só da capacidade do presidente, mas também de sua intenção. Essa percepção é corrosiva porque desmonta o principal ativo de Lula: a imagem de um líder popular, sensível às dores do povo e genuinamente comprometido com a justiça social. Quando até isso começa a ser posto em dúvida, o alicerce simbólico da liderança se fragiliza.

A comparação com o governo anterior também traz elementos de alerta. Para 43% dos entrevistados, a administração de Lula é considerada pior do que a de Jair Bolsonaro, enquanto apenas 39% a consideram melhor. Outros 15% afirmam que está no mesmo nível. Trata-se de uma inversão chocante, considerando-se que Lula retornou ao Planalto com a promessa de ser o antípoda do ex-presidente, oferecendo ao país um novo ciclo de esperança, democracia e justiça social. Se em apenas dois anos sua imagem começa a se igualar — ou a perder — para a de um governo marcado por negacionismos, instabilidades e radicalismos, isso significa que o terreno de credibilidade do atual presidente está em processo acelerado de erosão.

É neste ponto que se escancara a distância entre o mundo das redes sociais e da militância orgânica, com seus discursos alinhados e visões autocentradas, e o “mundo da vida” — termo emprestado da fenomenologia e da sociologia crítica — que expressa a vida concreta das pessoas comuns. A militância virtual, que ecoa bolhas ideológicas nos guetos digitais da esquerda, não vê o que salta aos olhos de quem precisa do transporte público sucateado, enfrenta filas no sistema de saúde ou convive com o endividamento e o desemprego. A pesquisa não revela apenas dados: ela capta uma atmosfera, uma fadiga social, uma impaciência política. E esse diagnóstico não vem da oposição, mas das entranhas do próprio povo.

Diante desse quadro, o governo Lula enfrenta a mais desafiadora de todas as tarefas: reconstruir a confiança. Isso exigirá mais do que slogans e peças publicitárias; será preciso escuta ativa, humildade política e capacidade de retomar um projeto que dialogue com a realidade e não apenas com os desejos de sua base ideológica. Enquanto isso não ocorrer, a tendência é que os índices de desaprovação continuem a subir. Afinal, o Brasil real, aquele que acorda cedo, pega ônibus lotado, enfrenta filas e conta centavos, não perdoa facilmente quem promete e não entrega. E a sensação geral nas ruas é clara: se nada mudar, vai piorar.

* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.

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