O empresário Pablo Marçal (PRTB) atacou o resultado da pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (12), que mostra uma perda de fôlego do candidato. O levantamento indicou o prefeito Ricardo Nunes (MDB) com 27% das intenções de voto, abrindo oito pontos de vantagem contra Marçal (19%), acima da margem de erro da pesquisa, de três pontos percentuais para mais ou para menos. O deputado federal Guilherme Boulos (PSOL) marcou 25%.
— Não tenho dinheiro para comprar pesquisa, então pode falar de tantas que você quiser. Faço os meus trackings todo dia e estou descolado desse povo — declarou o candidato. — Vai com Deus com essa pesquisa. Faz uma fezinha com ela para ver onde vocês conseguem chegar — completou, ao ouvir os números, depois de reclamar do trabalho dos jornalistas no mesmo evento.
Apesar do discurso confiante, Marçal demonstrou abalo em alguns momentos da carreta pela Vila Leopoldina, na zona oeste da cidade. De pé em uma caminhonete, falou pouco e não se empolgou com o evento como em outras oportunidades, a exemplo de ontem, na Bienal do Livro, quando foi assediado por estudantes.
Mais cedo, em encontro com empresários do ramo de restaurantes da capital paulista, ele se mostrou incomodado com a propaganda eleitoral de Nunes. O emedebista levou à TV uma delegada para comentar a condenação de Marçal por furto qualificado, em 2010, em caso que acabou prescrito.
— Foi aberta a representação contra uma delegada da Polícia Civil, que é do Estado de São Paulo, que se levantou contra mim. Está sendo apurado. Espero que a condenação máxima em relação a isso aconteça com a senhora – declarou, acusando-a de agir a mando do governador do Estado, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado de Nunes. — Você está ferindo o princípio nosso do Estado de usar nosso dinheiro para atacar alguém em período eleitoral. Espero que fique sem o cargo — concluiu.
Boulos e os evangélicos
Sem conseguir “furar a bolha” para crescer nas pesquisas, Boulos iniciou uma ofensiva em igrejas evangélicas da periferia, com integrantes da campanha fazendo “panfletagem” nesses locais. Apesar de ainda estar no pódio, levantamentos como o da Quaest e do Datafolha tiraram o deputado federal do primeiro lugar e mostraram dificuldade do candidato para crescer.
Além de entregar santinhos de Boulos e Marta Suplicy (PT), eles vão conversar com os evangélicos para convencê-los a votar na esquerda. Serão dez grupos diferentes, que irão se dividir em cinco regiões da cidade, sempre em bairros da periferia.
Os participantes são evangélicos de esquerda, com entrada e contato com pastores de igrejas menores. Integrantes da campanha reconhecem que a estratégia pulverizada é um “trabalho de formiguinha”, mas que pode gerar um efeito mais positivo e com menos efeitos colaterais do que se Boulos subisse no altar de uma igreja.
Membro do setorial inter-religioso do PT em São Paulo, o pastor Jair destacou que entre os evangélicos, a expectativa é que a campanha possa crescer dos atuais 12% registrados pela Quaest para 15% à 20%. Para isso, destaca, é importante que Boulos atenda as demandas evangélicas, mas sem tentar simular que adotou os dogmas da religião.
— Isso não pega bem — destacou.
Ele reafirmou a ideia de “comer pelas beiradas”, ou seja, procurar entrar em templos pequenos de periferia. A análise é que grandes templos já têm seus representantes políticos, que estão ao lado de Ricardo nunes (MDB). O movimento dentro de igrejas como a Assembleia de Deus, no entanto, não é descartado.
Mesmo com o investimento, a campanha reconhece que a atração do eleitorado evangélico deve ser baixa. A aposta principal aposta continuará sendo entre jovens da periferia e mulheres. A campanha avalia que seria possível alcançar 26% das intenções de voto no primeiro turno.
Além da ação nas igrejas, os próximos três eventos de Lula com Boulos serão caminhadas, para ter contato mais direto com o público espontâneo, na rua — ao contrário de comícios, onde é preciso atrair público para o local. As agendas devem ser uma na zona leste, uma na sul e outra no centro.
Sobre o candidato ter “empacado”, o deputado estadual Paulo Fiorillo (PT), um dos articuladores da campanha de Boulos, nega que um “alerta amarelo” tenha acendido.
— Boulos cresceu dentro da margem de erro, mas cresceu — ele diz. Mesmo assim, a campanha já definiu suas prioridades para os próximos 24 dias.
Já pra o segundo turno, a avaliação é que se Boulos disputar contra Nunes haverá “uma vantagem do engajamento do nosso eleitor”,
Nunes fala em ‘humildade’
A pesquisa Datafolha animou Nunes e reafirmou a expectativa da campanha nas últimas semanas: de que o emedebista enfrentará Boulos no segundo turno e que Marçal “vai cansar” a opinião pública por “não ter o que mostrar”, o que deve aumentar ainda mais sua rejeição. Na pesquisa desta quinta-feira, 44% disseram que não votariam de forma alguma no ex-coach, maior índice entre os candidatos.
A campanha de Nunes acha improvável um segundo turno sem a esquerda, pois ainda acredita num crescimento do psolista até cerca de 30%. Os aliados do prefeito creditam isso à propaganda na TV e no rádio, e à presença frequente do governado Tarcísio de Freitas (Republicanos) na campanha.
A avaliação de aliados é também de certo alívio porque ele tem conseguido crescer nas pesquisas mesmo sem Jair Bolsonaro (PL) ao seu lado, o que demonstra que talvez o ex-presidente não seja tão essencial à campanha.
O emedebista comemora principalmente o bom resultado na periferia, em que consegue ganhar de Boulos mesmo com o rival sendo apoiado por Lula (PT) — tradicionalmente, o PT costuma ter mais entrada entre o eleitor mais pobre. A ideia é seguir focando em agendas e discursos voltados a esse eleitor.
Em nota, a campanha de Nunes afirmou: “Estamos muito satisfeitos com o resultado da pesquisa Datafolha. Recebemos com muita humildade e continuaremos nos esforçando para dialogar com o povo de São Paulo. O que importa são as transformações reais para as pessoas reais e melhorar cada vez mais a nossa cidade.”
Silêncio de Datena e Tabata
A pesquisa trouxe más notícias para as candidaturas que correm por fora. Tanto Tabata Amaral (PSB) como José Luiz Datena (PSDB) recuaram — a deputada variou de 9% para 8%, enquanto o apresentador oscilou de 7% para 6%.
Datena, que em alguns momentos mostrou má vontade com a própria campanha, enviou ao GLOBO a mesma nota que havia mandado na quarta-feira, após a pesquisa Quaest:
“A pesquisa revela um cenário de polarização na cidade que entendemos muito perigoso por ir contra a independência política que a maioria da população deseja do próximo Prefeito. Nossa campanha vai continuar denunciando isso, alertando para a contaminação do poder público pelo crime organizado e pelo risco à democracia que a candidatura de Pablo Marçal significa. Vamos em frente, trabalhando e levando nossa mensagem de esperança e nossas propostas voltadas à população mais pobre da cidade. São Paulo merece mais do que os líderes atuais da pesquisa podem oferecer. Ainda há enorme espaço para mudança e temos convicção de que estaremos no segundo turno”, diz o texto.





