Tudo começou com um chilique culinário. No fim do século XIX, Olavo Bilac — o “príncipe dos poetas” e, aparentemente, crítico gastronômico amador — saiu bufando da Casa Paschoal, na Rua do Ouvidor, depois de provar uma empada que o deixou indignado. Ninguém soube se o problema era o camarão, a azeitona ou a poesia ausente no tempero.
O fato é que Bilac prometeu nunca mais voltar, e o episódio chegou aos ouvidos de José Lebrão, da Confeitaria Colombo, que viu ali uma oportunidade de ouro.
Lebrão tratou de caprichar: empada perfeita, atendimento de gala e até as lamparinas da entrada foram retiradas, só porque o poeta as achava bregas. Deu certo. Bilac voltou a sorrir e a Colombo ganhou clientes do porte de Machado de Assis, Ruy Barbosa e toda a trupe da Academia Brasileira de Letras.
Em pouco tempo, o café virou ponto oficial da elite carioca e extraoficial da inteligência nacional. A casa cresceu, importou espelhos da Antuérpia, mármores de Carrara, ladrilhos portugueses e vitrais franceses, transformando-se num pedaço de Paris plantado no coração do Rio.
Nas décadas seguintes, a Colombo virou sinônimo de poder e glamour. Getúlio Vargas almoçava discretamente com Virgínia Lane, Carlos Lacerda preferia sentar-se o mais longe possível dele, Juscelino quase levou uma filial para Brasília e Santos Dumont vinha de Paris só para o chá das cinco.
Entre empadas e polêmicas, Paulo Coelho resgatou tradições, Ingrid Betancourt ganhou vaquinha e Seu Orlando, garçom lendário que serviu mais de um milhão de clientes, transformou cada tropeço em anedota.
No fim, a Colombo sobreviveu a poetas furiosos, políticos desconfiados e pandemias globais. Graças a uma singela empada que, sem querer, recheou a história do Rio com sabor de eternidade.

A empada de Olavo Bilac
Na virada do século XIX para o XX, não havia influencer ou subcelebridades. O Rio era mais democrático. Seus cafés e restaurantes ganhavam fama pelas pessoas que os frequentavam. E as estrelas daquela época eram os escritores.
Certo dia Olavo Bilac ficou possesso com uma empada que lhe serviram na Casa Paschoal, uma antiga confeitaria na Rua do Ouvidor. Ninguém jamais soube o que deixou o “príncipe dos poetas” tão pistola. Mas ele saiu de lá pisando firme e prometendo nunca mais voltar.
Ao saber do ocorrido, José Lebrão, um dos fundadores da Colombo, convidou Bilac para provar a empada da casa. “Ele até mandou tirar as lamparinas da entrada porque soube que o Bilac as achava brega”, conta Marcelo Teixeira, maitre da Colombo.
Lebrão mandou caprichar no recheio, no atendimento e nunca cobrou um tostão de Olavo Bilac. Com isso, outros amigos dele como Machado de Assis e Ruy Barbosa, entre outros, começaram a frequentar a Colombo, que ganhou o apelido de “Sucursal da Academia Brasileira de Letras”.
A elite carioca tinha novo point. Os donos encheram as burras de dinheiro e perceberam que havia chegado a hora da expansão.

A grande reforma
Em pouco tempo começou a faltar espaço para tanta gente. “Para você ter uma ideia, o andar de cima, onde hoje é o salão de chá, era apenas um depósito”, conta Marcelo. Nos anos 1910 os salões foram reformados. “A ideia era transformar a Colombo em um pedaço de Paris no Rio de Janeiro”, diz Marcelo.
Os grandes espelhos vieram da Antuérpia, na Bélgica e, como eram delicados, levavam cinco dias em carro de boi para serem levados do Porto do Rio até a Colombo. Cada um deles tem uma moldura de jacarandá entalhada com um desenho próprio.
O piso foi feito com ladrilho hidráulico português, os mármores vieram de Carrara e a claraboia com seus vitrais foi importada da França. A casa ganhou até uma novidade high tech para a época chamada elevador.
“Foram três viagens de navio para trazer tudo para cá. Mas quando tudo estava pronto, veio a Gripe Espanhola, que atrasou a reinauguração”, lembra o maitre da Colombo.
A Belle Époque carioca
Na década de 1920 a nova e faiscante Confeitaria Colombo, com sua arquitetura e ambiente, era um resumo da Belle Époque Carioca. Não havia nada mais chique na cidade do que pegar o elevador e subir para o salão de chá para se atualizar das fofocas.
A Colombo foi o primeiro lugar no Rio onde as mulheres podiam frequentar sozinhas, sem a companhia dos pais, marido ou filhos. “Isso foi uma coisa que já acontecia nas varandas dos cafés parisienses e os donos trouxeram para cá”, diz Marcelo.
Para os homens as regras eram mais rigorosas. Durante décadas não se podia entrar nos salões sem paletó. A casa, em compensação, tinha costumes para emprestar para clientes desprevenidos. “Tinham clientes mais frequentes que, às vezes, apressados, deixavam a conta e o dinheiro no bolso do paletó, que ficava na mesa, e só descobríamos depois”, lembra Marcelo.

Mesas ilustres
A turma da Academia Brasileira de Letras não era a única a ter mesa cativa na Colombo. Praticamente todas as principais bancas de advocacia no início da República tinham ali um cantinho para chamar de seu. Havia até uma mesa do Flamengo, formada em torno do escritor José Lins do Rêgo.
E, claro, havia os políticos. Getúlio Vargas gostava de almoçar numa mesa discreta, nos fundos do salão, muitas vezes na companhia de Vírginia Lane. Segundo os garçons, a dona das “pernas mais bonitas do Brasil”, morreu convencida de que Getúlio foi assassinado.
Carlos Lacerda, quando chegava e sabia da presença de Getúlio, pedia uma mesa o mais distante possível do ex-ditador. E Juscelino Kubitschek era tão fissurado nos doces da casa que, durante a construção de Brasília, ofereceu um terreno para criação de uma filial da Colombo na nova capital. Mas os donos não se interessaram no projeto.
As celebridades
Não é exagero dizer que é difícil alguém vir ao Rio e não passar pela Colombo. Santos Dummont vinha de Paris para tomar chá com Olavo Bilac. E até monarcas como o hoje cancelado Alberto I da Bélgica a rainha Elizabeth II provaram das iguarias locais.
Paulo Coelho, quando foi eleito para a ABL, fez questão de resgatar uma tradição que havia sido perdida. Antes de sua posse, foi à Colombo tomar um chá com torradas.
Recentemente a ex-senadora colombiana Ingrid Betancourt esteve na Colombo e foi reconhecida pelos clientes, que no final, fizeram uma vaquinha para pagar sua conta.

Inspiração para a CLT
Os garçons antigos da Colombo brincam dizendo que Getúlio Vargas se inspirou no modelo de administração da confeitaria para criar a Consolidação das Leis do Trabalho.
“No início, boa parte dos funcionários era de Portugal, e seu Lebrão organizou uma escala para que eles pudessem visitar os parentes. Eram as férias”, conta Marcelo Teixeira. “Além disso, no fim do ano ele dividia o lucro de dezembro com todos os funcionários: era o nosso décimo-terceiro”, diz ele.
O anônimo mais famoso do Rio
Muitas das melhores histórias da Colombo, publicáveis ou não, foram preservados pelo certamente anônimo mais famoso do Rio: Orlando Duque, que começou na Colombo varrendo o chão aos 14 anos em 1952, trabalhou 70 anos na casa e dizia ter atendido mais de um milhão de pessoas. Orlando acabou se tornando uma figura lendária.
Um de seus melhores amigos era um camelô de nome estranho que vendia canetas pelo Centro: Senor Abravanel, mais conhecido como Silvio Santos.

Os causos do Seu Orlando
Em certa ocasião, uma senhora muito idosa, que se locomovia com auxílio de uma muleta, foi lá almoçar. Na hora de ir embora, ela esqueceu a muleta. Orlando saiu correndo atrás dela para entregar-lhe dizendo: “eu sabia que a comida da Colombo era boa, mas que fazia gente andar foi a primeira vez”.
Outra vez, uma cliente pediu uma mesa “benzida”. Os garçons se entreolharam, mas Orlando não titubeou. Levou-a até uma mesa, fez cara de sério, o sinal da cruz, e mandou: “em nome do pai, do filho e do Espírito Santo, amém”. Mesa benta.
E teve até um cliente chato que ia todo dia Colombo e reclamava que a famosa empada não tinha azeitona. Orlando mandou preparar uma empada de massa e azeitonas. O mala não deu o braço a torcer dizendo: “era só o que faltava. Agora na Colombo a empada não tem mais camarão”.
Seu Orlando faleceu ano passado, de causas naturais.


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