No coração da Serra de Macaé, o Arraial do Sana é um distrito que parece ter apertado o botão de pausa nos anos 70. Com suas estradas de terra, cachoeiras escondidas e uma atmosfera que mistura misticismo e música, o lugar atrai turistas em busca do tradicional pacote de tranquilidade e contato com a natureza. Mas o barato dessa vila rústica foi, na realidade, ser um dos principais bastiões da contracultura durante a Ditadura Militar.

Nos anos 1970, a rapaziada ixperta da Guanabara, e daquela estranha cidade cinza ao Sul do Brasil, escolheu o Sana como um refúgio para escapar da repressão política e viver de acordo com princípios mais libertários, temperados por espiritualidade, alguns cogumelos e muita arte na veia. A região, praticamente um nada no meio de coisa nenhuma, tornou-se um ponto de encontro de músicos, artistas e até militantes políticos, derrotados pela regime, que praticaram o que se chama na época como “desbundar”.

Com o tempo, o Sana deixou de ser apenas um esconderijo para se tornar um símbolo de liberdade. Hoje, o Arraial é um destino turístico popular, especialmente entre os cariocas e simpatizantes que buscam um fim de semana tranquilo longe da cidade. Mas, por trás de suas trilhas e cachoeiras, permanece a história de um lugar que foi palco de resistência e expressão cultural em tempos de dura repressão.

Cachoeira do Escorrega é um tobogã natural para quem busca adrenalina | Crédito: Reprodução

História

Fundando oficialmente em 1902, o Arraial do Sana foi fundado em 1902 não passava de uma pequena comunidade rural voltada para a agricultura e criação de gado. Sua localização isolada, cercada pela Serra de Macaé de Cima, contribuiu para que a região permanecesse praticamente desconhecida até a década de 1970.

Mas aí a Lua entrou na Sétima Casa, Júpiter se alinhou com Marte e o Arraial do Sana foi “descoberto” pela comunidade hippie. Gente cabeluda de tudo quanto é quanto. De dentro e até de fora do Brasil começou a brotar por lá. O isolamento geográfico e a beleza natural do lugar atraíram aqueles que buscavam liberdade, espiritualidade e uma vida mais simples.

Choque cultural

Bom, aqui está um dos segredos do Sana: não houve. Muito pelo contrário. A convivência entre os hippies e os moradores locais foi marcada por trocas culturais, onde ambos os grupos compartilharam conhecimentos e experiências.

Os hippies introduziram práticas como a agricultura orgânica ou medicinas alternativas. Por outro lado, aprenderam com os moradores tradicionais técnicas de cultivo e sobrevivência na mata.

A turma do podshcrê que frequentava o Sana praticava atividades como meditação, ioga, espiritualidade alternativa e festas nas cachoeiras. As rodas de música com violões eram comuns, e o uso remédios naturais que aliviam a pressão virou parte da cultura local.

Como foi que o point bombou?

A popularização do Sana começou com a divulgação boca a boca entre a ripongada e, posteriormente, escalou em relatos de revistas e jornais alternativos. Com o tempo, o turismo começou a crescer, e o lugar passou a ser conhecido fora da região fluminense.

Durante a ditadura, muita gente se refugiou no Sana com medo da repressão política nas grandes cidades. Seu isolamento geográfico foi fundamental para que se tornasse um espaço seguro para reuniões, longe da vigilância das autoridades. Hoje, o turismo representa a principal fonte de renda dos moradores.

A inserção no mundo pop

Diferentemente, por exemplo, de Lumiar, o Sana não teve uma música-tema que o inserisse no imaginário nacional como um Woodstock permanente, com cachoeiras no lugar do Jimi Hendrix. E é disso que o local tem de melhor: discrição.

Não tem uma canção que diga que o Sana é um lugar assim ou assado. O espírito do lugar não é ser objeto, mas um tipo de musa ecologicamente correta que inspirou muita gente boa a produzir coisas melhores ainda.

Recentemente o arraial até foi às telonas no filme Pasárgada, de 2014, que marcou a estreia da atriz Dira Paes como diretora.  A trama é sobre uma ornitóloga que durante um projeto de pesquisa mergulhada na Mata Atlântica (olha o Sana aí) enfrenta seus dilemas como mulher, mãe e profissional.

Comunidade hippie é um dos pilares do Arraial do Sana | Crédito: Reprodução

Quais são as melhores cachoeiras do Sana?

Entre as mais famosas estão a Cachoeira do Escorrega, um tobogã natural formado por pedras, ideal para quem busca diversão e adrenalina; a Cachoeira das Sete Quedas, composta por várias quedas d’água que proporcionam um cenário deslumbrante; e a Cachoeira do Segredo, é a mais isolada e tranquila de curtir na região.

O que mais tem para fazer por lá?

Além do ecoturismo, tem muita música. Aqui é onde se realiza, sabe-se lá por que, um dos maiores festivais de reggae do Brasil, o Sana Reggae Festival, que acontece anualmente em maio, atraindo milhares de fãs do gênero para o distrito.

Tem também, como não poderia deixar de ser, o Woodstock em Sana. Mas o principal evento é a Festa do Sana, uma celebração local que mistura música, culinária típica e diversas atividades culturais anualmente em junho.

Mas o Arraial do Sana também recebe eventos culturais, organizados por coletivos locais, com música, arte e gastronomia ao longo do ano todo. Essas atividades são e visam promover a cultura da região, atraindo visitantes que buscam experiências autênticas em meio à natureza exuberante do Sana.

Sana Reggae Festival é um dos maiores festivais do país | Crédito: Reprodução

Onde fica e como chegar?

O Arraial do Sana está localizado a aproximadamente 165 km da Guanabara, o que significa cerca de umas três horas de carro. A viagem é feita principalmente pela BR-101, passando por Casimiro de Abreu, e depois pela RJ-142, conhecida como Estrada Serra-Mar, até chegar ao Portal do Sana. A partir daí, são cerca de 6 km de estrada de terra até o centro.

Para viajar de ônibus do Rio de Janeiro até o Arraial do Sana, o trajeto é feito em duas etapas: primeiro, da Rodoviária do Rio até Casimiro de Abreu, com tarifas entre R$ 45 e R$ 117. De lá, é preciso pegar um ônibus local, van, táxi ou carro de app até o Sana, que fica a cerca de 25 km de Casimiro.

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