O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de 80 anos, venceu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e foi reeleito neste domingo (25) para seu quarto mandato, um feito inédito na história brasileira, segundo projeção do Datafolha. Com 76,98% das urnas apuradas, o atual presidente tinha 51,17% dos votos válidos, contra 48,83% do senador, que não pode mais alcançar o petista, de acordo com o instituto.
Para projetar a vitória, o Datafolha acompanha os dados da apuração divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e, por meio de um sistema próprio, estima o resultado considerando o agrupamento de eleitores por mesorregião e natureza do município em cada estado. Quando há um número razoável de votos apurados nesses agrupamentos, é possível estimar que um candidato não poderá mais ser ultrapassado.
A vitória ocorre após uma campanha acirrada, na qual Lula ficou em segundo lugar no primeiro turno contra o filho de seu antecessor e antagonista Jair Bolsonaro, que está preso por tentativa de golpe de Estado após perder o pleito de 2022 para o petista. É a primeira vez que um candidato consegue tal virada no segundo turno desde o primeiro pleito presidencial direto da redemocratização, em 1989. Em 2014, Dilma Rousseff (PT) saiu atrás de Aécio Neves (PSDB) nas pesquisas do segundo turno e venceu, mas ela havia chegado em primeiro na rodada inicial.
Aos 81 anos, a serem completados na próxima terça-feira (27), Lula é o mais idoso ocupante do cargo na história. Com o triunfo deste domingo, somou sete disputas à Presidência, tendo ganhado quatro.
Dia de tensão e adiamento histórico
O dia da eleição refletiu a tensão. O Supremo Tribunal Federal (STF) adiou de forma inédita a votação em todo o país por duas horas, após queixa da campanha do PT sobre obstáculos à liberação do transporte público em dez estados, incluindo os populosos São Paulo e Bahia.
A confusão teve tintas partidárias. Apesar de o problema ter sido apontado desde cedo, o ministro do Supremo Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral associado ao bolsonarismo, não se mexeu. Coube ao ministro Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula, determinar o prolongamento da votação, sendo seguido pelo colega.
A campanha e a virada
A rejeição era a mais notável certeza do brasileiro ao ir às urnas, com cerca de metade do eleitorado dizendo não votar em cada um dos rivais. Lula passou a campanha de segundo turno em modo mais olímpico, esquecendo que só bateu o então impopular Bolsonaro no segundo turno de 2022 por menos de 2 pontos percentuais.
Só acordou para o embate nos estertores da corrida, contando com anúncios eleitoreiros como a proibição das bets ou o reajuste do Bolsa Família, além da celeuma em torno de Nossa Senhora, que impulsionaram o voto em segmentos como mulheres periféricas e católicos.
Já Flávio apostou no antipetismo e aproveitou-se da crise na cúpula do Judiciário. Vencedor na primeira rodada por 47,03% a 45,16% dos votos válidos, o senador adotou o salto alto. Falou como eleito, viu alianças consolidadas à direita e nomes de seu ministério serem especulados, além de sugerir uma obscura mudança constitucional para “redemocratizar o Brasil”.
O presidente, após uma primeira semana lavando roupa suja com aliados, mudou o comando da campanha e entregou a estratégia digital para o deputado André Janones (Rede-MG), que montou o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, que chegou ao pleito com mais de 10 milhões de seguidores. Flávio tentou bloquear o canal com o auxílio do presidente do TSE, mas o “Exército” operou até o fim.
Em paralelo, o risco da volta de um Bolsonaro ao poder acordou a militância à esquerda e os centristas que em 2022 também haviam votado em Lula. Começando por estudantes, o segundo turno foi coalhado de manifestações enormes e mais orgânicas, sem a tradicional organização de sindicatos, desafiando a primazia da direita nas ruas.
Os rivais ainda se enfrentaram duas vezes ao vivo, algo inédito, nos debates da Band e da Globo. O primeiro encontro foi marcado por grosserias e baixo nível, que se transmutaram em agressividade com mais comedimento no segundo, ocorrido na noite de sexta (23).
Os desafios do novo mandato
Nada indica que Lula terá paz até a subida da rampa do Planalto, em janeiro. Um foco especial de atenção do governo é a administração Donald Trump, presidente americano que tem uma relação ciclotímica com o petista e é próximo do bolsonarismo. Integrantes do governo passaram o pleito apontando para indícios de que Trump iria trabalhar em favor de Flávio, o que não se concretizou na prática.
O presidente eleito tem agora dois meses para tentar aplainar as grandes tensões políticas e econômicas. Terá certamente o apoio das siglas que já ajudam a sustentar seu governo, como o PSD de Gilberto Kassab e o MDB, e também de alas do centrão.
Não será tarefa simples, a começar pela bomba-relógio no Judiciário. O pleito indicou claramente a divisão entre ministros lulistas e bolsonaristas. Parece difícil uma solução simples para o imbróglio, ainda mais com uma bancada à direita robustecida no Senado, Casa onde impeachment de ministros da corte pode ser apresentado.
Na economia, o mau humor do mercado com o caráter gastador de Lula 3 poderá se ampliar se não houver sinalizações de algum tipo de austeridade, algo que passou longe do discurso da campanha. Diferentemente de 2022, desta vez não haverá a boa vontade no Congresso para passar uma PEC assinando um cheque em branco para o governo de largada.
O futuro do bolsonarismo e a sucessão
Para o bolsonarismo, a derrota de Flávio vai levar a uma disputa por protagonismo no campo da direita. Um ano atrás, o senador não era considerado um sucessor natural do pai. Nomes da órbita bolsonarista, como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), eram vistos como opções que inclusive aglutinariam apoios mais amplos no centro e no centrão.
Sem mandato, Flávio perderá espaço de articulação, e Tarcísio, reeleito no primeiro turno batendo o herdeiro presumido de Lula, Fernando Haddad (PT), está na linha de largada para ocupar o vácuo até 2030. Por outro lado, o ativo do sobrenome Bolsonaro se mostrou forte, dada a competitividade do senador e o desempenho de candidatos associados ao grupo Brasil afora.
A vitória também dá um respiro ao PT, que experimentaria uma hecatombe com a eventual derrocada de seu líder histórico. Agora, sem mandato constitucional após 2030, Lula terá de organizar sua sucessão. Ela passa por sua aliança mais imediata, restando saber que papel haverá para o vice Geraldo Alckmin e seu PSB. Nas últimas semanas, o presidente tem falado crescentemente em legado, acreditando que realmente vai se retirar em 31 de dezembro de 2031.







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